As visitas da Mata dos Pacheco, em 2 de agosto, riem do tambor azul, agora marrom de ferrugem, escutam memórias vivas da cozinha-casa – quando a mãe banhava as meninas, as colocava na cama e lhes dava o jantar, já prontas para dormir – e, à mesa, as visitas lembram territórios quilombolas, pedras cujo manejo pela organização popular impede o avanço sempre violento do capital.
Depois elas deixam a casa sob lembranças (quase) seculares e, em descida, vão percorrendo aquele chão sagrado, onde habitam bons espíritos, na banca de trabalho puída, na marretinha e machado ao canto, na árvore deitada sobre a trilha, no carneiro hidráulico em descanso, na bica construída a braço em dor de partida, na proteção das nascentes sem o pisar do gado e no murundu, termo de origem africana que, no Brasil Central, costuma dar nome a microrelevos formados por ninhos de cupins ou acúmulo de terra; dada, porém, a polissemia de nossa língua-pátria, ‘murundu’ empresta nome a distrito de Campos dos Goytacazes, estado do Rio, e ao Tradicional cemitério da Região Oeste, também no Rio de Janeiro.
No entorno do murundu e por toda a extensão da parte baixa da área, o ‘valor’ do terreno divide opiniões porque o senso comum diz, com algum interesse, que ele vale pouco por causa do brejo, já a ciência e o saber ancestral mostram que, justamente aí, está sua maior riqueza, a biodiversidade.
Os bilhões de microorganismos do brejo se somam à abundância das árvores, cada qual, em porte médio, com capacidade de produzir 120 kg de oxigênio por ano, portanto o sítio tem valor inestimável.
Dali as visitas seguem pela trilha da vó, sombreada de árvores que se abraçam umas às outras – e ao cabo de energia – e, da porteira com cadeado, se avista a casa onde ela (a vó) habitara.
No batente da porteira, o espírito, que sendo vivo apenas escuta e sussurra, revive histórias transpassadas de dores por parto.
Dessas entranhas nasce o novo. E, na ‘volta pra frente’, até o chiqueiro, a consciência, grávida de matéria-símbolo, sonha momento de espiritualidade ali, quem sabe ainda neste ano, porque bons espíritos adoram presença de pessoas que respiram paraíso e o respingam na história.
A percepção da potência da materialidade vem de longos tempos. Na Grécia antiga, Aristóteles a sentiu em diálogo reflexivo com Platão, que via nas coisas apenas a sombra do real; Tomàs, que bebe em Aristóteles, cunha a frase ‘nada existe no intelecto que não tenha passado pelos sentidos’; Marx, que destrinchara o capital igual se faz com porco pós abate, descobre que ‘não é a consciência que determina o ser, mas, ao contrário, o ser social que determina a consciência’; Beto, por sua vez, vai sintetizar essa ideia na afirmação popular ‘a cabeça pensa onde os pés pisam’, e parece verdadeiro, também, que os pés podem chegar até onde as cabeças pensam, grávidas de materialidade.
O próprio Deus adora a materialidade, transbordamento de seu amor infinito, e Ele mesmo se insere nela, quebrando, de uma vez por todas, a diconomia entre coisas sagradas e mundanas, amor humano e divino, natureza e pessoas. Tudo tem seu elo comum na mesma matéria, em permanente diálogo.
A única dicotomia que há, verdadeiramente, é a de classe, que gera opressor e oprimido, e a luta central que existe, portanto, é guiada e sustentada pelas ‘pequenas’ vitórias guiadas pela energia do arco-íris-sonho por um mundo sem nunhum tipo exploração.