Mulheres maquinistas em Casa Grande (28/3) movimentam-se em caracol, e as demais pessoas presentes, com as mãos nos ombros umas das outras, sob cantoria e dança, somem por uma porta e reaparecem por outra, e riem no Trem das CEBs, o qual, por ser brincadeira séria, não vive de cara feia.
O motor é o Espírito Santo e o destino é o reino de Deus prefigurado numa Igreja sinodal e numa sociedade sem nenhum tipo de exploração.
Com a mesma desenvoltura, correm a visitar o coreto após almoço e registram foto, param van na volta por goiaba à beira do asfalto, ‘ralam’ pelo pão de cada dia e, assim, enquanto pessoas normais, semelhantes a Jesus de Nazaré, sem a superestrutura protetiva de escribas e fariseus, sabem dosar o sal no mundo para não ser nem insosso nem salgueiro insuportável.
O outro trem corre descarrilhado levando as serras e a história, blefando de Minas-Rio a Brasília nas trilhas eleitoreiras. O motor é o império econômico com o combustível do senso comum ungido no sentimento religioso capturado por mitos que garantem seu quinhão na terra e, aos outros, arrebanham e cantam ‘o meu lugar é o céu, é lá que eu quero morar’.
São dois trens em direções opostas e, independente da marca e cor do segundo, a razão de fundo são cifrões.
As Comunidades Eclesiais de Base são ‘receita’ curativa de uma igreja fragmentada, com milhares de tarefas corridas sem enraizamento real no tronco comum, Cristo, e no seu projeto de vida comunitária.
No Espírito Santo motivador das CEBs, fazer ‘menos’ é fazer mais porque se prepara o fermento, em fogo brando de fogão a lenha, que leveda a massa com a graciosa força da Palavra de Deus nos grupos de reflexão.
Não é sem razão que essa Igreja inserida e emancipatória da consciência faz contraponto aos movimentos espiritualistas, mormente os midiáticos, pois, na sua imensa maioria, querem ovelhas tosquiadas, arrecadando milhões de seus fiéis escudeiros e relativizando o sentido comunitário-social da relação com Deus.
A histeria de seus shows lembra o ditado ‘os montes estão parindo, vai nascer um ridículo ratinho’, porque é muito barulho momentâneo, caixas de sons potentes, anestésico da alma sem tocar as verdadeiras feridas da humanidade e da Terra, enquanto o ‘fogo brando’ das CEBs, que vão lentas para chegar ao infinito com aquela multidão lavada no sangue do Cordeiro, herdeiras legítimas da rebeldia dos mártires da caminhada, oferecem alimento naquele tempo de cozimento com tempero entranhado e se fazem escola da fé entre os empobrecidos, tornando-os capazes de viver a sexta-feira da paixão sem ficar eternamente nela, alcançando a páscoa na graça dos sinais da ressurreição.
O trem das CEBs transborda sabor na trilha preparatória do décimo sexto intereclesial a realizar-se na Diocese de Cachoeiro do Itapemirim, dias 20 a 24 de julho de 2027, e nessas estações, país afora, tem parada garantida nas cinco regiões pastorais da Arquidiocese de Mariana, trazendo na bagagem a cartilha ‘Memória, Sinodalidade, Esperança, 50 anos dos intereclesiais’.
A Região Pastoral Mariana Oeste está vasculhando vagão por vagão, encontrando-se no dia 25 de outubro de 2025 em Congonhas por ‘Uma Igreja que nasce do povo pelo Espírito de Deus’, no dia 25 de janeiro em Conselheiro Lafaiete por uma ‘Igreja, povo que caminha’ e no dia 28 de março em Casa Grande por uma ‘Igreja, povo que se liberta’. A próxima parada será no dia 28 de maio em Ouro Branco por uma ‘Igreja, povo oprimido que se organiza para a libertação’.
Há verdadeiras relíquias nesse baú da história cujo valor inestimável tem especial destaque na ‘comunidade- mistério’, legado-testemunho de dom Luciano.
O bispo-profeta escancara as portas de Mariana ao mundo e o Espírito Santo sopra à vontade, com sua brisa leve, terna e eterna, venha quem vier depois.
Ele, um dos mais proeminentes nomes do episcopado brasileiro e da América Latina, marca presença nos intereclesiais; não sai da cabeça sua imagem tomando caldo na cuia em Ipatinga.
‘Comunidade-mistério’ significa que as CEBs são o mesmo mistério continuado da encarnação de Deus, pois n’Ele a semente do Verbo penetra o cosmos por inteiro e, nelas, a Palavra se faz carne nas realidades mais desafiantes e as transforma. Elas são matrizes originárias de levantes populares contra ditaduras sangrentas em nossa América.
Nas CEBs, cessa a divisão entre sagrado e profano, alma e corpo, céu e terra, e toda dicotomia teológica eivada da filosofia grega. Não há dois mundos, mas um só em interfaces!
Gestadas na memória das primeiras comunidades cristãs plurais, elas circulam bem na policromia atual de pensamentos, abertas a dialogar nas coisas mais simples do cotidiano e nas questões mais complexas.
A dinâmica do encontro em Casa Grande testemunha isso, quando a recordação da vida traz o valor das plantas medicinais, o cultivo dos jardins, o encontro das mulheres em Ibertioga, as Santas Missões Populares em Mutirão nas comunidades –eixo da 040 e o encontro antirracismo em Congonhas, a Pastoral Afro em Conselheiro Lafaiete e o engajamento do cristão na Política.
Elas não alimentam temas-tabu, e assim, enquanto o espiritualismo intimista aproveita o sentimento de insegurança do povo, venda-lhe os olhos e lhe promete o céu por recompensa a esse vale de lágrimas, infantilizando a fé, as Comunidades Eclesiais de Base desafiam-se a singrar águas profundas, sem barreiras nem preconceitos.
Casa Grande reafirma que as dimensões comunitária e missionária da evangelização, levadas a sério, desembocam, necessariamente, na atuação política; na busca coletiva e organizada do bem comum a partir dos empobrecidos e das periferias, pois eles mesmos são os principais sujeitos de sua emancipação.
O ‘sim’ aqui é o ‘não’ a seu reverso, a politicagem, pão cuspido e alimentado diuturnamente nas redes sociais e nos meios de comunicação de massa.
Ela é desastrosa porque falseia a realidade e dá espaço a fantasmas da ditadura, esgoto do país, associados a milicianos e brutalmente letais, tanto na pandemia quanto na cruel doença da exploração.
A politicagem, quando unida a uma prática religiosa alienante, como soe ocorrer hoje, se faz unha e carne com a liberdade de mercado porque transfere para o foro privado tanto a salvação quanto as condições objetivas de vida digna.
As consequências são as piores possíveis: se a salvação é entre mim e deus, não preciso da mediação comunitária; se a terra é minha, comprei e paguei, faço dela o que eu quiser; se me enriquei e você não, é porque trabalhei, tive sorte, fui abençoado … e se esconde a exploração, pecado original da sociedade de classe.
Essa ‘liberdade de servos’ pavimenta a ascensão ‘política’ dos ‘Ustra e brilhantes’ e o sucesso econômico de bilionários, cujo acesso ao topo da pirâmide é o povo em degraus. Flávios, Zemas e outros vão por essa escada!
Quando o ‘trem prospera nessa direção, a miséria e a violência crescem.
As CEBs seguem outra perspectiva, vivenciando a liberdade enquanto alargamento da convivência fraternal, trocando a escada por rampa construída pela universalização das políticas públicas através da democracia direta.