Teto paroquial deixa o mundo descoberto

Teto paroquial deixa o mundo descoberto

Era apenas um café da manhã, em Granada, antecedido de convívio à noite em Bonfim, de debate sobre asfalto em Bicuíba e de semana de experiência missionária na São João Batista, em Viçosa. Mas a mesa farta ganha sabor de reflexão e partilha.

Cresce a convicção de que a assinatura de roteiros para grupos de reflexão em Comunidades Eclesiais de Base deve ser assumida pela paróquia enquanto investimento de primeira grandeza. Essa responsabilidade não pode ser transferida à comunidade ou família que reflete sem grave prejuízo para a evangelização, pois o roteiro é semelhante ao vinho e às partículas que se tornam Corpo e Sangue de Cristo na Eucaristia.

Grupo de reflexão é sacrário vivo do Verbo encarnado, raiz da comunidade ‘pequena’, matriz geradora da Igreja sonhada por Jesus, da qual germina a totalidade dos serviços distribuídos nos mais diversos ministérios.

O ponto nevrálgico da pastoral de conjunto e da força transformadora da fé é a vitalidade comunitária. A história mostra que a implantação de Comunidades Eclesiais de Base na periferia de São Paulo redundou no fortalecimento do processo de redemocratização do país e, em Araponga, elas inspiraram aquisição conjunta de centenas de áreas de moradia e plantio para famílias Sem Terra.

Essa pertença à comunidade – que vale inclusive para os ministros ordenados, pois todos somos membros do mesmo Povo de Deus – alimenta o segundo ingrediente do café da manhã, em Granada: a reflexão sobre indicação de padres para cidades com duas paróquias ou mais.

A desejada afinidade pastoral pressupõe a experiência comunitária da fé, sem a qual parece não haver vivência autêntica do sacerdócio. A inspiração é sempre Jesus Cristo Libertador a partir da identificação com os oprimidos.

Há pistas do Caminho no testemunho do Papa Francisco, nas diretrizes da CNBB, na memória viva de nossa Arquidiocese e nas decisões de suas assembleias, em comunhão eclesial antes que formal.

Lembra-me experiência em Ponte Nova quando, embora por breve período de tempo, os padres trabalharam juntos – para muito além da semana santa, almoço às quintas, mutirões de confissão e festas de padroeiro –  e, até hoje, existem sinais vivos dessa ação pastoral na cidade e na região Leste.

O terceiro ingrediente é mais ousado e deve soar exagero para muitos, pois reflete sobre a liberação de algumas dezenas dos mais de duzentos padres da nossa Arquidiocese para serviços diretamente ligados à vida concreta do povo.

Essa ideia pode ser sintetizada na missão permanente junto aos encarcerados, aos camponeses, aos ‘moradores’ de rua, aos habitantes de áreas de risco, às mulheres vítimas da violência, às crianças e adolescentes abandonados, aos descendentes de pessoas escravizadas, aos atingidos pelas catástrofes em tempo de emergência climática, à multidão dos subjugados pelo sistema dominante, à luta organizada contra todo tipo de opressão pelo bem comum.

A inserção nesses campos exige muito tempo e formação continuada, sem isso se torna inócua ou até prejudicial pela leitura equivocada dos fatos.

Entre os entraves da proposta se destacam o costumeiro discurso da ‘falta de padres’ e o meio de subsistência do ministro ordenado, mas a percepção desse desafio não elimina o fato inarredável de que a transformação da imensa maioria de padres em párocos e vigários paroquiais engessa o caráter essencialmente missionário da igreja, que cobre as paróquias e deixa o mundo descoberto.

Cada administrador a mais absorvido pela instituição num território delimitado, que muda de lugar social pela ordenação e passa a gostar da chave do poder religioso, que lhe abre a porta do carro e da casa e da classe média, é um missionário a menos.

Há exemplos heroicos de párocos que sempre combinaram essa atividade com a vida em missão – João Batista, Faustino, Juquinha, Gilberto, Ernesto (in memoriam) e outros -, mas são exceções.

É inegável que a complexidade do mundo hoje, onde a altura dos prédios ultrapassa as torres dos templos, exige menos administradores e mais evangelizadores; lúcidos, místicos, metidos nas grandes causas, cientes de que só se aprende andar de bicicleta andando; cientes de que vocação inclui o esforço pessoal na criação de habilidades.

Entre as heranças da força da liberação estão a experiência de colegas nossos que contribuíram muito na Conferência Nacional dos Bispos do Brasil; as crianças salvas pela Pastoral da Criança e do Menor; as seis escolas famílias agrícolas em áreas da Arquidiocese de Mariana e as mais de vinte em Minas Gerais; as centenas de outras iniciativas associadas à promoção humana.

O café em Granada poderá inspirar bom cardápio para o encontro dos padres em março de 2025.

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