10 anos da Laudato Si

10 anos da Laudato Si

10 ANOS DA LAUDATO SI’

Ainda são poucas as reações, mas são valiosas!

No dia 4 de outubro de 2023, o Papa Francisco publicava mais uma exortação apostólica na qual, já bem no princípio, manifesta sua preocupação com a insatisfatória reação da humanidade. Assim ele diz: “Já se passaram oito anos desde a publicação da Carta Encíclica Laudato Si’, quando quis partilhar com todos, irmãs e irmãos do nosso maltratado planeta, a minha profunda preocupação pelo cuidado com a nossa Casa Comum. Com o passar do tempo, entretanto, dou-me conta de que não estamos reagindo de modo satisfatório, pois este mundo que nos acolhe está se desfazendo e, talvez, aproximando-se de um ponto de ruptura”(LD 2).

Passaram-se dois anos da publicação da Laudate Deum e essa triste constatação do Papa Francisco permanece intocável. A humanidade parece anestesiada diante do fascínio do progresso, do avanço tecnológico, das novidades extravagantes da Inteligência Artificial e de um mercado, cada vez mais, envolvente e sedutor.

Muitos permanecem incólumes diante da gravidade do problema, crentes que nada podem fazer diante de tão grave problema; outros agarram-se ao negacionismo, diminuindo a gravidade dos impactos da ação humana sobre o ambiente, não acreditando que estamos em um momento de emergência climática; outros se apoiam em uma espiritualidade infantil e profundamente alienante, dizendo que “é Deus que quer assim. Cabe-nos ser fiéis a ele”. Mas, o que é ser fiel a Deus? Simplesmente ir ao templo e adorá-lo e louvá-lo com ritos solenes e cantos alucinógenos?

Os governos se fortalecem em ações de autorreferencialidade, procurando fortalecer seus próprios países em detrimento de outros. É um verdadeiro “cada um por si”. Constroem mais muros que pontes.

Proliferam as fake news com informações aparentemente científicas que dizem o planeta ter sofrido vários momentos de resfriamento e outros de aquecimento, negando veementemente a situação de emergência climática e, portanto, a necessidade de medidas urgentes e impactantes em nosso modo de vida. Esquecem-se da rapidez com que o aquecimento vem ocorrendo, sendo permitido a uma só geração sentir a mudança e seus impactos.

As mentiras espalhadas nas redes sociais e em muitos outros meios de comunicação, associadas à falta de informação de muitas pessoas que já não se interessam pela compreensão dos fatos, têm gerado uma corrente muito perigosa para a sobrevivência de nossa Mãe Terra e de todos que a habitam.

Os impactos dessa atitude insensível são sofridos, primeiramente, pelos mais pobres e excluídos. Os injustiçados de uma estrutura social firmada no capital e na posse de bens, os migrantes, sem-terra, populações ribeirinhas, povos tradicionais e populações periféricas de uma grande cidade.

Uma coisa é sentir o aquecimento global em uma casa com ar refrigerado e água em abundância, outra é sentir o calor crescente, sem água e vivendo sob tetos de telhas de amianto ou sob escuras lonas de plástico.

Há uma visível decadência do aguilhão ético, cultural e espiritual. Por causa do dinheiro se pode tudo. Por causa do dinheiro cresce a corrupção, por causa do dinheiro se permite derrubar matas e detonar cachoeiras e imensos mananciais hídricos, por causa do dinheiro eliminam-se espécies e comunidade inteiras são despejadas de suas terras e alijadas de sua cultura e religiosidade, por causa do dinheiro o ser humano mata o próprio ser humano, por causa de dinheiro…

No entanto, continuam a ressoar em nossos ouvidos o apelo do Papa Francisco, apresentado na Laudato Si’: “O urgente desafio de proteger a nossa casa comum inclui a preocupação de unir toda a família humana na busca de um desenvolvimento sustentável e integral, pois sabemos que as coisas podem mudar. O Criador não nos abandona, nunca recua no seu projeto de amor, nem Se arrepende de nos ter criado” (LS13).

São inúmeras as ações de incansáveis pessoas e suas instituições que, dia a dia, lutam em favor da vida. Nos últimos tempos cresceu a consciência de que somente juntos conseguiremos achar soluções; cresce a consciência de que a vida, a fé e o serviço devem ser praticados em comunidade, com a ajuda e o apoio uns dos outros, para que possamos construir um mundo melhor para todos. Inúmeras vezes o Papa Francisco afirmou que ninguém se salva sozinho. É preciso unir-se ao diferente, ao irmão que não pensa exatamente como eu, que tem outra religião, outra cultura, outro time de futebol e até mesmo um outro partido político. A meta deve ser a mesma: a Fraternidade Universal, solidificada na prática da justiça e da paz.

O jubileu da Esperança, que celebramos este ano, quer ser esse impulso contra o pessimismo e o negacionismo. Um olhar de encantamento frente à vida, frente à criação. É preciso educar nosso olhar, sermos capazes de encher o coração de alegria ao ver o simples, o pequeno, que transparece a beleza e a gratuidade do Deus Criador.

É preciso que saiamos de nosso comodismo ou de nosso desencanto frente à vida. Romper com o cansaço e a tristeza que imperam em diversos ambientes. Romper com o antropocentrismo e a gananciosa sede de poder. Romper com o consumismo desenfreado e abraçar a “sobriedade feliz” apregoada pelo Papa Francisco com tanta ênfase na Encíclica cujos dez anos celebramos agora. Saiamos de nosso egoísmo e somemos força com os que já estão fazendo a diferença nesses tempos de tanta urgência de cuidados!

O legado de Francisco é, de fato, a Conversão Ecológica, reconhecermos que “tudo está interligado” e, por isso, repensarmos nosso modo de vida e buscar formas de construir harmonia e cuidado. Uma nova sociedade marcada pela ternura e a certeza de que somos todos irmãos e irmãs, conforme cantou São Francisco de Assis.

“Quando nos damos conta do reflexo de Deus em tudo o que existe, o coração experimenta o desejo de adorar o Senhor por todas as suas criaturas e juntamente com elas, como se vê no gracioso cântico de São Francisco de Assis: Louvado sejas, meu Senhor!” (LS 87)

Facebook
Twitter
WhatsApp
LinkedIn
Telegram
Email

Mais artigos de Frei Gilberto

Paz e bem: mais que uma saudação, um projeto de vida!

“Paz e Bem.” Esta saudação simples atravessou os séculos e continua sendo uma das expressões mais bonitas da espiritualidade franciscana. Não é apenas uma frase cordial; é um projeto de vida. Quando São Francisco de Assis encontrava as pessoas pelos caminhos da Úmbria, desejava-lhes paz. Uma paz concreta, capaz de

Leia mais »

Da Laudato Si’ à Dilexi Te: o amor que se faz cuidado com a vida

A história recente do magistério da Igreja revela uma admirável continuidade espiritual e social. A Laudato Si’, do Papa Francisco, inaugurou um novo horizonte ao propor uma ecologia integral que une o clamor da terra ao clamor dos pobres. Já a exortação Dilexi Te, do Papa Leão XIV, prolonga esse

Leia mais »

Por quem bate o coração do Papa Francisco?

Há dez anos o mundo se encanta com o testemunho profético do Papa Francisco. No dia 13 de março de 2013, a alegre notícia de termos um novo Papa e com o nome de Francisco, trouxe grande esperança a todo o mundo. Trazer em seu nome o projeto Francisco de

Leia mais »