Teria sido Jesus aquele que enterrou o talento?!

Teria sido Jesus aquele que enterrou o talento?!

O Pe. Ernesto de Freitas, de saudosa e profética memória, fazia uma interpretação bem diferente de tantas que temos da parábola dos talentos (Mt 25,14-30), apresentada a nós neste 33º domingo do tempo comum. Para ele, Jesus se identifica muito mais com aquele que enterrou o talento do patrão. À primeira vista, isso pode assustar. Mas faz muito sentido. Analisemos!

Em primeiro lugar, não se pode comparar Deus com o patrão desta história. O próprio texto fala de um homem “severo, que colhe onde não plantou e ceifa onde não semeou”. Um patrão que inspira medo, que cobra, que pune de maneira cruel, que visa somente o lucro. Esse não é o Deus de Jesus Cristo, que é amor e gratuidade. Ter medo de Deus é uma das piores coisas que pode nos acontecer. Um Deus que ameaça é o extremo oposto daquele que Jesus nos apresenta.

Como nos diz o Pe. Adroaldo Palaoro, seria idolatria crer num deus que “provoca medo, temor, submissão, coação, repressão”. Um deus que cobra até o último centavo e se apresenta como um justiceiro. Seria um peso, e não libertação. A fé não seria algo prazeroso, mas um fardo.

Outro detalhe que não pode escapar é que esta parábola se insere num contexto de plena rejeição a Jesus. Acontece quando ele chega a Jerusalém e se confronta com a elite religiosa e política que oprime e explora os pobres. Quando expulsa aqueles que fazem do templo um lugar de comércio e da religião um espaço de lucro. Antes desta, vamos encontrar várias parábolas e discursos que revelam essa rejeição, como a dos “vinhateiros homicidas”, que mataram enviados e o próprio filho do rei, dos convidados para o casamento do filho, que também rejeitaram o convite, além das palavras duras de Jesus contra os “escribas e fariseus hipócritas”. Na parábola em questão o terceiro também é expulso e castigado severamente.

Portanto, esta parábola pode estar em consonância com o contexto da proposta de Jesus e da rejeição violenta por parte das autoridades. Jesus não aceita essa visão de um deus justiceiro e nem a prática de uma política e uma religião fundadas na exploração. Se repararmos na parábola, vamos ver que dois dos empregados duplicaram o patrimônio recebido com algum tempo. Ora, ninguém duplica sua riqueza em pouco tempo sem explorar alguém. E não dá para aceitar um patrão que vai viajar “numa boa” e deixa seus empregados “ralando” para aumentar seu patrimônio. É como se o terceiro dissesse ao patrão: “eu não vou ficar aqui me matando para te enriquecer. Aqui está o que é teu. Não tirei do que é teu, mas também não vou explorar alguém ou ser explorado para aumentar tua riqueza”. Nesse sentido, ele se identifica em muto com a postura de Jesus.

Claro que podemos também aproveitar a interpretação comum de que recebemos talentos para serem trabalhados. Recebemos dons “para a utilidade de todos”, diz Paulo. E quem de fato ama a Deus e ao próximo, quem tem uma verdadeira fé em Jesus Cristo vai usar da melhor maneira seus dons para servir, promover a vida, fazer acontecer o Reino. Mas não por medo ou cobrança, porque a gratuidade e a liberdade estão entre as grandes marcas da proposta de Jesus.

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