Falar de Maria é sempre bom. Realçar a figura da mulher na História da Salvação, valorizar a vida de Maria, o seu “sim” ao Plano de Deus, aprender com ela o gosto pelas Escrituras, a fé inabalável, o espírito de serviço e de saída, a humildade coerente, a visão de justiça social, a coragem e perseverança, tudo isso é profundamente enriquecedor para a nossa fé.
Por outro lado, há sempre o risco de nos apegarmos a detalhes ou cair numa visão infantilizante ou meramente devocional dessa figura ímpar de mulher e de modelo cristão.
O dogma da Imaculada Conceição, a meu ver, pode ser uma armadilha para incorrermos em dois grandes equívocos que, em vez de elevar, diminuem Maria.
Tal dogma afirma que Maria foi concebida sem o pecado original. A liturgia da solenidade afirma que Deus a preservou de toda mancha de pecado, com o objetivo de preparar para o seu Filho uma digna habitação (oração da coleta). O prefácio diz que Deus a preservou da culpa original.
Isso pode nos passar a ideia de que Deus a criou prontinha para ser a mãe de Jesus. Parece não se levar em conta os méritos de Maria. Ela já foi predestinada. Nem tinha como dizer não a Deus, porque já fora escolhida e preparada para essa missão.
Contudo, quando lemos o primeiro capítulo de Lucas, encontramos ali uma jovem profundamente conhecedora das Escrituras. Sabe qual é o papel do Messias prometido, coloca-se como servidora do Deus da Aliança, e em seu “Magnificat” demonstra, não só conhecimento, mas plena sintonia com o cântico de Ana (1Sm 2,1-10) e com inúmeros outros textos sagrados onde se expressa o cuidado de Deus com os pobres e pequenos, bem como sua rejeição ao mau uso do poder e da riqueza. Ela tem consciência clara da Aliança de Deus com o seu povo e plena confiança no cumprimento das promessas feitas aos pais da fé.
Certamente, por tudo isso, Deus “encontra graça” na sua pessoa e no seu modo de viver. Deus se agrada e reconhece o seu valor. “Não temas! Encontraste graça junto de Deus!” (Lc 1,30). Ela soube corresponder muito bem à graça de Deus.
Outra questão mais delicada é se falar do “pecado original”. Segundo o ensinamento da Igreja, Maria foi concebida sem pecado, sem mancha, pura e imaculada. Mas não será que toda criança que nasce é pura e imaculada?! Se o pecado é dizer não, livre e conscientemente, aos planos de Deus, como imputar isso a uma criança inocente que acaba de nascer?! Como falar de culpa? Tudo o que Deus faz é bom. Muito bom! E é ele que cria cada vida. Somos “tecidos por Ele no seio materno” (Sl 139,13). Podemos afirmar que todos nascemos puros. Além disso, se Deus “não faz acepção de pessoas”, como diz São Pedro (At 10,34), por que iria privilegiar uma pessoa e não outras?
O teólogo Andrés Torres Queiruga (Della fede. La certezza, il dubbio, la lotta) traz alguns questionamentos bem pertinentes. Lembra que é consenso entre teólogos e exegetas que os relatos da criação no livro do Gênesis são de natureza simbólica/alegórica. Portanto, não deveriam ser tomados como argumento para explicar a culpa original. O que pretende ser uma exortação moral não pode ser usado como fato histórico.
Ao fazer isso, a Igreja transmite aos seus fiéis “duas concepções monstruosas: a) que Deus é capaz de castigar de modo terrível; e b) que Ele faz isso a bilhões de descendentes que não têm a mínima culpa por esse suposto erro. E, além disso, o castigo seria desproporcional. Todo sofrimento, doença, e a própria morte provêm de uma decisão divina, como forma de castigo”.
Sendo assim, faz mais sentido olhar para a figura de Maria no seu todo. O seu sim, a sua vida, o seu compromisso com Deus e com a humanidade. Ela é modelo, referência, exemplo. E sua pureza se manifesta na plena sintonia com Deus. Não há espaço para o mau em seu coração. É verdade que a graça de Deus foi abundante nela, como o é em todos nós. Só que ela soube responder de uma forma que alegrou em muito o coração de Deus. E certamente é isso que ela quer nos ensinar.