A vida de Nazaré é (quase) rotina todo dia após descoberto o extraordinário cotidiano, longe da mesmice múltiplo-variada, pois suas horas, agora, é estar ao lado do cajado, nas tardes de passeio pela estrada ou lagoa – depois da hibernação -, à espera de algo saborosamente comestível, após aquele cheiro nariz adentro, ou colocando os pés na parede do quarto que dá pro Oeste, cuja janela se abre antes dos primeiros raios de claridade, despedida temporária da noite, e, ao menor sinal de vida no interior da casa, arrepia-se e resmunga e pula e balança o corpo, não cabendo em si de contentamento.
Vez por outra, às tardes, na ausência do bastão, Nazaré sente muita falta de Chorão e Janja, pois as durezas da vida, em situação de rua, os forjaram companheiros, aprendendo a fazer carinho uns aos outros sem tabu, a correr no terreiro grande, a levar trombadas, a rolar pelo chão e, nas madrugadas, sonhar serenata, em sinfonia, de rosto pra lua; ela, onomástica de primeira Dama brasileira, se foi sem explicação de motivo nem informe de paradeiro, já ele, coitado, caíra no pecado da carne – inventado por homens bem nutridos extensivo ao universo canino -, foi sedado, colocado em bagageiro de carro em disfarce, deportado, e hoje, segundo contam, frequenta o templo para redimir-se, mas o apetite da carne lhe rói o estômago e o instinto o impede de respeito ao preceito católico de abstinência de carne na Quarta-feira de Cinzas e Sexta-feira da Paixão.
Fato é que Nazaré – nos passeios, brincadeiras e saudades – está sempre no extraordinário cotidiano, unha e carne do tempo-memória-presença, em contemplação permanente, atenta à urgência do essencial; se visita as galinhas e ri delas – traumatizadas do Chorão, se se torna criança e rola na palha de milho plantado em mutirão, se passeia na leveza natural de sons e cores múltiplos, em tudo seus dias se parecem aos do bastão, aquela gratuidade de coração, água nascente das rochas, escorrendo discreta, oxigenada dos tombos nas cachoeiras da história, inserida no lamaçal do rio para cada gota boa ser fermento, animada e atraída pelo sussurro das ondas do mar imenso, em movimento, infinito, pois, afinal, humanizar-se é desintoxicar-se de missão tornada obrigação, de vícios da burocracia, da pilotagem automática, de remédios anestésicos que reprimem a dor e, no máximo, levam o paciente a morrer melhorzinho, coisa danosa à sensibilidade de quem cultiva a semente da plenitude.
Não é só Nazaré que é a mesma o tempo todo nos seus dias de Casa Comum, o bastão também o é, e há muito mais tempo nessa existência breve; o mesmo que coa o café, deixa a pia organizada, varre a varanda e cada canto da moradia, prepara o almoço, arranja a mesa às visitas – com talheres postos e todo o tempo do mundo -, pega o papel higiênico dos banheiros, limpa os sanitários e plenifica seu período sabático – com início sem data de fim -, esse bastão é a mesma criança de Passagem posta à luz por Ana, e que, após estudos no seminário de Mariana, unção por vida em serviço, professor, diretor, missão em Brasília, reflexão filosofia fora do Brasil, agora, árvore madura, (quase) em cerne puro, oferece o melhor de si, metido na práxis, graciosa e frágil força incômoda capaz de revolucionar conceitos e estruturas.
Nazaré, cujo faro capta os sentimentos humanos mais profundos, enche os olhos daquele brilho inefável, nos dias 8 e 9 de junho, quando se multiplicam os bastões, cada qual a seu modo, mas numa só carne, sacramentados na Fraternidade, inspirada em Luciano e Carlos; todos os bastões antes atraídos pelo amor que empurrados por dogmas.
O invejável olfato de Nazaré só não a deixa de salto alto porque é modesto no ranking animal, o Elefante africano ocupa o topo com o maior número de receptores olfativos já documentados – capaz de detectar fontes de água subterrânea e alimento a dois quilômetros de distância, cerca de dez vezes mais potente que do cachorro -, o Urso-Polar é rei no rastreamento terrestre – consegue farejar uma carcaça de foca a incríveis 32 quilômetros através do gelo -, o Tubarão nota uma única gota de sangue a cinco quilômetros, já o Cão de caça tem até 300 milhões de receptores olfativos – contra seis milhões dos humanos, mas estudos mostram a inferioridade relativa destes porque seu olfato, surpreendentemente sofisticado, é capaz de distinguir cerca de 1 trilhão de cheiros e, seu cérebro, capaz de traduzir o cheiro em vasta rede de emoção e memória, então, ainda que Deus não seja brasileiro, Ele é humano.
Roda não se inventa, por isso, quando bastões decidem voltar para frente, o primeiro passo é fincar o pé na infinita reserva subversiva do evangelho que, aqui e acolá, aflora em testemunho profético e, nesse caso, além de Carlos e Luciano e a multidão de anônimos, vale lembrar Krautler e Bervian, bastões que, em missão no Xingu e Transamazônica há mais de meio século, concebem a evangelização libertadora em quatro elementos: partir do povo, incidir em sua condição real de vida, apoiar todas as lutas e exercitar a coordenação sinodal.
Essa mística encarnada – lá, cá e em qualquer parte do mundo – é capaz de descerrar a cortina de fumaça regada a incenso e renda, que transforma símbolos cristãos em idolatria, que reduz ceia comida de vida doada em pão adorado no status quo, e gera doença porque alimenta a incoerência.
Juntem-se a essa mística encarnada o bom humor de Carlos Mesters – ao sugerir que a igreja, a reboque do galopante retrocesso da sociedade global, pode engatar marcha à ré rumo às suas origens – e a sabedoria de bastões, entre os quais João Batista (padre), que deixam o cuidado das coisas paroquiais aos paroquianos – ato de coragem, porque a foto institucional pode não ficar tão bonita -, no curso das águas do senso comum, e, sob leme atualíssimo das Comunidades Eclesiais de Base, dão braçadas contra a maré, na permanente travessia do institucional ao mandato missionário – de instituição divina – e, nessa fresta de luz comunitária, se abre o túnel da esperança, independente de conjuntura favorável ou adversa, multidão ou minoria, pois que, a partir da ressurreição do Nazareno, vitória, antes no fim matemático tipo gol na Copa, ganha dimensão de fidelidade amorosa no cotidiano, mas sem a distração vulgar do ditado ‘no andar da carroça as abóboras se ajeitam’ porque pessoa não é abóbora: é relação, é conflito, insondável, construção permanente.