Bem-vinda, Aylla!

Bem-vinda, Aylla!

Aylla é uma felizarda porque pode escolher o melhor significado de seu nome com tríplice origem – ‘auréola de luz ao redor da lua’ no idioma turco, ‘carvalho por força e longevidade’ no hebraico – a língua de Jesus – e ‘brisa-inspiração’ no grego. Mas o bom de tudo é que, tendo vencido ‘pequenos’ desafios ainda no ventre da mãe, quando entrava nas 38 semanas, nasce hoje, 22 de janeiro, e faz parte dessa explosão milagrosa do divinal amor humano, que a leva de semente embrionária a bebê, pronta à luz, com oportunidade de construir seu nome pela própria história de vida.
Admirável!
Os ‘pequenos’ desafios de Aylla devem-se a um mundo que, devido à exploração, gera a sociedade de classe, numa divisa (quase) instransponível entre opressor e oprimido, onde Posto (de) Tubarão nada de braçada e peixes ‘miúdos’ sofrem as consequências.
Porém se engana quem os pensa fracos.
Nesse cardume familiar, cercada de amor e carinho, Aylla quase vem a ser atingida pela brutalidade de viaduto em construção na 040, obra sem planejamento adequado a qual, sob chuva em 13 de janeiro, junta enxurrada lamacenta, desce desembestada pela rua da Mineirinha, entope cano pluvial grosso, entra por portão, veda grade, ancora, vai pela garagem, alcança o interior da casa, assusta a mãe de Aylla, incomoda o coelho branco no cercadinho e deixa marcas altas na parede.
O sentimento de indignação aumenta porque a enxurrada turva vem suja de mentira e descaso por parte da empresa privada construtora da obra, que põe culpa na chuva e numa pilha de tijolos, quando é sabido que antes, mesmo com a pilha ali, a água escoava para o outro lado e descia perto de galpão, mas aterraram e não pensaram nalguma medida para evitar danos à comunidade.
A força corajosa e terna do amor, que vence tudo, reage frente à agressão, à falta de educação, à ausência de empatia, e se revela nas expressões ‘estão me achando com cara de boba’ ou ‘se alguma coisa acontecer à minha sobrinha não quero estar na pele de vocês, o que estão fazendo é desumano’.
Os corações desesperados de mãe e tia de Aylla apelam à prefeitura, responsável pela obra de 80 milhões, e, ainda que bem recebidas, desabafam: ‘há coisas que podem ser evitadas, não deixar acontecer para depois tomar as providências, janeiro é período chuvoso, se existe uma fiscalização precisa aplicar medidas preventivas. Não é de hoje que temos solicitado à empresa e à prefeitura um olhar para a comunidade, mas parece que somos invisíveis, o que realmente importa é o andamento da obra’.
Compreender a história é olhar a memória para mirar o futuro e, nesse caso, a construção do viaduto, que dará acesso à região Norte de Congonhas, tem currículo de lições oportunas, além da enxurrada: deslocamento inicial de cinco famílias, que só conquistaram seu direito graças à luta; caminhão desgovernado que atinge a capela do bairro; e o pior, a morte de um operário. Ele trabalhava na JTúnel, contratada do Consórcio Paineiras Bali, responsável pela execução da obra. No dia 12 de dezembro, a vítima entrou numa tubulação e acabou asfixiada por gás acumulado ali porque o canal ficou fechado por muito tempo.
Talvez o Caso Aylla seja apenas o assovio de uma cantiga, pois o volume de intervenções previsto para a rodovia federal 040, em vista de sua duplicação, enche os olhos de empresas privadas que, ávidas de lucro, terceirizam serviços, precarizam as condições de trabalho e desrespeitam direitos dos moradores. Gestores públicos e população estejam atentos pela precaução, pois ‘quem tem olho fundo chora cedo’.
A organização é fundamental!

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