Alimentar a coerência

Alimentar a coerência

Três personagens perambulam pelas ruas de Congonhas principalmente a partir de 25 de janeiro. Respondem por Hipocrisia, Medo e Coerência, e cada qual se revela especialmente em contexto de crimes, tanto nos ‘sumps’ aqui quanto no rompimento de barragem da Vale em Brumadinho, há sete anos, assassinando 272 pessoas, ou em qualquer parte do mundo.

Nessas ocasiões tais figuras saem do armário.

A Hipocrisia não ‘vale’ nada porque, com seus ‘sumps’, em Mina de Fábrica e Viga, ela coloca em risco a vida de milhares de pessoas e, além disso, põe cortina de fumaça em torno do termo ‘correto’ para o fato, confunde as línguas e busca desviar a atenção do ponto central.

Militante do MAB, a espreitá-la, entende que ‘sumps’ na mineração (ou ‘sedimentation ponds’) são reservatórios para captar, armazenar e decantar água, antes do descarte ou reuso, mas, atualmente, a principal função deles é burlar a lei, pois, não sendo ‘barragem’, dispensam fiscalização.

Constroem-se ‘sumps’ às centenas! Apenas nas áreas de Mina de Fábrica e Viga haveria cerca de 400 e, uns dez comprometidos, foram suficientes para derramar cerca de 600 mil m³ de efluentes de produção industrial em diversos cursos de água, aumentando, significativamente, a contaminação dos rios Maranhão e Paraopeba.

O Medo, por sua vez, antes escondido nas placas de rota de fuga, que custam milhões pra nada, habita, agora, mentes e corações aflitos, pois percebem risco real e, divididos em duplo sentimento, agradecem por não ter sido coisa pior naquele domingo de 25 de janeiro e, ao mesmo tempo, tomam o crime por alerta, percebendo que a participação plena do povo, com poder de ‘sim’ e ‘não, é o único caminho de segurança confiável num território violentamente explorado e cada vez mais sensível devido à emergência climática.

Sem um povo disposto à participação tudo termina em Termos de Ajustamento de Conduta, que quase nada ajustam, e multas, que em geral não se pagam, porque também os governos, a despeito das melhores intenções e seriedade, carregam em suas entranhas muita fragilidade nessa engrenagem capitalista louca e , só por si, alcançam apenas pequenos curativos sem estancar a sangria.

O senhor Medo apregoa pela rua corrida às farmácias e igrejas à busca de drogas e rezas por tábua de salvação e, por vezes, sopra desejo de presença de padres midiáticos em show jubilar, que ameniza alguma dor por anestesia. Congonhas não precisa deles para isso, e os sacerdotes que labutam por cá junto a suas equipes, firmando e multiplicando comunidades vivas, agradecem à Secretária de Cultura a gentileza da consulta.

Enquanto o Medo impera, a dona Hipocrisia segue livre e solta, cuspindo os profetas do Mestre Aleijadinho, petrificados, destruindo as serras, sua moldura.

A encruzilhada está posta, ou se transformam o poder simbólico da fé e o choro individual em resistência comunitária coletiva e indignação organizada ou não restará pedra sobre pedra, pois, até agora, ‘o trem prospera’ no rumo da destruição, à revelia do bem comum, sob a batuta do governador.

A esperança está na senhora Coerência que, embora sonolenta, sempre esteve embrionária em testemunhos pessoais anônimos e nalguns ensaios coletivos, sobretudo nas lutas promissoras dos quilombos Campinho e Santa Quitéria, pondo importante obstáculo à expansão de lavra de minério e pilha de estéril, e agora enfrenta o poderio da Vale, quando o Ministério Público Federal pede bloqueio de 1 bi da Mineradora – ainda que sem sucesso – e a Prefeitura de Congonhas, graças à ação tempestiva da Secretaria Municipal de Meio Ambiente, suspende o alvará da empresa.

O contra-ataque das mineradoras e comparsas será violento, por isso a Coerência, ciente de que as tramoias da Hipocrisia, junto ao Medo, tendem a paralisar as pessoas, busca energia popular para ter sangue na veia e, além de resistir, aproveita o crime nos ‘sumps’ para dar voz à soberania, pelo direito de autodeterminação das comunidades.

O MAB se coloca nessa trajetória desde o crime da Vale em Mariana e, agora, prepara grande encontro para 14 de março, na cidade dos profetas, disposto a ser sujeito nesse levante; nisso conta com a eterna reserva de rebeldia do povo, presença ativa dos parceiros, apoio dos gestores públicos e demais autoridades, pois, tarefa dessa envergadura, só é possível por obra de muitas mãos.

Congonhas é conhecida mundialmente por seu conjunto arquitetônico tombado pela Unesco, pelas barragens perigosas e, agora, terá a chance de ser pioneira, em nosso país, na implementação da Política Nacional das Populações Atingidas por Barragens (PNAB).

Lei só por si não resolve muita coisa, mas, se bem manejada, poderá ser ferramenta decisiva no controle social dos bens naturais.

Facebook
Twitter
WhatsApp
LinkedIn
Telegram
Email

Mais artigos de Pe. Claret

Ecos do Grito

O trigésima segundo Grito dos Excluídos (7/9) refletiu o tema ‘Em defesa da Terra, da Paz e da Moradia, erguemos a voz: mulheres vivas e soberania’. O Grito faz-se contra-ponto à atual avalanche ultra direita, no país e mundo, que deseja forçar, na bruta, a roda da história para trás,

Leia mais »

Pires por 15 milhões

Lugar aconchegante Quase o céu na terra emoldurado de serras As pessoas constroem suas casas e habitam suas histórias. O lugarejo vira povoado e bairro Pires. Um monstro de rabo grande chega sorrateiro Barriga saco-sem-fundo Fura buracos Abre crateras. Ele faz parcerias e dá festinhas e oferece cursinhos e põe

Leia mais »

Gratidão Missionária

Tanto o pequeno cartaz de boas-vindas no quarto da São João Batista, 15 de agosto, quanto as manifestações de Carinho em Congonhas, após sete anos ali, colocam em boa medida o sentimento de gratidão e lançam luz sobre a expressão prepositiva ‘a partir de’ enquanto modo próprio de uma eclesiologia

Leia mais »

Eleições e manipulação da fé

Parece que quanto mais se rebaixa o debate político tanto mais vertentes religiosas retrógradas entram nessa arena e, via de regra, pioram o ambiente, pois substituem reflexão por dogma, transformam adversário em inimigo e intentam ter a Deus por cabo eleitoral; coisas nefastas, a história atesta que a manipulação da sensibilidade

Leia mais »

Os dois tijolinhos de Lorena e o abraço à lagoa

A criança segue a fila durante o Plenarão na Santo Antônio (5/9) e, entre pessoas grandes, abaixa-se perto da ‘casa’, posta à frente, participantes em círculo, e, acolhida pelas mestras de obra, sorrisos mútuos, entrega um tijolinho, depois mais outro, volta contente para junto da mãe e, vez por outra,

Leia mais »

Bosque encantado

Luciano ‘vive’ de rir no bosque, atrás da árvore, de olho no céu, dos pequenos ciúmes que lhe rende o ‘dom’ entre seus pares – coisa que considera grande bobagem -; da criança que, junto a outras que o tomam pela mão e o carregam nos braços, lhe toca a

Leia mais »

Murundu

As visitas da Mata dos Pacheco, em 2 de agosto, riem do tambor azul, agora marrom de ferrugem, escutam memórias vivas da cozinha-casa – quando a mãe banhava as meninas, as colocava na cama e lhes dava o jantar, já prontas para dormir – e, à mesa, as visitas lembram

Leia mais »

Um Deus que crê em nós e as eleições

Vi Jesus outra vez na quarta à noite, véspera de Corpus Christi, quando descia de Festival de Teatro na Romaria. Ele estava deitado sobre papelão no passeio do sindicato, Centro de Congonhas, e, vendo o passante, levantou-se depressa, correu-lhe ao encontro, falou coisas ‘sem lógica’ numa fluência verbal incomum e

Leia mais »

Nazaré, tempo sabático e o ranking do faro animal

A vida de Nazaré é (quase) rotina todo dia após descoberto o extraordinário cotidiano, longe da mesmice múltiplo-variada, pois suas horas, agora, é estar ao lado do cajado, nas tardes de passeio pela estrada ou lagoa – depois da hibernação -, à espera de algo saborosamente comestível, após aquele cheiro

Leia mais »

Gato por lebre

Parece que a ‘ordenação de párocos’ antes que ‘padres’ pela ascensão abrupta do seminário à condição de administrador, na posse e poder das chaves, traz, inicialmente, a sensação de liberdade mesclada a medo, mas, em poucos anos, esse atalho produz ingredientes amargos no cardápio sacerdotal, pois, numa cajadada só, pessoa

Leia mais »