Da Laudato Si’ à Dilexi Te: o amor que se faz cuidado com a vida

Da Laudato Si’ à Dilexi Te: o amor que se faz cuidado com a vida

A história recente do magistério da Igreja revela uma admirável continuidade espiritual e social. A Laudato Si’, do Papa Francisco, inaugurou um novo horizonte ao propor uma ecologia integral que une o clamor da terra ao clamor dos pobres. Já a exortação Dilexi Te, do Papa Leão XIV, prolonga esse itinerário com uma força profundamente cristológica: o amor de Cristo, quando verdadeiro, conduz inevitavelmente à opção pelos pobres. Ambas as vozes revelam que o amor evangélico não é uma ideia abstrata, mas uma energia transformadora que se traduz em cuidado concreto com a vida, com os últimos e com a criação inteira.

Em Laudato Si’, Francisco recorda que “tudo está interligado” (LS 91) e que a degradação ambiental é inseparável da degradação humana e social. A crise ecológica é também uma crise moral, fruto de um sistema que coloca o lucro acima da dignidade humana. Por isso, ele afirma que “o clamor da terra e o clamor dos pobres são um só clamor” (LS 49), denunciando uma economia que descarta tanto pessoas quanto ecossistemas. A opção pelos pobres, nesse contexto, adquire uma dimensão ecológica: cuidar dos pobres é cuidar da terra, e cuidar da terra é proteger os pobres. “O amor social”, ensina o Papa, “é a chave de um autêntico desenvolvimento” (LS 231). Trata-se de uma conversão integral que inclui a solidariedade, o serviço e a sobriedade de vida como expressões concretas da fé.

A Dilexi Te retoma esse mesmo espírito e o aprofunda, apresentando o amor como critério último da autenticidade cristã. Papa Leão insiste que aquele que ama Jesus não pode permanecer indiferente à dor do seu irmão. Ele vê no rosto dos pobres o sacramento vivo da presença de Cristo e denuncia o “perigo de amar o próprio interesse sob o nome do amor a Deus” (DT 12). O Papa convida a Igreja a redescobrir a ternura evangélica, aquela que se inclina diante das feridas do povo e das chagas do mundo. Para ele, amar Cristo é optar pelos pobres, não como gesto assistencial, mas como caminho de comunhão com o próprio Senhor. A caridade se torna, assim, a medida da fé e a forma mais alta da esperança cristã. “Uma Igreja que não coloca limites ao amor, que não conhece inimigos a combater, mas apenas homens e mulheres a amar, é a Igreja de que o mundo hoje precisa”(DT 120).

Entre as duas obras delineia-se uma pedagogia do amor que forma o coração para o cuidado e a justiça. Francisco fala de uma “educação ecológica” (LS 209) que desperta para a responsabilidade com o próximo e com o planeta; Leão XIV fala da “educação do coração”, capaz de gerar fraternidade e compromisso. Ambas apontam para uma espiritualidade que se faz ação: o cuidado da criação e o cuidado dos pobres não são tarefas paralelas, mas expressões inseparáveis de um mesmo mandamento — o amor que se doa e se encarna. A opção preferencial pelos pobres é, nesse sentido, o ponto de convergência das duas mensagens: ela é o critério que revela se a conversão é autêntica e se o amor é verdadeiramente evangélico. “O coração da Igreja, por sua própria natureza, é solidário com os pobres, excluídos e marginalizados, com todos aqueles que são considerados “descartáveis” pela sociedade. Os pobres ocupam um lugar central na Igreja, porque «deriva da nossa fé em Cristo, que se fez pobre e sempre se aproximou dos pobres e marginalizados, a preocupação pelo desenvolvimento integral dos mais abandonados da sociedade».  No coração de cada fiel encontra-se «a exigência de ouvir este clamor [que] deriva da própria obra libertadora da graça em cada um de nós, pelo que não se trata de uma missão reservada apenas a alguns». (DT 111)

A continuidade entre as duas vozes papais mostra a maturidade de uma Igreja que deseja unir contemplação e transformação. Tanto Francisco quanto Leão XIV denunciam as idolatrias do nosso tempo — o poder, o dinheiro, o progresso sem alma — e conclamam a humanidade a uma nova civilização do amor. Francisco fala da “globalização da indiferença”; Leão XIV, do “coração endurecido pela busca de si mesmo”. Ambos indicam que o remédio está em redescobrir o rosto de Cristo nos pobres e a presença de Deus na criação. A Igreja é chamada a ser espaço de comunhão e casa de todos, onde os últimos se tornam mestres e onde o amor se traduz em gestos concretos de partilha e cuidado.

O percurso que vai da Laudato Si’ à Dilexi Te revela, assim, uma mesma dinâmica de conversão: da ecologia integral à espiritualidade do amor, do cuidado com a terra ao cuidado do coração, da denúncia profética à ternura solidária. A primeira ensina a ver o mundo com os olhos do Criador; a segunda, a amar o mundo com o coração de Cristo. Ambas apontam para o mesmo caminho: amar até cuidar, cuidar até transformar. O amor de Cristo, vivido na opção pelos pobres e no compromisso com a criação, é a força que pode renovar a Igreja e restaurar o rosto humano e fraterno do mundo.

Concluímos invocando a intercessão de São Francisco de Assis que é apresentado como inspiração por ambos os papas para uma igreja do cuidado e da misericórdia. Dizia Francisco: “Acho que Francisco é o exemplo por excelência do cuidado pelo que é frágil e por uma ecologia integral, vivida com alegria e autenticidade.”(LS 10) e Leão: “A figura luminosa do Poverello jamais deixará de nos inspirar. Há oito séculos, foi ele que provocou um renascimento evangélico nos cristãos e na sociedade do seu tempo. O jovem Francisco, anteriormente rico e presunçoso, renasceu a partir do impacto com a realidade daqueles que são expulsos da convivência. O impulso dado por ele não cessa de mover os corações dos fiéis e de muitos não crentes e mudou a história.”(DT 6-7). Que São Francisco nos inspire no cultivo de uma espiritualidade do cuidado com a vida; no compromisso com nossos irmãos e irmãs mais desprezados: nossa Mãe Terra e todos os seus filhos e filhas que são tanto amados por Deus que incessantemente lhes diz “Eu te amei”(Ap 3,9).

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