280 anos de uma Igreja santa e pecadora

280 anos de uma Igreja santa e pecadora

Uma jovem, que atua na Pastoral da Comunicação e outros movimentos eclesiais, contou que foi comungar. Quando levou a mão para ‘pegar’ a hóstia, o padre lhe deu um tapa na mão, dizendo que “não é assim que se comunga”. Exigiu que estendesse as mãos direitinho, como “manda o figurino”. Ela obedeceu e, envergonhada e cabisbaixa, voltou para o seu lugar.

Ouvindo isto, fiquei refletindo sobre a ditadura dos ritos. E o que é, de fato, COMUNGAR. Na formação litúrgica explicam que é preciso fazer vênia antes, estender as duas mãos etc… Mas isto é para receber a hóstia, não para comungar.

O pensamento voou lá para os tempos de Jesus, quando ele chamava de hipocrisia se ater aos ritos, às formas corretas, aos vasos e ao externo, em vez de valorizar o interior, o coração (cf. Mt 23).

E aí me veio à mente um vídeo da Internet, onde a tela é dividida em duas. Na parte superior alguém explica, numa mesa luxuosa, como usar cada talher, cada taça, o guardanapo, não colocar os cotovelos sobre a mesa, a postura correta. Enquanto isso, na tela de baixo está uma pessoa simples, com uma panela de macarrão nas mãos, comendo com uma colher, feliz da vida.

Quem pertence à burguesia pode até se sentir bem naquele ambiente de luxo, cheio de regras e etiquetas. Mas duvido que consiga ser mais feliz. E uma pessoa simples naquele ambiente vai se sentir um “peixe fora d’água”. Porque, para quem está com fome, o que conta é o alimento, não a forma de comer.

Isto pode valer para as nossas celebrações. O Evangelho, sobretudo em Marcos 6,17ss, nos mostra um quadro muito parecido. De um lado, o banquete de Herodes oferecido à burguesia. O banquete do luxo e da ostentação, que termina de forma cruel com a execução de João Batista. Logo abaixo, o banquete da vida, oferecido por Jesus ao povo simples e sofrido. Fruto da partilha e da compaixão. O povo se alimentando sentado no chão, bem à vontade, confortado e feliz.

Há celebrações que se tornam frias e sem vida, por um excesso de ritualismo, de normas e exigências. E a preocupação com o rito ofusca o essencial. Celebrar a fé, a vida, o amor de Deus, viver a verdadeira comunhão com Jesus Cristo, com seu Projeto de vida, com os irmãos é a coisa mais linda. Mas o rubricismo e a preocupação estética normalmente nos levam a desviar o foco da essência: o amor, o respeito, a compaixão, o senso de justiça.

E a importância da coerência entre fé e vida, celebração e compromisso jamais pode ser esquecida. Porque a incoerência é um forte contratestemunho. Por isso, fiquei incomodado com alguns ‘detalhes’ da tão merecida e necessária celebração dos 280 anos de história da nossa querida Arquidiocese. Há menos de um mês Mariana acolheu a 8ª Romaria das Águas e da Terra da Bacia do Rio Doce, fazendo memória dos 10 anos da “tragédia-crime” (palavras de Dom Vicente Ferreira – CNBB) da barragem do Fundão, em Bento Rodrigues, que “matou e destruiu” vidas humanas e a natureza. Rompimento que foi consequência da “ação gananciosa e criminosa” (palavras de Dom Lauro Versiani – Presidente do Regional Leste 3) de empresas.

A Samarco e a Vale foram condenadas como responsáveis pela tragédia, inclusive no Reino Unido, por negligência e falhas. E respondem por este e outros processos. Mas agora, no cartaz-convite para as celebrações dos 280 anos da Arquidiocese, lá estão as duas como patrocinadoras do evento.

Ou seja, na celebração tão bonita e tão merecida dos nossos 280 anos, o apoio financeiro vem passar um pano por cima de tudo o que foi refletido e celebrado poucos dias antes pela Província Eclesiástica e outras dioceses.

Enquanto o dízimo e as ofertas do nosso povo de fé sustentam o dia a dia da evangelização, da promoção da vida, da luta pelos direitos e pela justiça, o capital patrocina a festa. É triste, mas acreditamos que o barulho das bandas, dos sinos, do órgão, do incenso, do ouro e das vestes não conseguirá ofuscar o som incômodo e belo da profecia evangélica.

A tela tão bonita da nossa história, desenhada a mil mãos com as tintas do Evangelho, do amor e do compromisso com a vida, é apresentada no palco para a alegria de todos. Como tudo o que é humano, estará respingada pela feia lama da nossa incoerência. Mas ninguém jamais irá sepultar o sonho do Reino de justiça e de Vida. As sementes deste Reino podem não aparecer, mas são muitas e grávidas de vida. E ainda há muita gente que, em vez do dinheiro, prioriza a vida; em vez dos ritos, vive de fato a Comunhão.

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