Luciano ‘vive’ de rir no bosque, atrás da árvore, de olho no céu, dos pequenos ciúmes que lhe rende o ‘dom’ entre seus pares – coisa que considera grande bobagem -; da criança que, junto a outras que o tomam pela mão e o carregam nos braços, lhe toca a mitra, parece achá-la um despropósito na cabeça do Santo; dos 14 testemunhos revelados no vigésimo ano de sua páscoa, numa quinta-feira, e das dezenas de centenas de pessoas, testemunhas-silêncio, a seu feitio; ri em gargalhada quando nota anjos bons em serviço por toda parte, desde a pedagógica confecção coletiva de terços com pingos de gente – pois antes das Ave-Marias os terços provocam encontros – até a organização do povo, que possibilita transição da democracia representativa à participativa.
O legado do santo-profeta segue vivo nos braços em oblação!
Pessoas de diferentes idades e lugares vão entrando naquela catedral, em Zig Zag, mesma estrada de Silêncio e Buieié, colocam partilha sobre mesa, tomam assento nos bancos em círculo, enchem os pulmões de ar puro após morro íngreme, banham-se na espiritualidade presente em tudo, ali, e se admiram daquela construção tão ‘cara’ quanto barata, cujo teto chega ao céu e nunca dá goteira, cujas paredes encostam no esteio mais distante e profundo do universo, infinitamente maior do que o grandioso templo em Ervália e capaz de superar todas as igrejas e catedrais e museus
da Arquidiocese de Mariana e do mundo inteiro em tamanho e beleza e sentido.
Quem toma a Palavra e se alimenta dela, naquela manhã de domingo, no bosque, sabe o significado das expressões orar e vigiar, viver modesda e dignamente, perseverar na defesa incondicional da vida, trabalhar em mutirão com mãozinhas e mãos grandes, produzir alimento saudável, motivar a CEB – comunidade normal –
porque tudo começa na base; e sente a presença de d. Luciano no bosque, sobretudo nas crianças.
Ancião – no sentido da idade (relativamente) avançada, cuja voz se faz ouvir -, achando-se ali pela primeira vez, coloca-se de pé e profere testemunho.
Após dizer que convivera 18 anos com o bispo e que bosque e d. Luciano se complementam, conta que a Rede Vida lhe perguntara, certo dia, quantas vezes tinha mentido, d. Luciano responde, com ar triste: ‘eu nunca menti’.
Em tempos de ‘pós verdade’, isso é relíquia preciosa!
O Ancião ainda conta que chegava de fora do Brasil e, indo a d. Luciano, que se encontrava desfigurado de acidente em leito de hospital, BH, ouvira dele: ‘quero lhe pedir duas coisas, ajudar no seminário para ser comunidade de verdade e contribuir na Coração de Jesus’, com a recomendação: ‘não vai para ser pároco, aquele povo precisa é de pai’.
O Ansião sussurra ao ouvido de quem o ladeia, espécie de sopro divino, e alguém semelhante a anjo, mas sem as enfadonhas asas brancas, voa pela catedral inteira; precioso perfume o acompanha, indo das mãos ao nariz e rosto; primeiro crianças, depois adultos, até exalar especial aroma por toda a diversidade da vida no bosque encantado.
Todo mundo, então, respira cumplicidade