“Livrai-me do fogo do inferno”

“Livrai-me do fogo do inferno”

Houve um tempo em que dei umas aulas no Colégio Estadual de Mariana. Muitos alunos na sala, carteiras muito próximas umas das outras. Era fácil colar, mesmo distribuindo provas diferentes. Quando surpreendia um aluno colando, ia até ele, escrevia um 10 na prova e lhe dizia: ‘a sua nota está garantida. Agora faça o que você sabe. O que importa mais não é a nota que recebe, mas o que você aprende para o seu futuro. A prova é para você se avaliar e ver o que precisa melhorar!’

Há poucos dias, tivemos o retiro do clero. Na recitação em conjunto do terço, depois de cada mistério, como é costume quase consagrado, a jaculatória: “Ó meu Jesus, perdoai-me! Livrai-me do fogo do inferno!” Quando o que estava ‘puxando’ o mistério dizia outra jaculatória aparecia logo alguém para dizer bem alto: “Ó meu Jesus…”. A impressão é de que se não rezar essa jaculatória o terço não valeu.

Não sei porque, mas na hora uni uma coisa com a outra. Fiquei pensando: Deus já nos enviou Jesus Cristo para nos revelar seu amor. Jesus não só deu a vida, mas enfrentou a tortura e a morte mais cruel para nos salvar. Assegurou que seu objetivo é que todos tenham a vida plena. Deixou claro que veio para fazer a vontade do Pai, e que essa vontade consiste em não perder NENHUM daqueles que lhe entregou. Ele nunca nos nega o perdão. Oferece a sua graça, a sua Palavra, a Eucaristia. Mostra-nos o caminho a seguir e caminha conosco. E, depois disso tudo, eu ainda vou lhe pedir que me livre do fogo do inferno?! Será que Ele já não fez e faz tudo o que pode para nos salvar?! Não bastaria apenas a gente se abrir à graça, confiar na sua misericórdia e desejar a salvação?!

Fica parecendo um aluno que não estuda, não se esforça, desperdiça as oportunidades e depois quer que o professor o aprove a qualquer custo. Considero muito mesquinho querer levar uma vida irresponsável, egoísta, rasteira e no final vir implorar a salvação. Como se valesse apenas a vida após a morte, quando na verdade a vida eterna é construída e ensaiada aqui e agora. Jesus mostra de muitas maneiras que para Ele o mais importante é o presente. E, mais que ficar sonhando com a vida eterna, importa viver bem o dia de hoje, numa vida marcada pelo senso de justiça, pela compaixão, pela fraternidade. Tanto que o único mandamento que deixou foi o do amor.

Por isso, sempre defendi que a gente deveria substituir essa jaculatória que pede para nos livrar do fogo do inferno por outra muito mais bíblica, cristã e positiva: “Jesus, manso e humilde de coração, fazei nosso coração semelhante ao vosso!”. Porque se você tiver um coração parecido com o dele, se procurar ter “os mesmos sentimentos de Jesus Cristo” (Fl 2,5), jamais precisará ter medo de inferno. 

E é muito mais bonito, sublime e prazeroso levar uma vida marcada pelo amor, pela bondade, pela gentileza do que levar uma vida mesquinha e ficar implorando para não cair no inferno. É muito mais digno colaborar na construção de um mundo humano para todos do que simplesmente querer vida eterna depois. É muito mais leve fazer o bem por amar a Deus e ao próximo do que evitar o mal somente por medo do inferno. “No amor não existe medo” (1Jo 4,18).

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