Tanto o pequeno cartaz de boas-vindas no quarto da São João Batista, 15 de agosto, quanto as manifestações de Carinho em Congonhas, após sete anos ali, colocam em boa medida o sentimento de gratidão e lançam luz sobre a expressão prepositiva ‘a partir de’ enquanto modo próprio de uma eclesiologia missionária. Acrescentem-se bombons em vasilha sobre escrivaninha – já partilhados -, vazo de flor e estante nova de aço, em tudo o toque de amor, e terão a dimensão do contentamento pela autonomia da missão.
A expressão ‘a partir de’ é intencional porque caracteriza experiência de trabalho orientada por causas centrais do povo oprimido, em qualquer parte do mundo, antes que por obrigações num espaço geográfico delimitado, focada nas dimensões Comunitária, Missionária e Sociopolitica, onde evangelização equivale a processo libertador integral. Tal opção enxerga na CEB a síntese histórica dessas dimensões, Igreja no sentido pleno.
Na Arquidiocese de Mariana e alhures, amiúde se confunde CEB com a Equipe de Animação, o que lhe empobrece o sentido porque se lhe rouba o mistério, mas, ainda assim, ela vem se fortalecendo porque o grupo de reflexão, célula que lhe põe sangue divino na veia, ganha espaço. O Fermento qualificado em roteiro no último período passa de ‘coisa da roça’ e de ‘coisa boa entre outras iguais ou melhores’ a status de escola de formação permanente e se multiplica. Viçosa tem quatro paróquias e conta quase uma centena e meia deles, sendo cerca de 60 na São João Batista e 34 em Fátima.
Assim é a comunidade normal (CEB) gestada pela encarnação continuada da consciência missionária através da Palavra de Deus refletida e celebra e partilha e promove a vida na sua diversidade. ‘Na caminhada da Igreja no Brasil, as Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) realizam o ideal das pequenas comunidades centradas na Palavra, assíduas aos sacramentos e comprometidas em formar discípulos que testemunhem o Evangelho na Sociedade’ (Diretrizes Gerais da Igreja no Brasil, 2026-2032).
A primeira consequência da consciência missionária da comunidade é a proximidade aos oprimidos, aos seus defensores e aos instrumentos políticos de sua organização.
Nesse ponto, explicita-se a relação tensional entre visão paroquial, firmada no direito canônico e nos pilares ferro-cimento, e a consciência missionária. A primeira tende a vender seu peixe na sua barraca, cria instituições formalmente sólidas e beira à síndrome do poste, fazendo mil coisas sem sair do lugar. A segunda olha o mundo plural com otimismo realista, insere-se nele, lança raízes profundas, constrói relações e descobre um mar de possibilidades na proteção da vida.
Os oprimidos, sobre quem pesa a estrutura injusta, tornam-se os principais artífices da nova ordem quando entram em processo de emancipação da consciência por fé em poliedro e obra de muitas mãos.
Os grupos de reflexão podem aflorar esse ambiente favorável aos sofredores percebendo o parentesco entre movimentos populares e CEB, filhos prediletos de sangue ou afinidade. A fé que se fez carne no meio campesino, operário e universitário foi vetor importante na derrubada da ditadura militar e na redemocratização do país.
Quando hoje o fantasma roedor das democracias se aloja na extrema-direita das religiões e do mundo, forçando a roda da história para trás, essa energia místico-popular tem a esperança de derrotá-lo nas urnas, 4 de outubro, e a responsabilidade de afiar as ferramentas de luta pelo permanente trabalho de base, assim pastorais sociais, associações, sindicatos, partidos políticos ganham sangue novo e, frenado o retrocesso, o país dará passo adiante na democracia participativa a justiça social.