Há dez anos o mundo se encanta com o testemunho profético do Papa Francisco. No dia 13 de março de 2013, a alegre notícia de termos um novo Papa e com o nome de Francisco, trouxe grande esperança a todo o mundo. Trazer em seu nome o projeto Francisco de Assis, abriu expectativas das mais diversas. Hoje, podemos nos perguntar: por quem bate o coração do Papa?
Coerente com o nome escolhido, podemos afirmar, sem hesitar, que os pobres ocupam o centro de seus afetos. Ao término do Jubileu Extraordinário da Misericórdia, através da carta apostólica “Misericordia et misera”, o Papa Francisco convocou toda a igreja a celebrar o “Dia Mundial do Pobre”, no penúltimo domingo do Ano Litúrgico. Na ocasião dizia: “Será um dia que vai ajudar as comunidades e cada batizado a refletir como a pobreza está no âmago do Evangelho e tomar consciência de que não poderá haver justiça nem paz social enquanto Lázaro jazer à porta de nossa casa” (Mm, 21)
Em sua mensagem para o primeiro “dia do pobre” dizia o Papa: “O amor não admite álibis: quem pretende amar como Jesus amou, deve assumir o seu exemplo, sobretudo quando somos chamados a amar os pobres” (Francisco. 13/06/2017).
O papa latino-americano, homem simples, com seus surrados sapatos pretos e sorriso amplo no rosto, abraça mendigos, índios, portadores de necessidades especiais, idosos, migrantes… Sua humildade ilumina não apenas os corações dos católicos, mas também de muçulmanos, budistas, cristãos de tantas outras denominações… mostra um amor universal. Sua primeira viagem como Papa, no dia 08 de julho de 2013, tornou-se referência ao se tratar da universalidade do amor de Francisco pelos pobres: fez-se presença na Ilha de Lampedusa para aí “chorar os mortos pelos quais ninguém chora”, os migrantes massacrados por uma sociedade da indiferença.
Em sua exortação apostólica “Evangelii Gaudium”, publicada em novembro de 2013, o Papa afirma: “No coração de Deus, ocupam lugar preferencial os pobres, tanto que até Ele mesmo ‘se fez pobre’ (2Cor8,9). Todo o caminho da nossa redenção está assinalado pelos pobres” (EG 197).
Ao longo de seu ministério petrino, Francisco tem demonstrado, com freqüência, a concretude desse amor. Seja aos pobres de Roma, acolhendo-os e favorecendo melhor qualidade de vida, seja às populações pobres do mundo inteiro: nos campos de refugiados, nas reservas indígenas e quilombolas, nas periferias das grandes cidades…
Já no ano de 2015, o Papa Francisco publicou sua Carta Encíclica Laudato Si’, sobre o cuidado da casa comum. Nela, o pontífice afirma: “…entre os pobres mais abandonados e maltratados, conta-se a nossa terra oprimida e devastada… (LS 2). A Mãe Terra é incluída entre os pobres que sofrem as conseqüências de uma sociedade marcada por exclusões e toda a humanidade é convocada a atitudes de cuidado e solicitude para com toda a criação. O papa apresenta uma proposta de uma Ecologia Integral que vê um elo que une a pobreza das comunidades humanas com a destruição ambiental, a deteriorização ética e cultural que leva a destruição ambiental.
Com a Laudato Si’ amplia-se a concepção de uma opção preferencial pelos pobres. O cuidado com a terra é aí incluído, uma vez que tudo está interligado. Toda a criação clama a seu Criador, como o Papa ora no final da Encíclica: “Os pobres e a terra estão bradando: Senhor, tomai-nos sob o vosso poder e a vossa luz, para proteger cada vida, para preparar um futuro melhor, para que venha o vosso Reino de justiça, paz, amor e beleza” (LS. Oração cristã com a criação).
Uma nova data é incluída no calendário católico com o objetivo de alertar-nos para a urgência de cuidado com a Mãe Terra: 1º de setembro. Em 2015, o Papa convocou toda a igreja a realizar nesta data o Dia Mundial de Oração pelo Cuidado da Criação e, posteriormente, em 2019, unindo-se a várias organizações cristãs, fomos chamados a celebrar o “Tempo da Criação” que se estende de 1º de setembro até 04 de outubro (festa de São Francisco de Assis).
Recentemente, em sua Carta Encíclica Fratelli Tutti, Francisco, mais uma vez, explicita o centro de suas preocupações com os pobres e excluídos da terra, ao afirmar que “persistem hoje, no mundo, inúmeras formas de injustiça, alimentadas por visões antropológicas redutivas e por um modelo econômico fundado no lucro, que não hesita em explorar, descartar e até matar o homem. Enquanto uma parte da humanidade vive na opulência, outra parte vê a própria dignidade não reconhecida, desprezada ou espezinhada e os seus direitos fundamentais ignorados ou violados” (FT 22).
Lembremos que o ponto de partida desta nossa reflexão foi a interrogação acerca de quem ocupa o centro do coração do Papa Francisco. Afirmamos que são os pobres os prediletos do pontífice. Poderíamos colher, com muita facilidade, muitas outras falas e atitudes do Papa que vêm comprovar essa tese. No entanto, queremos prosseguir essa reflexão fazendo referência a mais uma data instituída pelo bispo de Roma: o “Dia Mundial dos Avós e dos Idosos” que deverá ser celebrado no quarto domingo do mês de julho. Francisco já salientou inúmeras vezes o valor dos idosos como fonte de sabedoria e experiência, mas destacou que numa “cultura do descarte” eles são facilmente deixados de lado.
Os idosos, pela dificuldade de inserção no mercado de trabalho, constituem um grupo com forte tendência a estar no estado de pobreza. Dependência e gastos inesperados com a saúde costumam tornar mais frágeis suas economias. Isolamento e solidão fazem parte da rotina de muitos idosos que sofrem de depressão e outros males psicológicos. São, sem dúvidas, parcela importante desse grupo querido pelo Papa Francisco que vem dando belo testemunho do envelhecer com qualidade e cheio de sonhos.
Ainda, no coração do Papa Francisco há um espaço especial para a Virgem Maria. A “pobre mãezinha”, como afirmava o Pobre de Assis, está presente em todo o seu ministério. Inúmeras vezes é lembrada como protetora da Igreja e dos pobres. Em 03 de março de 2018, Francisco determinou a inscrição da Memória da “Bem-aventurada Virgem, Mãe da Igreja” no Calendário Romano Geral. Memória celebrada na segunda-feira após a Solenidade de Pentecostes.
Ao final da sua Carta Encíclica Laudato Si’, o Papa dá especial destaque à “Rainha de toda a criação”. Com este texto queremos concluir nossa breve reflexão, pedindo a proteção de Maria para todos nós, a fim de que possamos trazer em nossos corações os mesmos sentimentos de Jesus Cristo, fazendo-nos solidariedade e compromisso de amor para com os mais pobres deste mundo. Esses são os sentimentos presentes no coração de nosso Papa Francisco!
“Maria, a mãe que cuidou de Jesus, agora cuida com carinho e preocupação materna deste mundo ferido. Assim como chorou com o coração trespassado a morte de Jesus, assim também agora se compadece do sofrimento dos pobres crucificados e das criaturas deste mundo exterminadas pelo poder humano. Ela vive com Jesus, completamente transfigurada, e todas as criaturas cantam a tua beleza” (LS 241).
Por fim, no último dia 04 de outubro, Festa de São Francisco de Assis, mais uma vez o Papa Francisco, através da Exortação Apostólica Laudate Deum, convocou-nos a atitudes de amor e respeito com toda a criação, louvando o Criador através de uma vida de sobriedade e comunhão, reconhecendo que “tudo está interligado” e que “ninguém se salva sozinho”, “porque um ser humano que pretenda tomar o lugar de Deus torna-se o pior perigo para si mesmo” (LD 73).
No mais profundo do coração do Papa está o Amor. Amor a Deus que se manifesta no cuidado com os pobres, recordando que “entre os pobres mais abandonados e maltratados, conta-se a nossa terra oprimida e devastada que geme e sofre as dores do parto”(LS 2). O coração do Papa bate em uníssono com o coração do mundo, com o coração de Deus.
“No coração do mundo, permanece presente o Senhor da vida que tanto nos ama. Não nos abandona, não nos deixa sozinhos, porque se uniu definitivamente à nossa terra e o seu amor sempre nos leva a encontrar novos caminhos. Que Ele seja louvado!” (LS 245).