Lugar aconchegante
Quase o céu na terra emoldurado de serras
As pessoas constroem suas casas e habitam suas histórias.
O lugarejo vira povoado e bairro Pires.
Um monstro de rabo grande chega sorrateiro
Barriga saco-sem-fundo
Fura buracos
Abre crateras.
Ele faz parcerias e dá festinhas e oferece cursinhos
e põe royalties no cofre dos governos
e usa emprego por senha e
gera dependência.
Vai a riqueza embora e para o povo
fica o quê?
Poeira
Doença.
O farelo de pão da exploração de bem natural
e da classe trabalhadora cega lideranças e autoridades
Moradores sentem saudade do pedaço de paraíso
Refazem a memória e sonham libertação.
Suzana e Daniel lembram o ambiente saudável
e passeios com crianças e água de graça por
gravidade e fazem as contas do direito negado:
creche
redes pluvial e de esgoto
calçamento das ruas
área de lazer, saúde,
moradia segura e toda estrutura individual e coletiva
melhoria geral porque vida é mais que sobreviver.
Dizem que são 15 milhões para Pires
com cerca de quatro mil moradores
Não dá pra nada
Mas dá pra quê?
Suzana e Daniel
juntam mulheres e homens feridos de preconceito e exploração
cada dupla coordena cinquenta famílias
Santas Missões Populares e MAB organizam o
Encontrão das comunidades ‘unir para viver: o povo pede socorro’
Daniel e Suzana
descobrem o pé de barro da estátua de ferro
e o povo organizado pisa o rabo do monstro.