Um Deus que crê em nós e as eleições

Um Deus que crê em nós e as eleições

Vi Jesus outra vez na quarta à noite, véspera de Corpus Christi, quando descia de Festival de Teatro na Romaria.

Ele estava deitado sobre papelão no passeio do sindicato, Centro de Congonhas, e, vendo o passante, levantou-se depressa, correu-lhe ao encontro, falou coisas ‘sem lógica’ numa fluência verbal incomum e mostrou ferida aberta em carne viva no pescoço.

A camisa desabotoada com peito aberto, apesar do frio intenso, seria para não machucar a chaga, que já arde muito.

Jesus me pediu dois reais, depois dez, e lhe dei sete.

Aquele Jesus sempre diz que é pra tomar café; desconfio que não, mas não entro nesse mérito porque ‘Jesus é Jesus’ e, encarnado de verdade nas situações mais adversas, tem lá suas razões que nossa vã filosofia, mesclada de hipocrisia religiosa, procura desconhecer.

A minha cabeça estava tomada da peça ‘A Lição’ apresentada na Romaria por Grupo de Teatro de Caruaru, no entanto assimilou bem a abordagem repentina de Jesus, talvez pela naturalização de fato tão corriqueiro nas cidades do Brasil e ao redor do mundo, porém ela (a cabeça) sofreu leve sobressalto ao aparecimento repentino de anjo em moto que, acostumado às ‘trapalhadas’ de Jesus, com sua teimosia de presença real no empobrecido, lhe pergunta se quer ir para o abrigo – num sorriso divino – e ele, secamente, tal qual no episódio com sua mãe sobre ‘quem são seus irmãos’, responde ‘não’.

O anjo insiste sem sucesso, ouvindo um ‘senhora, não se preocupe comigo, estou bem!’, em tom de puxão de orelha, embora amoroso.

Com a mesma doçura, pois lhe conhece a misericórdia, o anjo lhe oferece blusa, ele aceita e fica combinado entre os dois: ‘amanhã cedinho, às 9 horas, nesse local’.

Com moto ligada e voz alterada por causa do barulho do motor, o anjo quase grita, dizendo que ‘primeiro vou à missa na igreja do Rosário’, a justificar-se.

Jesus parece nem ouvir porque, há anos, não anda sobre aqueles lindos tapetes de Quinta-feira Santa nas cidades históricas. Nem roupa tem direito e sonha jovens na arte da Política do Bem Comum pela superação da injustiça social, filha cruel da exploração.

O pecado original não é maçã e, sim, a expropriação do Trabalho pela mais valia, que gera as duas faces da mesma moeda, enricamento e miséria, e deixa um rastro de degradação nos territórios.

Parece que Deus gostaria que os jovens, vítimas do ‘pão cuspido’ da politicagem, aproveitassem sua energia na participação pela democracia direta e tivessem por critério de voto a razão, banhada de bons sentimentos, sem ódio nem mito nem fanatismo.

O jogo não é de Copa opção tem consequência!

Zoa o motor acelerado morro acima e lá se vai o anjo, mas em instantes ouço barulho de novo e, da esquina do final da rua de acesso à matriz, vejo vulto aproximar -se de Jesus e ele sai de blusão – que lhe cobre todo o corpo -, pulando de alegria.

‘É o anjo!’, pensei comigo, mesmo sem lhe ver o rosto, que se adianta no socorro a Jesus por temer hipotermia.

De outra feita, o mesmo anjo aparece após missa na Nossa Senhora da Conceição porque Jesus, agora, está deitado sob molambos, no meio do passeio, perto de lixeira nova – a outra fora queimada.

O jato de água que molha o canteiro, que faz a flor ficar tão bonita, é o mesmo que escorre e (quase) molha a cama-chão.

Veja a foto, Ele está ali debaixo!

Desta vez é o próprio anjo que me pede algo de comer, pois Jesus tem fome e, enquanto aguarda, cobre-0 com seus farrapos.

Os pés lhe fogem do cobertor curto, ditos de São Vicente, e as chagas ficam à vista, mas somente os olhos de corações sensíveis podem sentir a presença real de Jesus naquele ‘trapo’ de homem de Ouro Preto.

O cálice cujo sangue são corpos alquebrados desvela a ‘contradição das contradições’, pois nosso idealismo míope ainda espera a salvação que Deus já fez, e Ele, por sua vez, ‘deixa’ a ‘salvação’ do próprio filho em mãos humanas.

Uma Sexta-feira da Paixão, que atravessa o domingo de Páscoa e persiste, eternamente, enquanto dure nossa ingênua existência.

O Criador ‘sujeito’ à criatura! Uma aposta de ‘salvação’ incerta porque, pelo livre arbítrio e por um conceito de ‘liberdade’ individual, que não passa por processo coletivo e organizado de libertação integral, Ele (Deus) ‘não sabe’ se Isso ocorrerá.

Parece que a boa fé produz muitos anjos bons, mas só a ‘fé boa’ é capaz de gerar consciência crítica e destruir a força bruta do capital, nas estruturas físicas e mentais, no qual Jesus permanece crucificado.

Parece também que Anjos da Guarda são de carne e osso , no cuidado uns dos outros.

Teatro e novelas têm roteiro e fim previstos, mas a vida não é assim!

Apenas em Congonhas são cerca de quarenta moradores em situação de rua, no Brasil o número chega a 365 mil.

O mais intrigante do Amor de Deus não é a ressurreição, experiência de fé, mas a crucifixão persistente, experiência histórica.

Deus ‘deixar’ o filho nesse suplício é loucura de amor divino que crê, mesmo (aparentemente) contra toda esperança, na superação da injustiça social, filha do pecado original-exploração.

Uma lógica amorosa maluca.

‘Crer em deus’, via de regra, virou privilégio e palanque eleitoreiro, mas, ao contrário, Deus acredita em nós, então nossa esperança é grandiosa e permanece viva.

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