“Paz e Bem.” Esta saudação simples atravessou os séculos e continua sendo uma das expressões mais bonitas da espiritualidade franciscana. Não é apenas uma frase cordial; é um projeto de vida. Quando São Francisco de Assis encontrava as pessoas pelos caminhos da Úmbria, desejava-lhes paz. Uma paz concreta, capaz de reconciliar corações, famílias, cidades e até a criação inteira. E junto da paz vinha o bem: o cuidado, a dignidade, o pão repartido, a fraternidade e a alegria de viver como filhos e filhas de Deus.
A paz possui muitos nomes nas diversas culturas humanas. Em português dizemos “Paz”; em inglês, “Peace”; em francês, “Paix”; em italiano, “Pace”; em hebraico, “Shalom”; em árabe, “Salam”; em russo, “Mir”. Cada língua carrega sua musicalidade própria, mas todas expressam o mesmo anseio profundo da humanidade: viver reconciliada consigo mesma, com os outros, com a natureza e com Deus. É como se todos os povos rezassem a mesma oração em idiomas diferentes.
A palavra hebraica “Shalom” possui um significado especialmente rico. Não se trata apenas da ausência de guerras, mas de plenitude, harmonia, integridade e bênção. Quando Jesus ressuscitado aparece aos discípulos e diz: “A paz esteja convosco”, Ele oferece exatamente essa paz completa, capaz de curar medos e restaurar esperanças. A paz do Evangelho não é fuga dos conflitos, mas força interior para transformá-los em caminhos de reconciliação.
Também o termo árabe “Salam” lembra que a paz é um dom divino e um compromisso humano. Em tempos marcados por intolerâncias e divisões, ouvir diferentes povos pronunciando a palavra paz nos recorda que Deus semeou no coração da humanidade inteira o desejo da fraternidade universal. A paz não pertence a uma nação, religião ou cultura; ela é vocação comum de todos os seres humanos.
São Francisco de Assis compreendeu profundamente essa verdade. Por isso atravessou fronteiras culturais e religiosas. Em plena época das Cruzadas, encontrou-se com o sultão Malik al-Kamil não para guerrear, mas para dialogar. Sua coragem brotava da convicção de que a paz nasce do encontro e da escuta. Francisco acreditava que todo ser humano é irmão e irmã, porque todos procedem do mesmo Pai.
A paz franciscana também é inseparável da simplicidade. Francisco descobriu que muitos conflitos nascem da ganância, da disputa pelo poder e do desejo exagerado de possuir. Quando escolheu viver pobre entre os pobres, quis mostrar ao mundo que a felicidade não depende do acúmulo, mas da fraternidade. A verdadeira paz floresce em corações livres.
Mas a saudação franciscana não termina na paz. Ela continua com uma palavra igualmente importante: “Bem”. Desejar o bem é querer que o outro viva plenamente, tenha dignidade, saúde, alimento, moradia, amizade e esperança. O bem é tudo aquilo que promove a vida. É uma bênção concreta oferecida ao próximo.
Nas culturas andinas, encontramos a expressão do “bem-viver”, conhecida em alguns povos como “Sumak Kawsay” ou “Buen Vivir”. Essa visão ensina que viver bem não significa possuir riquezas excessivas, mas ter o necessário para uma vida digna em harmonia com a comunidade e com a natureza. O bem-viver valoriza o equilíbrio, o respeito à terra, a solidariedade e o sentido comunitário da existência.
Essa sabedoria dialoga profundamente com a espiritualidade franciscana. Francisco chamava a terra de irmã e o sol de irmão. Ele reconhecia que toda a criação é dom de Deus e que ninguém pode viver isoladamente. O “bem” desejado por Francisco inclui também o cuidado da Casa Comum, para que todos tenham acesso aos bens necessários à vida.
Hoje, porém, o mundo experimenta enormes desafios. Milhões de pessoas vivem sem paz por causa das guerras, da violência urbana, das migrações forçadas e das injustiças sociais. Muitos também vivem sem o “bem” necessário: falta pão, trabalho, terra, educação, moradia e dignidade. Enquanto alguns acumulam excessivamente, outros sobrevivem sem o mínimo. Isso contradiz o sonho de Deus para a humanidade.
Celebrar o Ano Jubilar Franciscano significa renovar o compromisso com essa herança espiritual. Não basta admirar São Francisco de Assis; é preciso continuar sua missão. Somos chamados a ser homens e mulheres da paz em meio às divisões do nosso tempo. Somos convidados a promover o bem onde houver sofrimento, abandono e exclusão.
Como herdeiros de Francisco, precisamos aprender novamente a escutar. Escutar os pobres, os jovens, os idosos, os povos indígenas, a natureza ferida e os que pensam diferente de nós. A paz nasce quando alguém se sente acolhido e respeitado. O bem floresce quando deixamos de viver apenas para nós mesmos.
Também somos chamados a testemunhar esperança. Em um mundo marcado pelo individualismo, a fraternidade franciscana torna-se profecia. Cada gesto simples — repartir o pão, visitar um doente, cuidar da criação, acolher alguém triste — transforma-se em semente do Reino de Deus. A paz do Evangelho começa em pequenas atitudes.
O jubileu franciscano é, portanto, um tempo de conversão. Conversão do coração, das relações e do modo como habitamos o mundo. Precisamos reaprender a viver com sobriedade, gratidão e solidariedade. Precisamos transformar nossas comunidades em espaços de acolhida, diálogo e cuidado mútuo.
Quando dizemos “Paz e Bem”, proclamamos muito mais do que uma saudação religiosa. Estamos afirmando um compromisso com o Evangelho, com a fraternidade universal e com a dignidade de todos os povos. Que São Francisco de Assis nos inspire, neste Ano Jubilar Franciscano, a sermos instrumentos da paz de Cristo e construtores do bem-viver para toda a humanidade.