Via-sacra no céu, paixão e páscoa de Padre Rodrigo Marcos Ferreira

Via-sacra no céu, paixão e páscoa de Padre Rodrigo Marcos Ferreira

A maioria das pessoas presentes está habituada, mas participamos de via-sacra do céu à terra pela primeira vez, com hino da Campanha da Fraternidade, som na caixa e grito ao Sr. Antônio, que mora lá, casa simples entre goiabeiras, de onde se vê a imensidão mesclada do verde da mata e do branco da névoa desse outono chuvoso e, à descida, com a fumaça em fuga do sol nascente, se avista a imponência de trevo em construção na 040 – paixão-sofrimento, embora necessário -, obra da prefeitura mal iniciada na gestão passada, e as imensas carretas e carros de passeio que, à distância, elas se apresentam pequenas e eles se mostram quase brinquedos.

Nessa hora da manhã de sexta-feira ninguém, ali, faz ideia do que se passa no Ibiapaba, Barbacena, onde Padre Rodrigo Marcos Ferreira, após paixão prolongada em lava-pés, faz sua páscoa, sem aguardar o domingo da programação em calendário, antecipação-mistério que anuncia a precariedade das semanas santas ao vivo, mormente nas cidades históricas, cuja teatralidade ou esconde ou deturpa a paixão-ressureição, impregnada na história em carne viva e, por isso, um alerta às igrejas no mundo inteiro, que abram mão das vestimentas e indumentárias, retomem o avental do evangelho e assumam a mais nobre posição de servidora do reino definitivo, sendo-lhe apenas instrumento, sem jamais pensar absoluto o que é passageiro por natureza, risco visível nos últimos encontros anuais dos presbíteros e diáconos da Arquidiocese de Mariana com aumento significativo de venda de roupas e objetos tidos por sagrados e diminuição da oferta de livros, em quantidade e qualidade.

Certa vez representante de empresa ali confessara sacrário por 40 mil reais para colocar quem nasce num cocho de animal e que, enquanto protomártir, primeiro missionário e mestre de todos os mestres, não teve onde reclinar a cabeça. Um escárnio!

O corpo do irmão Rodrigo passa por Desterro do Melo e vai a Dom Silvério, gerando comoção, ali fica plantado nesse universo-graça e, no dizer de colega de ministério, ‘se martírio é testemunho e vida de fé, para mim padre Rodrigo Marcos é um mártir dos nossos tempos.

Nossa gratidão a Padre Rodrigo pelo testemunho da vida.

Há outras casas e famílias no céu de Mineirinha, bairro em Congonhas, e, ali, até já houve um grupo de reflexão, pois a Comunidade Santo Antônio é uma Comunidade Eclesial de Base, mas findara parado, aparentemente por aperto das mulheres dirigentes no ganha-pão, porém, a depender da sabedoria e inspiração do Sr. Antônio, que toca violão e partilha o poder curativo das plantas medicinais, o grupo vai rebrotar, pois a semente é boa, a terra fértil e, segundo confidência dele, ‘quem ora conversa com a glória’, então vale a pena!

Sua simplicidade e sabedoria recordam dom Luciano, pois, nas palavras-testemunho do bispo profeta dos empobrecidos, ‘quem participa de grupo de reflexão está mais perto da salvação’ e ‘o céu é ver os outros felizes’.

As estações da via-sacra, desde o céu aos sinais de ressurreição na terra, se marcam com cruzinhas à frente das moradias e, em leitura partilhada do livreto da Campanha, intercalada de reflexão e cantoria, elas contemplam: o grito da paixão de Cristo no sofrimento do povo, as pessoas condenadas a viver sem moradia, país rico e injusto, modelo de cidades para poucos, barrancos e barragens que expulsam famílias inteiras, moradia enquanto porta de entrada dos demais direitos na luta dos movimentos populares, cireneus das estradas, discursos abstratos genéricos vazios, injustificada fragilidade das políticas públicas prioritárias, surdez aos oprimidos e o sonho de que ‘construirão casas e nelas habitarão’ – Isaías 65, 21.

As crianças, que se revezam na cruz, entram por trilha sob árvores e ao fundo, onde mora a família de Valdir, cuidador de fonte de água, todas as pessoas presentes soltam a voz no refrão ‘o nosso jeito de ser Igreja é nosso jeito de viver a fé’, aprenderam nas Santas Missões Populares, já nas estrofes apenas balbuciam fragmentos da letra, que chegam somente aos ouvidos bem apurados: ‘estamos na luta organizando a caminhada, religião que prega melancolia não faz sentido, sem distinção de credo, somos irmãos e filhos do mesmo amor, nossa alegria nasce na comunidade, seguindo os passos de Jesus Libertador, não aceitamos viver mais de ilusão, a CEB é o jeito da Igreja ser’.

A ultima estação da via-sacra desde o céu à terra se dá na sede da comunidade, o Leitor 1 do livreto da Campanha lembra as palavras de Jesus às mulheres junto ao túmulo: ‘Não tenham medo! Vão anunciar aos meus irmãos que se dirijam para a Galileia. Lá eles me verão’. O Leitor 2, por sua vez, afirma que ‘nossa fé nos garante que o Reino já é dado de graça, mas só acontecerá se for construído, e esta construção tem um processo histórico, que exige a intervenção prática dos cristãos’.

Então, mãos à obra!

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