Parece que quanto mais se rebaixa o debate político tanto mais vertentes religiosas retrógradas entram nessa arena e, via de regra, pioram o ambiente, pois substituem reflexão por dogma, transformam adversário em inimigo e intentam ter a Deus por cabo eleitoral; coisas nefastas, a história atesta que a manipulação da sensibilidade religiosa é um dos principais vetores da extrema-direita e das ditaduras mais violentas.
Um que outro pode considerar o raciocínio exagerado por causa da performance de jovens candidatos e da sua desenvoltura nos shows da fé, mas a questão é ‘a serviço de quem, quais feras alimentam?’.
Panfleto de pai e filha neste ano eleitoral dá vazão a esse quadro preocupante porque traz a frase ‘católico vota em católico’, nove fotos – entre as quais um padre – e textiúnculo com a passagem ‘as maiores lideranças católicas do Brasil apoiam as candidaturas (nomes) por considerá-los os legítimos representantes da nossa fé na Assembleia de Minas e na Câmara dos Deputados’.
A Assembleia de Minas, em BH, e a Câmara dos Deputados, em Brasília, não são agremiações de igrejas. O estado brasileiro não é um estado religioso, graças a Deus!
Também soa pretenção ridícula, senão usurpação, pai e filha se considerarem ‘os legítimos representantes da fé’ , pois ao menos a igreja católica não tem candidatos oficiais.
Mas talvez caibam, aqui, despretensiosas considerações sobre o sentido da expressão ‘representantes da fé’ e lembranças de alguns nomes, dentre muitos, cuja história de vida revela real compromisso com o povo brasileiro e faz deles bons políticos.
No meio católico, Patruz, Leleco, Padre João Carlos. No meio cristão, Beatriz, Áurea, Marília, Lula.
No sentido lato, igualmente importante num estado laico, se a expressão ‘representantes da fé’ abrange todas as pessoas ocupadas do bem comum pela sociedade justa, independente da matriz religiosa e do crer/não crer, aparecem tantos outros nomes bons, entre eles Rafael Duda, camarada lutador e defensor da classe operária explorada pelas mineradoras.
Lembre-se! O povo brasileiro não vai às urnas em 4 de outubro para escolher o líder de sua igreja ou religião, pastor, bispo ou papa.
Pense nisso!