Vi postagem recente em que o padre Zezinho (José Fernandes de Oliveira, SCJ) recebe homenagens em um encontro de catequistas. Não deu pra saber se é um #tbt ou fato novo. De branco, sua velha cruz peitoral, seu jovial sorriso, seu gestual moderado, muito bem fisicamente, considerando a idade e os solavancos somáticos. Como é bom vê-lo assim, altíssima vibração, encantamento, recebendo o carinho de quem o admira.
Mineiro de Machado, migrou com a família para Taubaté-SP aos dois anos. Aos onze, ingressou no seminário da Congregação do Sagrado Coração de Jesus, daí a sigla sempre aposta ao nome: Padre Zezinho, SCJ. Ordenado sacerdote aos 25 anos, em 1966, nos Estados Unidos.
A partir de 1969, passa a usar os meios de comunicação para evangelizar, principalmente através da música. Vale recordar, havia antes, certo distanciamento dos meios de massa, numa assimilação da crítica à modernidade, aos aspectos negativos da massificação entranhada pelo capitalismo. Mas o Concílio Vaticano II (1965) tratou de colocar as coisas no ponto certo, e no decreto Inter Mirifica, sobre os meios de comunicação social, ressaltava seus aspectos positivos e incentivava seu uso pela Igreja.
Padre Zezinho foi pioneiro, assumiu a vanguarda, utilizando o dom de compor e cantar bem para se tornar um pregador de muita audiência. Na esteira do tropicalismo, foi pioneiro também em usar instrumentos modernos, como a guitarra elétrica e a bateria, na música religiosa. Sempre se definiu como um padre que canta e não um cantor que é padre. Desse modo, mostrou que, antes de tudo, é um sacerdote, e a música, uma ferramenta para falar de Deus.
Fomos muito marcados pela sua produção, seja dos livros, seja dos discos. Meu primeiro contato com sua obra foi em 1973, conhecendo o álbum de 1972, Estou pensando em Deus. Cantamos muito aquelas canções na catequese, nas reuniões, rezas das comunidades. No final daquele ano, viria outro álbum especialmente lindo e bem trabalhado: Canção para meu Deus. A música Vocação, que abre o LP, foi coreografada por nós, meditada, éramos embalados por aquele ritmo dançante: a decisão é tua! Tocava nos alto-falantes das matrizes do interior, chamava para rezas, os cultos das capelas, os encontros juvenis, era o que havia. Vieram tantos outros trabalhos, e um em especial, quando já estava em Mariana, me encantou. Pedia ao padre Cenaque para rodar à noite no dormitório: Verdades! Aqui, padre Zezinho trazia uma leitura orante do evangelho libertador, que condena a divisão entre os que têm muito e os que passam fome. Nunca foi água com açúcar!
Encarnou o sentido do documento de Puebla, com a opção pelos pobres, a denúncia da desigualdade e suas causas estruturais: “menores abandonados, alguém os abandonou… o progresso não os adotou”, ou Mãe do céu morena, de cor igual a cor de tantas raças, ensina que a justiça é condição de construir um mundo mais irmão”.
Mas havia também os livros. Um deles, li com atenção por causa do título: Este Rebelde Quer Ser Padre. Sempre tive espirito de rebeldia, inquietude, desejo ardente de revolução. Meu querido amigo e colega, Márcio Viana, me via lendo aquilo e apontava para mim: _ Este rebelde quer ser padre! Ríamos muito da identificação.
Chamavam atenção a linguagem e os títulos dirigidos aos jovens. Visava esse público especial, a juventude sem lugar na igreja e no mundo. O vazio existencial, a ausência de sentido, o inconformismo frente às guerras e às injustiças, à falta de liberdade, abordava tudo com linguagem acessível, oferecendo à juventude uma palavra de alento.
Recebeu críticas, passou ao largo, seguiu seu caminho, não se rendeu, sendo artista, sem bancar o estrelismo, essa tentação latente. Deixou que a mensagem de Jesus chegasse à sua frente, e ele, o servo, como instrumento qualificado. O brilho sempre foi creditado a Jesus. Incentivou outros e outras, alguns grupos de canto e dança que, com ele, estiveram a dividir o palco em shows, programas de TV, gravações, permitiu que outros surgissem, brilhassem, fossem vistos e reconhecidos. Visibilidade aos invisíveis.
Padre Zezinho é essa influência externa e eterna na nossa formação, nas nossas escolhas. Contribuiu poeticamente para nosso trabalho. Inspiração constante, um facilitador, disponibilizando o instrumental que não tínhamos. Permanente reflexo de luz guardado num canto da alma.
Gratidão ao camarada padre Zezinho, SCJ!