Órgão da Sé, 280 anos da Arquidiocese de Mariana e os dedos

Órgão da Sé, 280 anos da Arquidiocese de Mariana e os dedos

O famoso Órgão da Sé de Mariana é jóia histórica e artística única fora da Europa, construído na Alemanha (família Arp Schnitger) no início do século XVIII e presenteado pelo rei Dom João V ao primeiro bispo de Mariana, dom Frei Manoel da Cruz. O Órgão possui 1039 tubos, 2 teclados e passou, recentemente, por processo de restauração de seus ‘pulmões’ na Espanha – parte muito sensível chamada someiros -, retornando em setembro de 2025 pronto para oferecer concertos regulares gratuitos por divinos dedos de artistas a pessoas do mundo inteiro.

A preciosidade do Órgão da Sé e a comemoração dos 280 anos de instalação da Diocese de Mariana fazem pensar noutro importante instrumento, a Igreja – com toda sua estrutura, desde a capela mais simples ao santuário de requinte -, particularmente sua postura frente à ditadura econômica das mineradoras, tentação diabólica inibidora da força revolucionária do evangelho.

Dom José Ionilton Lisboa de Oliveira tem ação exemplar quando
proíbe recebimento de recursos financeiros de empresas que expulsam comunidades indígenas, quilombolas e ribeirinhos de suas terras em decreto de 2022, aplicado a todas as paróquias, comunidades, pastorais, movimentos e grupos ligados à Prelazia de Itacoatiara, estado do Amazonas. Ele fundamenta sua decisão na Laudato Si, do Papa Francisco, que completa um decênio neste ano.

O posicionamento do bispo está em harmonia com a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil – CNBB, crítica ao atual modelo predatório de exploração de bens naturais – especialmente minério -, que fere a dignidade humana e a diversidade da vida.

O Conselho Episcopal Latino-Americano, por sua vez, reunido na Cidade do Panamá, entre 7 e 10 de outubro de 2024, declara que ‘toda mina contamina’, referindo-se ao extrativismo degradador, modelo econômico que devasta e aniquila outras propostas de vida das comunidades em seus territórios, numa ‘desenfreada tendência do sistema em transformar bens naturais em capital’.

Muitas outras notas-testemunho se poderiam citar, mas essas já elucidam o segredo dos tons na imbricação sensível entre dedos e teclados.

Rejeitar dinheiro de empresas diante de necessidades reais parece loucura, mas tal postura é adequada a quem deseja ‘salvar’ a autonomia do evangelho pela libertação integral do povo enquanto sinal vivo de Deus.

Valem muito a ordem de Jesus com o ‘afasta-te de mim, Satanás’ (Mt 16,23) e a lucidez do Papa Francisco: ‘com o diabo não se dialoga’, ele é sedutor e nos engana nas negociações, ainda que em Termos de Ajustamento de Conduta – TACs.

Os impérios minerários, em particular, prendem estados nacionais e governos pelo beiço e sempre desejaram, ardentemente, dominar a igreja também, a qual só terá cartaz no mundo com sua imagem colada aos sofredores na opção preferencial cotidiana pelos empobrecidos.

‘Dominar’, aqui, não significa impor, mas aproximar-se, em geral por pele de cordeiro, colar sua imagem à instituição religiosa e a tudo que o senso comum tenha por mais sagrado e surfar à vontade no ambiente favorável à exploração.

Foi-se o tempo de chibatada nas costas porque na mente ela é mais eficaz e não deixa vergões aparentes. Apenas calos no cérebro! Os gaviões caçadores sabem muito dessas coisas, pois abocanham suas presas pela cabeça, enfiando-lhes afiadas garras sem margem de fuga e, se por vezes as levam às alturas, é só pelo prazer do tombo fatal.

Imagem rende mais que ouro e prata, mercadoria preciosa e perigosa ao mesmo tempo, o que explica o esforço da Vale em ficar bem na fita após crimes em Mariana e Brumadinho, assassinando 292 pessoas, com lama e luto impregnados na alma do povo. Sem contar quem morre aos poucos da espera infinda e da ingestão de ar e água nos territórios explorados.

Vale trazer recente confissão emblemática de médico a familiares de paciente com Fibrose pulmonar; depois de saber que moram em Congonhas, ele exclama: ‘Ah! Território minerário!’

Não é de hoje, porém, que a exploração de minério está banhada do sangue de gente inocente em Minas Gerais porque, desde o Brasil Império, ela é vetor de intenso tráfico de pessoas escravizadas nas históricas cidades mineiras – Ouro Preto que o diga! -, em cujo contexto nasce a então Didiocese de Mariana há 280 anos.

No complexo tecido histórico de quase três séculos, destacam-se, no seu nascedouro, os feitos de Dom Antônio Ferreira Viçoso (1787-1875), na defesa da autonomia política da Igreja frente ao Império, cujo ranço ainda se evidencia tanto nas investidas de Trump pela América Latina quanto na violência dos impérios econômicos do setor minerário.

A cronologia em si revela proximidade temporal entre instalação da Diocese de Mariana, em 1745, e do Órgão da Catedral, em 1753, mas somente a sensibilidade reflexiva perceberá a íntima relação dos dois com o submundo da ganância e corrida ao ouro. Eis a tecla central capaz de cantar a liberdade no tom do Magnificat, enquanto aurora da Luz, na contramão do sistema dominante.

A missão é nossa!

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