Sobre as mudanças na nova edição do Missal Romano

Sobre as mudanças na nova edição do Missal Romano

Entra oficialmente no Brasil o uso da nova edição do Missal Romano. Foi atualizado e modificado.  Era mesmo necessário atualizá-lo. E é fruto de muito empenho e dedicação de uma grande equipe.

Mas o que me traz aqui é a necessidade de compartilhar algumas inquietações que toda mudança faz brotar no coração.

A primeira inquietação é o risco de se focar mais do que o necessário e saudável nas rubricas, nos detalhes, na letra, em detrimento do essencial. Sempre me vem à mente o alerta de São Paulo: “A letra mata; o espírito é que dá a vida” (2Cor 3,6).

O Missal traz o rito da celebração eucarística. E uma primeira preocupação é ter presente que a Ceia Eucarística nasceu de uma forma muito simples, num contexto de lava-pés e da entrega total de Cristo por nós. Ao longo dos séculos, o rito foi aprimorado, organizado, mas não pode perder o caráter inicial. É importante voltar sempre às fontes, uma vez que o tempo e a distância fazem crescer, mas também trazem poluentes.

A preocupação exagerada com a letra, com as fórmulas, com a linguagem pode nos desviar totalmente do foco, da essência. E aqui cito alguns exemplos:

O acréscimo feito na fórmula da Consagração no Oração Eucarística I (“santas e veneráveis mãos”, “este precioso cálice”) pode nos levar a uma romantização de algo que é muito mais profundo. Ainda bem que essa mudança acontece apenas na primeira.

O texto acrescenta mais uma culpa no Ato Penitencial. Para quê? O que muda? Aliás, os profissionais da saúde mental esclarecem que sentimento de culpa não leva a nada. O que conta é admitir o erro e procurar corrigir-se, confiando na misericórdia que perdoa. O pai do “filho pródigo” nem deixou que ele terminasse o seu “ato de contrição”. Vejo como algo completamente desnecessário e impróprio.

No convite do presidente à oração, logo após a apresentação das oferendas, substituíram o “nosso” por “meu e vosso”. Não consigo entender que “meu e vosso” não signifique nosso. Mudar para quê?

No prefácio da Oração Eucarística II havia uma expressão que considero muito rica, onde se diz que Jesus é a “Palavra viva”. Tiraram o ‘viva’. Acho que empobreceu.

O Missal orienta que o Credo Niceno-constantinopolitano deve ser rezado nas missas dominicais e solenidades. Sabe-se que esse credo nasceu num contexto de heresias doutrinais. Mas não expressa de fato a fé do povo de Deus. E o contexto hoje é totalmente diferente. Aliás, entendo que a fé cristã tem pouco a ver com fórmulas e doutrinas. É muito mais nossa adesão à Pessoa e à proposta de Jesus Cristo, que é o Reino. É, como diz São Paulo, “ter os mesmos sentimentos de Jesus Cristo” (Fl 2,5).

A linguagem desse credo não é popular. Creio que para 95% do nosso povo as expressões “gerado, não criado”, “consubstancial ao Pai” não fazem qualquer sentido. Outra expressão, que aparece nos dois credos, diz que Jesus está “sentado à direita do Pai”. Para mim, expressão muito infeliz. Passa a imagem de um Salvador estático, ausente, nas alturas. Nos evangelhos aprendemos que Jesus é dinâmico, presente, que está na Eucaristia, na Palavra, na comunidade, nos pobres e sofredores. “Eu estava com fome, com sede, estrangeiro, nu, doente, preso…”. Nada a ver com alguém eternamente sentado no seu trono glorioso.

Pe. Haroldo Han dizia que, em nossa profissão de fé, toda a vida de Jesus, seu ensinamento, a pregação do Reino, todo o bem que ele fez se resumem numa vírgula ou num ponto. “Nasceu da Virgem Maria, padeceu”; “se fez homem. Foi crucificado”. Creio que podemos adaptar e fazer com o povo uma profissão de fé que seja mais atual, mais encarnada, mais vivencial.

Bem, o que quero dizer é que respeito todo o trabalho que é feito com zelo e plena dedicação por tanta gente que ama a liturgia e a Igreja, mas entendo que nada seja uma “camisa de força”. Mesmo porque a Sacrosanctum Concilium nos propõe a “participação ativa, a adaptação e a criatividade”. Assim, não sinto qualquer peso de consciência em me colocar com muita liberdade diante dessas mudanças, procurando celebrar com o povo numa linguagem que eles entendam melhor, sem apego exagerado a fórmulas ou rubricas, mas procurando ser fiel ao espírito que perpassa a verdadeira liturgia, enquanto ação de Deus em nossa vida e enquanto resposta de fé e de amor à sua graça salvadora e libertadora.

O intuito é contribuir para que a liturgia seja de fato um bonito diálogo de amor e salvação entre Deus e seu povo.

Facebook
Twitter
WhatsApp
LinkedIn
Telegram
Email

Mais artigos de Pe. José Antônio

280 anos de uma Igreja santa e pecadora

Uma jovem, que atua na Pastoral da Comunicação e outros movimentos eclesiais, contou que foi comungar. Quando levou a mão para ‘pegar’ a hóstia, o padre lhe deu um tapa na mão, dizendo que “não é assim que se comunga”. Exigiu que estendesse as mãos direitinho, como “manda o figurino”.

Leia mais »

São Miguel Arcanjo: o santo da moda

Tenho uma dificuldade imensa com tudo o que está ligado a violência. Armas, brigas, agressões. Nunca parei pra ver luta de boxe ou similares (não consigo ver isto como esporte) e nem filme de violência. Até para ver o filme “A Paixão de Cristo”, do Mel Gibson, tive que desviar

Leia mais »

O Censo mede números. E o que mede a qualidade?

Acaba de ser publicado o resultado do Censo demográfico do Brasil em 2022. Um dado que tem sido destaque é a redução do número de católicos, enquanto, por outro lado, cresce o número de evangélicos e pessoas que se dizem sem religião. Mas é bom lembrar que o Censo contabiliza

Leia mais »

Nosso Deus é o “Deus de Israel”?

Uma das palavras que mais aparecem na Bíblia é “Israel”. E uma expressão que percorre quase todo o Primeiro Testamento é “Senhor Deus de Israel”. Ultimamente tenho ficado muito incomodado com essa expressão. E me sinto até desconfortável em usá-la nas orações e celebrações. Ao ver a crueldade do Estado

Leia mais »

O amor tem rosto e tem nome

No primeiro dia da semana, estando fechadas as portas da UTI do Hospital das Clínicas de São Paulo, Jesus entrou. Aproximou-se do leito de dom Luciano e disse: Vem comigo, bendito de meu Pai! Era o dia 27 de agosto. Festa litúrgica de Sta. Mônica; aquela que, por anos sonhou

Leia mais »

“Livrai-me do fogo do inferno”

Houve um tempo em que dei umas aulas no Colégio Estadual de Mariana. Muitos alunos na sala, carteiras muito próximas umas das outras. Era fácil colar, mesmo distribuindo provas diferentes. Quando surpreendia um aluno colando, ia até ele, escrevia um 10 na prova e lhe dizia: ‘a sua nota está

Leia mais »

A questão do aborto: o que está por trás da polêmica?

Aborto é uma coisa séria. Mais do que se possa imaginar. Envolve pessoas, vidas, traumas… e muita dor. É oportuno e necessário discutir o assunto! Não se pode ignorar. E muito menos tratar de maneira leviana e superficial. Mas é necessário também levantar alguns questionamentos sobre o que está acontecendo

Leia mais »

Razões para amar Francisco

O padre Jesuíta Pedro Miguel Lamet, em artigo no IHU (15/01/2024), elenca uma série de razões para que amemos e admiremos o papa Francisco. Agradecendo a Deus pelos seus onze anos de pontificado, mesmo sem me prender ao texto, mas nele inspirado, resolvi compartilhar essa reflexão. O primeiro motivo é que

Leia mais »

A imaculada Conceição faz sentido?

Falar de Maria é sempre bom. Realçar a figura da mulher na História da Salvação, valorizar a vida de Maria, o seu “sim” ao Plano de Deus, aprender com ela o gosto pelas Escrituras, a fé inabalável, o espírito de serviço e de saída, a humildade coerente, a visão de

Leia mais »

Teria sido Jesus aquele que enterrou o talento?!

O Pe. Ernesto de Freitas, de saudosa e profética memória, fazia uma interpretação bem diferente de tantas que temos da parábola dos talentos (Mt 25,14-30), apresentada a nós neste 33º domingo do tempo comum. Para ele, Jesus se identifica muito mais com aquele que enterrou o talento do patrão. À

Leia mais »