O Livro de Daniel e algumas lições para o nosso tempo  

O Livro de Daniel e algumas lições para o nosso tempo  

O livro de Daniel, escolhido para o Mês da Bíblia 2026, traz um testemunho profundo de resistência, fidelidade e esperança. E pode nos oferecer muitos ensinamentos para a realidade atual. Um deles é a necessidade da utopia do Reino de paz, de justiça e de amor, num mundo sempre marcado por crises políticas e religiosas. Nosso horizonte é sempre uma sociedade marcada pela justiça, pela equidade, pelo cuidado, onde todos tenham espaço e vez.

O livro registra momentos de crise vividos pelo povo da Aliança, sobretudo quando vítima de exploração e dominação estrangeira (babilônios, gregos, persas, romanos). Diante da pressão de poderosos para abandonarem sua fé, seus costumes e sua identidade, Daniel mostra como a teimosia da fé dos pequenos sustenta a esperança e garante a vida do povo. Podemos registrar alguns dos desafios que o livro apresenta:

Cooptação de jovens e perda de identidade

Na história do livro, o rei quer formar jovens fora da sua cultura e dos seus valores. Para aliciá-los, oferece conforto, boa comida, bebida, formação. Depois de atraí-los, o rei os pressiona a abandonar valores e costumes do seu povo, relativizar sua fé, aceitar práticas injustas, embora começando por coisas aparentemente sem tanta importância. Daniel e alguns companheiros não aceitam e enfrentam o próprio rei, num grande exemplo de coragem, fé e resistência.

Podemos dizer que isto acontece também em nossa realidade. Na sociedade, na família, na religião a juventude é tentada a se desviar de valores e princípios, atraída de modo sutil por um sistema muito marcado pelo relativismo, cultura da aparência, individualismo, exploração, consumismo…  No início pode parecer que se trata de coisas sem importância. Mas aos poucos vai se perdendo a própria identidade, a liberdade, a capacidade de pensar com a própria cabeça. E acontece uma verdadeira inversão de valores.

O livro mostra que preservar a identidade exige vigilância, conhecimento da própria fé, firmeza de princípios e valores, mas sem se fechar ao diálogo e sem deixar de valorizar o que há de bom em cada cultura e expressão religiosa. Daniel mostra que é possível viver dentro de um sistema sem se deixar dominar. Na oração que Jesus faz antes da paixão, Ele pede ao Pai que não nos tire do mundo, mas que nos guarde do mal” (Jo 17,15). Nossa missão é estar no meio do mundo, em todos os ambientes, levando o fermento do Evangelho, sendo sal e luz.

Imperialismo e ditaduras x democracia e justiça

No texto de Daniel, o rei tirano vê em sonho uma grande estátua. Cabeça de ouro, peito e braços de prata, barriga e coxas de bronze, canelas de ferro e pés uma mistura de barro. Uma pedra rola contra a estátua e, como os pés são de barro, tudo desmorona, cai por terra. Daniel diz ao rei que ali estão representados todos os reinos e impérios que dominavam, mas iriam desmoronar. A pedra que rola é o Reino de Deus, que nunca será destruído. Se Deus é deus, o mal e a morte não podem prevalecer. A dor e a morte se transformam em ressurreição e vida.

Daniel mostra ainda que o poder, quando se afasta da justiça, desumaniza e destrói. O rei se enlouquece e depois passa a viver como um animal. Não é mais humano. Mais tarde, Jesus vai ensinar que a autoridade verdadeira é aquela que serve e promove a vida. Poder é serviço. Autoritarismo mata. Egoísmo e ambição desumanizam.

Deus se faz humano, enquanto o homem se desumaniza

O livro fala ainda de monstros que surgem do mar e apavoram, causando morte e destruição. Mas esses monstros são dominados por um ancião (Deus) e por um “Filho de Homem” (Jesus). Aqui fica claro que a vitória sobre o mal vem de um Deus com feições humanas. Deus se humaniza para nos tornar divinos e nos ajudar a combater os monstros que nos assustam. Podemos dizer que a monstruosidade das guerras, da violência, da fome, do ódio e da intolerância só pode ser superada quando existe verdadeira humanidade. Quem provoca tudo isso, nós dizemos, são pessoas ‘desumanas’. Há uma frase do Frei Betto que diz mais ou menos assim: “Sou católico, me esforço para ser cristão, para que, sendo cristão, eu seja mais humano”. Antes de ser católico ou cristão, é fundamental ser humano.

Fake News, manipulação da massa e feminicídio

No final do livro aparece a história muito conhecida da “casta Susana”. Uma mulher digna e honrada que é desrespeitada por parte de juízes e anciãos, vítima de mentiras e difamação. O povo é manipulado pelos juízes e a mulher é condenada à morte. Daniel os desmascara. Eles são pegos na mentira. A justiça e a verdade prevalecem. Numa sociedade onde se propagam fake news, onde a justiça penaliza os pequenos e favorece a burguesia, onde  cresce o desrespeito pela mulher, muitas vezes vítima de exploração, assédio, Daniel mostra a importância da resistência da mulher e da luta de todos por justiça e respeito.

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