Terço de madrugada, Cristo é Show e leopardos

Terço de madrugada, Cristo é Show e leopardos

Cada terço com frei Gilson lhe rende por dia 18 mil reais porque o You Tube paga 4,50 por unidade de vídeo longo com 1000 visualizações, então cada pessoa conta 0,0045 reais ( resultante de 4,50 dividido por 1000).

Essa quantia ‘insignificante’ multiplicada por 4.000.000 de pessoas (número de visualizações) resulta nos 18 mil.

Mas se se considera a Quarentena, aí o montante é maior, pois 18 mil reais vezes 40 dias é igual a 720 mil, valor que se refere apenas ao ‘inocente’ tercinho diário das madrugadas porque, se houver venda de produtos ou QR Code, a importância pode dobrar, isso sem contar os shows e outras benesses ‘normais’ no mundo de quem surfa as ondas da fama ao lado do sistema dominante.

Fazer as contas do terço diário matutino é tarefa importante do ponto de vista da compreensão do fenômeno em si porque, de cara, a questão, aparentemente religiosa, se revela econômica, confirmando a regrinha de ouro segundo a qual, numa sociedade capitalista, cuja base de acumulação é a exploração de bens naturais e do povo, “compreender os ‘mistérios’ é seguir o caminho do dinheiro”.

O sistema dominante tem à sua disposição os papéis ‘religioso’ e ‘bom moço’ – inclusive, sabendo embrulhar suas mercadorias ao gosto do freguês.

Terço de madrugada cai bem para um povo que perde o sono diante de tantos desafios e num país católico que tem a Nossa Senhora Aparecida
por padroeira, onde o devoto diz ‘mãezinha’ e ‘Deus está no comando’, com toda fé de seu coração, e o mercado da fé enfia a ‘mãozinha’.

Desnudado o embrulho,
parece oportuno refletir o Cristo é Show em BH, 3 de maio, interface bem ajustada do econômico ao ‘político’, quando o deputado federal Eros Biondini, Partido Liberal (PL), organizador do evento, reúne vozes ‘católicas’ num Mineirão lotado, com 80 mil pessoas.

Diante da multidão ferida das injustiças sociais e em delírio, anestesiada das luzes e cores e das promessas de cura, milagre da tecnologia, pregadores rasgam seda ao político mineiro, e à sua filha, Chiara Biondini, deputada estadual pelo Partido Progressista (PP), aclamada gigante por padre pregador, o que rende a pai e filha reeleição sem nenhum esforço e, de quebra, peso político no prato-feito-balança da extrema direita.

Enquanto esses terrivelmente católicos desmiurgos se fazem representantes da igreja no Congresso Nacional, Padre João Carlos Siqueira – entre outros-, político cristão, é um ‘leproso’ entre muitos de seus pares.

Frei Gilson e os padres midiáticos em geral não precisam falar diretamente de política; eles são cabos eleitorais ‘naturais’ do Bolsonarismo devido à identidade do embrulho na linguagem simbólica, ainda que, por vezes, intenções-conteúdos sejam diferentes.

O discernimento entre uma coisa e outra não é simples, e isso enche o inferno de boas intenções.

Quando se avizinhar a Campanha eleitoral deste ano isso ficará mais evidente; o Bolsonarismo, extremamente hábil nas redes sociais, não deixará por menos e certamente levará, pelos padres midiáticos, algumas centenas de milhares de católicos.

A anatomia do terço ao Cristo é Show, na sua trigésima sexta edição, aponta a presença subliminar do ‘Cristofascismo’, termo cunhado pela teóloga alemã Dorothee Solle, década de 1970, e descreve a fusão do cristianismo fundamentalista com sistemas totalitários, ou a utilização da fé cristã para legitimar o poder opressor, uma reorganização do mundo pelo retrocesso histórico arcaico onde o poder político passa de vontade de ‘mulheres-homens’ à vontade divina, a luta por justiça social dá lugar à disputa moral bem-mal-deus-diabo (com especial atenção ao último), e tudo que soa diferente é inimigo e precisa ser eliminado.

Essa junção explosivamente violenta entre religião e política manipuladas costura o pano de fundo do Holocausto, que assassinou cerca de seis milhões de judeus por limpeza étnica durante a Segunda Guerra Mundial.

Parece razoável pensar que elementos do Cristofascismo no senso comum permitiram, também, o ‘Holocausto Brasileiro’, Hospital Colônia de Barbacena MG, resultando na morte de cerca de 60 mil pessoas – com venda de corpos à UFMG-, a maioria dos internos não tinha diagnóstico de ‘doença mental’, sendo levados ao manicômio por ‘limpeza social’, incluindo homossexuais, prostitutas, mulheres violentadas por patrões, empobrecidos e opositores políticos.

Raciocínio semelhante se aplica à Pandemia, que ceifou a vida de 700 mil pessoas no Brasil – o que corresponde à metade da população de toda a Arquidiocese de Mariana – por causa da letalidade negacional, na substituição da ciência por dogmas.

Alguém pode se incomodar com a associação terço de madrugada-Cristo é Show-Cristofascismo, mas tudo está interligado.

Aí mora o perigo! Aquele movimento que arrebanha as juventudes lá no ‘fim do mundo’, na ‘sua’ paróquia, pode ter o vírus neopentecostal (sede do poder) e, a despeito do forte espiritualismo, moe o espírito.

Não é aconselhável criar leopardos em casa , os bichinhos vão crescer e, pelo instinto carnívoro, colocam em risco a Casa Comum e a Igreja Povo de Deus em Comunidade.

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