Gato por lebre

Gato por lebre

Parece que a ‘ordenação de párocos’ antes que ‘padres’ pela ascensão abrupta do seminário à condição de administrador, na posse e poder das chaves, traz, inicialmente, a sensação de liberdade mesclada a medo, mas, em poucos anos, esse atalho produz ingredientes amargos no cardápio sacerdotal, pois, numa cajadada só, pessoa normal, de carne e osso, em geral de famílias simples, se torna autoridade ‘eterna’ na sensibilidade religiosa universal e na considerável estrutura material de uma instituição hierárquica e, em razão desse ‘detalhe’, por mais que delegue funções, organize conselhos, considere a beleza da sinodalidade e creia nela, essa pessoa, em última análise, tem o peso maior da responsabilidade.

Pode ser carga demais nos ombros de quem o relógio das urgências ofusca o tempo da graça e, na redução da diversidade ministerial à estrutura paroquial – feito música de uma nota só -, quando o critério espacial inibe a percepção-vivência das grandes e variadas causas globais, os ombros esfolados de cruzes corridas, não redentoras, calejam a reflexão, esfriam os sentimentos e, assim, se escancaram as portas ao vírus letal do clericalismo num corpo presbiteral adoecido de infantilidade, desconfianças, fofocas e outros vícios mais.

Tal condição não impede que a imensa maioria dos párocos e bispos, tanto novos quanto de avançada idade, exerça exemplar pastoreio; fatos o atestam na Arquidiocese de Mariana e alhures, o povo os adora, as crianças os abraçam, mas o ritmo burocrático de pilotagem automática, numa espécie de decolagem sem aterrissagem, num voo sem trem de pouso nem combustível de reserva – da multidão histérica das muitas festas à solidão do quarto -, não lhes apetece saborear o bem realizado; a digestão mal feita afeta a autoestima e a consequência pode ser o vazio interior, canal de graça sem engravidar-se dela, representação, pastoral de manutenção, o que aumenta a chance das piruetas espetaculares, culto à própria imagem nas redes sociais e rendas, do isolamento, do sumiço na manada, do auto extermínio por puro desespero – que Deus tal não permita – e a fraternidade vai às favas, na superfície gelada dos túmulos de mármore, sem a experiência pessoal de Deus, através de seus pares, que prefere a misericórdia ao sacrifício.

Poder-se-ia argumentar que o pároco é membro de um presbitério e que, portanto, esse peso dilui, mas, nesse ponto, vale reafirmar que, embora o álbum da ordenação guarde a memória da imposição das mãos, sinal de plena inserção no corpo presbiteral, o caráter paroquial, de instituição humana, sobrepõe-se à riqueza diversa do exercício sacerdotal, de instituição divina, e lhe define o ‘dna’, pois ‘o operário faz a coisa e a coisa faz o operário (Vinícius de Moraes). As obrigações ordinárias cristalizam um ‘modus vivendi’ que pode obstruir a percolação do óleo da unção ao coração e, se ao não descer sobe à cabeça – nos diáconos, padres ou bispos -, soe ocorrer completa inversão das coisas, quando reino divino se torna instrumento de estruturas humanas – mantendo-as ou expandindo -, então hiberna o pastor e nasce o mestre da lei com profundas dores de cabeça, pois ditadura religiosa, que atinge o foro íntimo da consciência e extrapola as igrejas, é a pior das ditaduras.

Enredo de fábula referida no encontro de padres da Região Oeste – Pedra do Sino, dias 18 e 19 de maio -, desejosos de fraternidade em suas histórias de vida, parece indicar alguma luz no fim desse túnel em curva dos tempos enfumaçados de hoje. A metáfora lembra cão que, passeando distraído pelo campo, vê lebre passar rapidamente de uma moita a outra, arrepia-se todo, sai correndo procurando a caça e, com seus latidos, aparecem cães de tudo enquanto é quintal na maior barulheira. O cachorro que vira a caça a persegue com ardor e os demais, todos curiosos à procura do motivo de tamanho alvoroço, saltam córregos, entram nas moitas, ferem-se nos espinhos, mas, ao final, após muito cansaço, desistem, sem razão para tanto esforço. Apenas o cachorro que vira a lebre continua implacável na perseguição, pois sentiu o cheiro da caça e a concebe real.

Aqui cabe uma dúvida metódica, pois, ainda que por hipótese, se o cão-mestre tiver visto gato por lebre no seu ‘passeio distraído’,
aferrado a uma doutrina sem a urgência de sinais vivos de ressurreição na história, levando toda matilha a engano, então os cachorros desistentes soam profecia e clamam pela transição de guias-mediadores à pertença comunitário, irmãs e irmãos de caminhada, onde o túmulo doutrinal, vazio de sentido por si só, se faz experiência pessoal-comunitária da presença amorosa de Deus no reconhecimento humilde de que Jesus Cristo é o único Mediador.

Se parece verdade que os desafios da estrutura paroquial exigente, pois acumula numa só figura o administrador-pastor, se somam às urgências das dioceses e paróquias vacantes, no Brasil e América Latina, ocultando a urgência do essencial, como quem cobre a casa e deixa o mundo descoberto, talvez seja valioso notar-se que a paróquia fora gestada por volta do século IV, quando o cristianismo se torna religião oficial do Império Romano com status de privilégio, cerca de 300 anos após o surgimento da comunidade cristã, perseguida e banhada de martírio, com fôlego divino para chegar aos confins do mundo oculto em corações sofridos, cuja vitalidade revela a autêntica Tradição apostólica, pois brota do coração de Cristo.

Tradições com certezas rígidas, com mais tinta na doutrina que no evangelho, mais a Trento que ao Vaticano II e salutares desdobramentos,
mais na ‘santidade estética’ que no testemunho pessoal-comunitário-profético-libertador da fé, que não bebam da água viva-fonte primeira e a combatem, podem ser gato por lebre e trocar a barca de Jesus por navios-cargueiros.

A presente reflexão poderia finalizar bem nessa frase de efeito não fossem vidas em jogo, feridas na própria carne; elevem-se louvores a bispos e padres que labutam por casas de apoio e acolhida, assistência psicológica, encontros, reciclagens, retiros, reuniões e etc, à busca da diocesaneidade, na tríade pertença, participação e comunhão, saídas clássicas enquanto remédio do corpo presbiteral, mas a cura do presbítério está na pertença à comunidade, na consciência de membro do mesmo Povo de Deus, fora disso, tipo casta à parte, não há salvação.

Facebook
Twitter
WhatsApp
LinkedIn
Telegram
Email

Mais artigos de Pe. Claret

Ecos do Grito

O trigésima segundo Grito dos Excluídos (7/9) refletiu o tema ‘Em defesa da Terra, da Paz e da Moradia, erguemos a voz: mulheres vivas e soberania’. O Grito faz-se contra-ponto à atual avalanche ultra direita, no país e mundo, que deseja forçar, na bruta, a roda da história para trás,

Leia mais »

Pires por 15 milhões

Lugar aconchegante Quase o céu na terra emoldurado de serras As pessoas constroem suas casas e habitam suas histórias. O lugarejo vira povoado e bairro Pires. Um monstro de rabo grande chega sorrateiro Barriga saco-sem-fundo Fura buracos Abre crateras. Ele faz parcerias e dá festinhas e oferece cursinhos e põe

Leia mais »

Gratidão Missionária

Tanto o pequeno cartaz de boas-vindas no quarto da São João Batista, 15 de agosto, quanto as manifestações de Carinho em Congonhas, após sete anos ali, colocam em boa medida o sentimento de gratidão e lançam luz sobre a expressão prepositiva ‘a partir de’ enquanto modo próprio de uma eclesiologia

Leia mais »

Eleições e manipulação da fé

Parece que quanto mais se rebaixa o debate político tanto mais vertentes religiosas retrógradas entram nessa arena e, via de regra, pioram o ambiente, pois substituem reflexão por dogma, transformam adversário em inimigo e intentam ter a Deus por cabo eleitoral; coisas nefastas, a história atesta que a manipulação da sensibilidade

Leia mais »

Os dois tijolinhos de Lorena e o abraço à lagoa

A criança segue a fila durante o Plenarão na Santo Antônio (5/9) e, entre pessoas grandes, abaixa-se perto da ‘casa’, posta à frente, participantes em círculo, e, acolhida pelas mestras de obra, sorrisos mútuos, entrega um tijolinho, depois mais outro, volta contente para junto da mãe e, vez por outra,

Leia mais »

Bosque encantado

Luciano ‘vive’ de rir no bosque, atrás da árvore, de olho no céu, dos pequenos ciúmes que lhe rende o ‘dom’ entre seus pares – coisa que considera grande bobagem -; da criança que, junto a outras que o tomam pela mão e o carregam nos braços, lhe toca a

Leia mais »

Murundu

As visitas da Mata dos Pacheco, em 2 de agosto, riem do tambor azul, agora marrom de ferrugem, escutam memórias vivas da cozinha-casa – quando a mãe banhava as meninas, as colocava na cama e lhes dava o jantar, já prontas para dormir – e, à mesa, as visitas lembram

Leia mais »

Um Deus que crê em nós e as eleições

Vi Jesus outra vez na quarta à noite, véspera de Corpus Christi, quando descia de Festival de Teatro na Romaria. Ele estava deitado sobre papelão no passeio do sindicato, Centro de Congonhas, e, vendo o passante, levantou-se depressa, correu-lhe ao encontro, falou coisas ‘sem lógica’ numa fluência verbal incomum e

Leia mais »

Nazaré, tempo sabático e o ranking do faro animal

A vida de Nazaré é (quase) rotina todo dia após descoberto o extraordinário cotidiano, longe da mesmice múltiplo-variada, pois suas horas, agora, é estar ao lado do cajado, nas tardes de passeio pela estrada ou lagoa – depois da hibernação -, à espera de algo saborosamente comestível, após aquele cheiro

Leia mais »

Terço de madrugada, Cristo é Show e leopardos

Cada terço com frei Gilson lhe rende por dia 18 mil reais porque o You Tube paga 4,50 por unidade de vídeo longo com 1000 visualizações, então cada pessoa conta 0,0045 reais ( resultante de 4,50 dividido por 1000). Essa quantia ‘insignificante’ multiplicada por 4.000.000 de pessoas (número de visualizações)

Leia mais »