A criança segue a fila durante o Plenarão na Santo Antônio (5/9) e, entre pessoas grandes, abaixa-se perto da ‘casa’, posta à frente, participantes em círculo, e, acolhida pelas mestras de obra, sorrisos mútuos, entrega um tijolinho, depois mais outro, volta contente para junto da mãe e, vez por outra, corre a brincar fora do templo.
A Igreja Povo e a Sociedade Justa é projeto desafiante, mais pelas mentes calejadas de preconceito que barreiras externas, o que exige construção permanente, e a iniciativa de Lorena, única a levar dois tijolos, talvez indique que essa tarefa é das mais urgentes, exige redobrado empenho; por isso a importância decisiva dos Grupos de Reflexão nas Comunidades Eclesiais de Base e dos movimentos populares, caminho de transição da devoção à emancipação de consciência, condição necessária à vivência cotidiana de fé na vida.
A discreta confissão de Nivaldo, hoje ativo nas missões, mostra, ao mesmo tempo, o tamanho da resistência à Política do Bem Comum e o quanto a persistência vale a pena porque muda o pensamento: ‘moro em Congonhas, o Grito dos Excluídos está na sua trigésima segunda edição e vou participar pela primeira vez’.
Essa passagem é necessária, pois a devoção por si só transfere a mitos e a Deus tarefa histórica, que cabe ao principal sujeito da Sociedade Justa, o povo organizado.
A percepção de Miguel de Cervantes em sua obra-prima, Dom Quixote de La Mancha, parece de atualidade estrelar: ‘estamos lutando contra três grandes monstros: a injustiça, o medo e a ignorância’.
Mobilizações energiizam esperanças e sonhos na existência engajada pela Amazônia, Paz, Moradia, Mulheres vivas, Soberania, num município, região e estado onde as mineradotas dão as cartas e, em emergência climática, seguem a violenta degradação.
Após Plenário, juntam-se faixas e cartazes e bandeiras e cada símbolo, pois o fermento está pronto para ir ao encontro da boa massividade.
Caminhantes formam um corpo na sua diversidade de membros, passam por túnel sob a 040, depois sobre trevo, com as providências de segurança, e vão se movendo rumo à lagoa.
Há quem fique para trás em manejo de drone, que zuni no ar e filma tudo, e, vendo que os carros pedem passagem, adianta o passo e atravessa a etrada.
Enquanto isso, a imagem peregrina do Bom Jesus desce da São Francisco com carro de som e animado cortejo.
Agora fermento e massividade se encontram e, num só corpo vivo, com estrutura óssea e carne e nervo e sangue e sentimento, cantam e oram e riem e dão-se as mãos e se movem, circulando a lagoa, num grande abraço.
‘Caminhar devagar e sempre, sem parar!’; o refrão se repete e os elos do Grito, engatados por mãos dadas, vão se deslocando, deslocando, vagarmente, numa forte corrente simbólica da liberdade, no êxodo da antiga escravidão do Egito e da exploração moderna à sonhada Terra de Canaã.
O sol, quase a se pôr, vem em auxílio e, com seus raios no espelho da lagoa, reproduz imagem do abraço sob as águas, num cenário-surpresa de rara beleza, provocando, aqui e acolá, pequenas rupturas na corrente, de gente admirada a tirar foto.
Se povo tem sina, não é de ser sempre pesado mas de lutar sempre, num processo de libertação permanente.
Mãos à obra!