Acaba de ser publicado o resultado do Censo demográfico do Brasil em 2022. Um dado que tem sido destaque é a redução do número de católicos, enquanto, por outro lado, cresce o número de evangélicos e pessoas que se dizem sem religião.
Mas é bom lembrar que o Censo contabiliza números. Não mede qualidade. E aí está o perigo: a gente se preocupar com números. Claro que é bom ver a igreja cheia, as grandes concentrações, uma comunidade movimentada. Mas será que é isto mesmo que importa? Qual é a qualidade da fé dessas pessoas? O que essa religião está oferecendo de concreto para “que todos tenham vida”? É uma fé sólida, que tem conteúdo e sustentação, ou algo que se esvai à primeira provação?
Os primeiros cristãos eram poucos, perseguidos, solidários, corajosos, comprometidos a ponto de enfrentar perseguições, prisões, tortura e a própria morte. Atraíam pelo testemunho. Quando o cristianismo se aliou ao Império, aumentou em muito o número de (in)fiéis, mas passou a flertar com o poder, o luxo, a ostentação. A Igreja passou de perseguida a perseguidora. Ganhou em quantidade e perdeu em qualidade.
Quando ouço falar de número, penso logo na passagem do Evangelho de João, capítulo 6, quando Jesus alimenta uma multidão por meio da compaixão e da partilha, faz o discurso do Pão da vida, e muitos vão saindo, virando as costas para o seu ensinamento. Jesus não corre atrás, não muda o discurso, não “doura a pílula” para agradar. Apenas pergunta aos poucos que ficaram: “vocês também não querer ir?” E me lembro de quando ele comparava o Reino ao fermento e a nossa presença no mundo como sal. Não fomos chamados para ser massa, mas fermento e sal, que não podem ser muito, mas um pouco que faz a diferença. Que faz crescer e dar sabor.
Tenho muito medo das iniciativas que surgem apenas com o intuito de atrair pessoas, de encher praças e templos. Medo do risco de “trair o Evangelho para atrair pessoas”. Sabemos que grande parte do aumento do número de evangélicos e alguns setores do catolicismo se deve à chamada “teologia da prosperidade”, à promessa de curas, à exploração do aspecto meramente emocional, à propaganda de um deus que me serve, sabendo Jesus propõe um caminho de despojamento, de renúncia, de partilha, da cruz; fala da fé num Deus a quem eu sirvo por meio dos irmãos, e não um deus que me serve.
Vejo por aí muita gente que não professa publicamente uma fé, que não frequenta templos, que não pertence oficialmente a uma religião, mas que carrega consigo um profundo senso de justiça, de compaixão, de solidariedade, que defende a vida em todas as suas manifestações, que luta de maneira gratuita pelos mais pobres e excluídos. E muitos que estão em nossas igrejas e não têm qualquer compromisso. Em nossa paróquia, por exemplo, há uma briga por horários para fazer adoração ao Santíssimo. Cada grupo ou movimento quer um horário para si. Mas não vejo uma preocupação igual para visitar cadeia, os idosos no asilo ou nas casas, os doentes no hospital ou em sua residência, as pessoas enlutadas, os casais em crise. E Jesus não disse: “Eu estava na igreja e você me visitou”, mas “eu estava doente, estava com fome, estive preso…” (Mt 25). Creio que a oração, a celebração, a adoração só fazem sentido se me levam a servir.
O próprio papa Francisco chegou a dizer que “é preferível viver como ateu do que ir todos os dias à igreja e passar a vida a odiar e a criticar os outros” (cf. homilia do dia 23.02.2017). Ou seja, ir à igreja é muito bom, ter religião faz muito bem, pertencer a uma comunidade é importantíssimo. Contudo, Jesus nos alerta que “nem todo aquele que diz ‘Senhor, Senhor’ entrará no Reino, mas aquele que faz a vontade do Pai”. E a vontade do Pai, expressa por Jesus, é amar como Ele nos amou, acolher, promover a vida, ter compaixão e senso de justiça (Mt 6,33).
Assim, creio que nossa meta não deve ser aumentar o número dos que se dizem católicos, mas dar qualidade e conteúdo à nossa fé, formar cristãos comprometidos, preparar gente que seja fermento. Não adianta ter templos cheios de gente vazia de compromisso. “O que conta não é correr atrás das borboletas, mas cuidar do jardim para que elas venham”. Não se trata de arrebanhar gente, mas melhorar a qualidade da fé.
Pe. José Antonio de Oliveira