Tenho uma dificuldade imensa com tudo o que está ligado a violência. Armas, brigas, agressões. Nunca parei pra ver luta de boxe ou similares (não consigo ver isto como esporte) e nem filme de violência. Até para ver o filme “A Paixão de Cristo”, do Mel Gibson, tive que desviar o olhar da tela algumas vezes.
Nunca entendi como pais deixam os filhos brincar com esses games de matança ou presenteiam crianças com armas de ‘brinquedo’.
Nos últimos dias, sobretudo por causa da “Quaresma de São Miguel Arcanjo”, tenho sido procurado por muita gente para abençoar imagens e santinhos de São Miguel. E tenho tido dificuldade para isto. Abençoar uma imagem que vem com espada na mão. E fico pensando no que está por trás do crescimento dessa devoção. As pessoas se identificam mesmo com ele, ou é o poder das redes sociais?
No dia 29 de setembro a Igreja celebra os Arcanjos Gabriel, Rafael e Miguel. Gabriel é aquele que traz notícias boas, como a libertação e reconstrução do povo (Dn 9,21ss), o nascimento prodigioso do Precursor e a encarnação do Verbo (Lc 1). Rafael é o anjo da cura e da restauração (Tb).
Miguel aparece na Bíblia e nos devocionários como “príncipe da milícia celeste”, “príncipe dos exércitos do Senhor”, aquele que precipita no inferno os maus, responsável pela sentença eterna… E falar de milícia em nossos tempos, de exército, assusta bastante.
A Escritura Sagrada nos fala de outros anjos, mensageiros de Deus, que nos guardam e conduzem. “Vou enviar um anjo que vá à tua frente, que te guarde pelo caminho e te conduza” (Ex 23,20). “O Senhor deu uma ordem a seus anjos para em todos os caminhos te guardarem” (Sl 91).
Para mim, todos estes Mensageiros deveriam encontrar mais espaço nas devoções e em nosso coração. Falam de cuidado, de cura, de esperança, da proteção de Deus. Não somente São Miguel. Será que é porque temos uma grande tendência à vingança, à violência, à condenação, porque isto não exige esforço? Por outro lado, o que Jesus propõe, como perdão, compaixão, justiça, reconstrução, isto é exigente e comprometedor.
Parece que a inspiração da Quaresma de São Miguel vem de São Francisco de Assis. De fato, sabe-se que ele fazia três quaresmas ao longo do ano: em preparação para a Páscoa e para o Natal e outra depois das suas pregações itinerantes, que terminava no final de setembro, com a festa da Santa Cruz (25 na época) ou dos Arcanjos (29). Mas não justifica. Até porque Francisco era o homem da paz e do amor incondicional aos pobres e sua referência era Jesus de Nazaré.
E a explicação de que São Miguel é aquele que vence as forças do mal também não faz sentido. Frei Luiz Carlos Susin, em artigo no IHU (19/08/2025) lembra o que diz São Paulo na Carta aos Efésios: não precisamos temer o demônio, dominações, potestades, porque Jesus já colocou tudo isto debaixo dos seus pés. Não é São Miguel, mas Jesus quem vence o Mal. E, para superar as tentações que nos desviam do Caminho, o que precisamos é nos revestir com a verdade e a justiça, calçar os pés com o Evangelho da paz, empunhar o escudo da fé, usar como arma a espada da Palavra de Deus (cf. Ef 1 e 6).
Pior ainda é quando nos deixamos levar pela tentação de colocar nos ombros de outro a responsabilidade de combater por nós e pensar que o inimigo está fora. Jesus deixa claro que nada daquilo que vem de fora pode nos tornar impuros, mas o que está dentro de nós. “É do coração que saem prostituições, roubos, assassínios, adultérios, ambições desmedidas, maldades, inveja, difamação, arrogância” (Mc 7,14-23). Cada um de nós carrega em si anjos e demônios.
Ou seja, nosso inimigo não é um ser externo, um ente maligno que deve ser combatido por um anjo, mas está dentro de nós e vai ser combatido por nós, contando com a graça de Deus e com tudo aquilo que São Paulo cita acima. É muito cômodo terceirizar aquilo que cabe a nós.
E é como diz aquele provérbio: “Dentro de mim há dois cães em guerra constante. Um mau e outro bom. Ganha a luta aquele que eu alimento melhor”. É só ter o cuidado para escolher o que ponho para dentro da mente e do coração.
Em suma, cada pessoa tem o seu jeito de expressar sua fé e escolher os santos da sua devoção, aqueles e aquelas com os quais se identifica. Mas creio que em nosso mundo hoje, tão marcado por guerras, milícias, corrupção, intolerância, precisamos muito mais de novos Franciscos que lutam pela fraternidade universal, Rafael que cura feridas, Gabriel que traz boas notícias, boas-novas, espalham as sementes do Verbo, Dulces e Teresas que veem Jesus nos excluídos, esquecidos e invisíveis à sociedade, do que alguém empunhando espadas…