Nosso Deus é o “Deus de Israel”?

Nosso Deus é o “Deus de Israel”?

Uma das palavras que mais aparecem na Bíblia é “Israel”. E uma expressão que percorre quase todo o Primeiro Testamento é “Senhor Deus de Israel”.

Ultimamente tenho ficado muito incomodado com essa expressão. E me sinto até desconfortável em usá-la nas orações e celebrações. Ao ver a crueldade do Estado de Israel, exterminando crianças, jovens, idosos, gente inocente, num verdadeiro massacre, e às vezes justificando isso em nome de deus, sou levado a pensar que o deus de Israel é injusto, insensível e cruel.  Até porque na cabeça de muitos, também pessoas religiosas do nosso meio, Israel é o povo eleito, é o único abençoado.

Neste tempo natalino, quando fica muito presente a oração de Zacarias: “Bendito seja o Senhor Deus de Israel, porque visitou seu povo e o libertou” (Lc 1,68), fico me questionando: o Deus em quem eu creio é o Deus de Israel ou o Deus de Jesus Cristo? Se Jesus abriu as portas da salvação para todos os povos e nações, revelou um Deus que não faz acepção de pessoas, e que fez até dos pagãos herdeiros da mesma promessa e membros do mesmo corpo (cf. Ef 3,6-8), como dizer que o nosso Deus é o “Deus de Israel”?!

Percebo que entre muitos evangélicos e alguns setores católicos se dá muita ênfase ao Primeiro Testamento, deixando em segundo plano a figura e a mensagem de Jesus Cristo. Nas pregações que vejo na TV ou pela internet, cita-se muito mais o Antigo do que o Novo Testamento.

A expressão, que virou mote de campanha eleitoral, “Deus acima de todos”, revela justamente essa concepção veterotestamentária de um deus nas alturas, cuja marca maior é o poder. Lá, iremos encontrar que o “Deus de Israel” é tremendo! Dá força e poder (Sl 68,35). Os montes se derretem diante dele (Jz 5,5). Segundo inúmeras passagens, ele é o “Senhor dos Exércitos”.

Daí, a afinidade desses grupos com o poder imposto pela força, com as armas, com a justiça punitiva, com o castigo e o inferno. Por outro lado, Jesus, que é a perfeita revelação de Deus, vem nos falar de um Pai maternal, cheio de compaixão e misericórdia, que não quer a morte do pecador, mas que se converta e viva. Um Deus que é amor. Que não impõe, mas propõe. Um Deus muito próximo, caminhando com a gente, fazendo parte da nossa história. Vem resgatar aquele Deus que “passeava no jardim do Éden à brisa do dia” (Gn 3,8).

Enquanto muitos textos da AT falam de um deus que se deixa levar pela ira quando não é colocado em primeiro lugar (1Rs 22,54), Jesus revela um Deus que só demonstra ira quando percebe que a Lei está sendo colocada acima do ser humano e da vida digna. E que jamais nega o perdão a quem erra. Um Deus que não aceita o pecado, mas jamais rejeita o pecador. E a preocupação dele não é com a religião, mas com a vida concreta, sobretudo dos mais fragilizados.

Por isso, quando muitos entendem que Jesus está desrespeitando a Lei, Ele faz questão de dizer que é justamente o contrário; Ele vem para devolver à Lei o sentido original, a sua razão de ser. Dar a ela o pleno cumprimento (cf. Mt 5,17).

E é isso que se percebe claramente. Quando Ele, como novo Moisés, sobe ao Monte para apresentar a nova Aliança, a nova Lei, em vez de uma série de proibições, como na Antiga Aliança, apresenta um caminho muito mais positivo e propositivo: vocês serão muito mais felizes se forem desapegados, misericordiosos, mansos e puros de coração; se tiverem verdadeiro compromisso com a justiça, a compaixão e a paz (cf. Mt 5,1ss).

Os primeiros mandamentos do decálogo falavam de colocar Deus acima de tudo. Quando alguém pergunta a Jesus sobre o caminho para se conquistar a vida eterna e feliz, Ele retoma os Mandamentos, mas não cita aqueles que falam de Deus; somente os que dizem respeito ao próximo: não matar, não cometer adultério, não roubar, não levantar falso testemunho, honrar pai e mãe… E acrescenta um que não está lá: “não prejudicarás ninguém” (Mc 10,19). “Trate os outros como gosta de ser tratado” (Lc 6,31).

Aqui está o Deus de Jesus Cristo. Não reivindica nada para si; mas exige respeito ao próximo. Não está preocupado com leis, mas com o amor e a justiça. Faz questão de colocar a caridade como critério de julgamento: “Eu estava com fome, com sede, nu, doente, preso, era migrante e você cuidou de mim” (cf. Mt 25,31-46). Acredito que ser cristão é crer, aderir ao Deus de Jesus Cristo, e não ao “deus de Israel”.

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