Golpe Golpe Golpe

Golpe Golpe Golpe

(19/07/2021)

Vivemos sob a chantagem de Golpe. Não dá mais ouvir esse tipo de conversa. A prática do Golpe político é recorrente desde a proclamação da Independência. Funciona como dispositivo para garantir a classe dominante economicamente no controle político da riqueza nacional. Essa estupidez emocional conta com a imediata adesão de parte das forças armadas, pouco importando a natureza da coisa.

Numa ligeira recapitulação, comecemos pela Independência, ela mesma  proclamada por um Golpe por dentro, já que feita pelo próprio príncipe regente português frente ao reinado português. Na sequência, no Império, começa a série: A Noite da Agonia. O Imperador dissolveu a Assembleia Constituinte na madrugada de 12 de novembro de 1823. Com ajuda dos militares, cercou o prédio dos deputados, puniu com prisão e exílios a quem reagiu. Assim, a fórceps, nasceu a Constituição da mandioca.

O segundo Golpe é o da maioridade de Pedro II, em 1840, no contexto do governo regencial, turbulento, instável, ambiente propício a quarteladas. O previsto legalmente era que o príncipe só pudesse assumir aos 18 anos, mas aplicou-se o Golpe da Maioridade e Pedro II assumiu poder com 16 anos de idade, para vencer crises.

A Proclamação da República, em 15 de novembro de 1889 se deu na conjuntura de um Império combalido, a economia aos cacos, a campanha republicana em alta. Amigo do peito de Pedro II, Marechal Deodoro caiu na fakenews de que seria substituído e amealhou um grupo de fardados para golpear o amigo. O povo assistiu bestializado, anotou um cronista.

A posse do segundo presidente, o vice Floriano Peixoto, em si foi outro Golpe: a Constituição previa nova eleição em caso de renúncia antes de um ano de mandato. Floriano impôs a sua interpretação de que haveria nova eleição no da eleição direta, e não foi o caso. Deodoro fora eleito pelo Congresso. Ficou Floriano no poder, mandando como ditador.

O que chamam de Revolução de 1930 foi um Golpe de caráter civil-militar, encabeçado por lideranças dos estados da Paraíba, Rio Grande do Sul e Minas Gerais contra o resto. Antes que Júlio Prestes, eleito pelo voto popular, tomasse posse, uma junta militar depôs Washington Luiz e deu posse provisória a Vargas, que gostou da ideia e foi ficando, sendo obrigado pelas armas de 32 a convocar nova Constituição. Eleito indiretamente em 34, aplicou o Golpe em 37, instituindo o Estado Novo, uma ditadura explícita.

Deixemos os episódios da renúncia de 45 e do suicídio de 54 para análises mais seguras, mas foram crises resolvidas de modo extremo, com “forças ocultas” agindo nas sombras.

Juscelino, o glorioso JK, sofreu reiteradas tentativas de golpes, mas com  habilidade, conseguiu desvencilhar-se de todas, contando com  o apoio do general Teixeira Lott, que colocou ordem na caserna.

Seus dois sucessores não tiveram a mesma diligência. Jânio Quadros tentou antecipar-se ao Golpe que se avizinhava, renunciando para voltar em seguida nos braços do povo. Deu-se muito mal: tomaram sua cadeira antes de pousar em São Paulo numa sexta-feira, dia em que o Congresso não trabalharia.

João Goulart tomou dois Golpes fatais: teve que engolir o Parlamentarismo em 61 para ser aceito e tomar posse. Recuperou, no voto, o poder de presidente, restabelecendo o Presidencialismo em plebiscito. Mas o voto popular não impediu o Golpe sem misericórdia, de 31 de março de 1964.

Pensava-se que tal prática estivesse soterrada e cimentada pela Constituição cidadã de 1988. Ledo engano! Tratou-se de golpear a primeira mulher presidente, em 2017: até ministros do STF assumem que foi Golpe. E completou-se o serviço sujo com a prisão ilegal de Lula.

Qual é o próximo Golpe? Temos um presidente que desde que assumiu em 2019 só fala isso: Golpe, Golpe. Golpe. Ameaça todo dia. Golpear mais o que?

Surge a trapaça semeada em Brasília: o Semipresidencialismo. Ter um presidente sem poderes de presidente. Que monstrengo seria isso? Quem poderia suportar? Para que eleger um homem e lhe tirar antecipadamente os poderes?

Insuportável a esquizofrenia de uma arma na nuca a todo instante. Tudo serve de ameaça com baionetas, fuzis e bombas de efeito imoral. O que nos motiva a viver é a liberdade. Sim, o corpo é importante, mas o que vale um corpo sem liberdade?

Não existe a menor graça em memes, pilhérias, risos, cada vez que um ser desajeitado grunhe que vai nos tirar a liberdade. Não dá pra ser um país de Golpes. Uma nação necessita de solidez e maturidade. Não dá para ser eternamente criança: há que passar às etapas superiores da existência, chegar à autonomia, à autodeterminação como povo. Não somos crianças nos braços da pátria armada, não amada. O amor não ama armas. É preciso riscar a palavra golpe, abominá-la, execrá-la como palavra e possibilidade. Estamos fartos, enfastiados dessa farsa.

Merecemos seguir o fluxo da vida. Impossível seguir com gente armada a nos proibir o pensar, o sentir, o propor, participar e sonhar.

 

Nota: Publiquei esse texto em ZDM Notícias, em 19/07/2021, e ele parece de agora.

Facebook
Twitter
WhatsApp
LinkedIn
Telegram
Email

Mais artigos de Gilson José de Oliveira

Eis a Páscoa! Venceremos!

Agora estamos como as mulheres no amanhecer daquele domingo espetacular em que Jesus ressuscitou. Significa que a morte não nos aflige a ponto de nos desanimar. A vitória de Jesus é uma grande luz que clareia as noites mais escuras da nossa vida. Deus deu a cada um a vida

Leia mais »

Ao Padre Zezinho: Gratidão

Vi postagem recente em que o padre Zezinho (José Fernandes de Oliveira, SCJ) recebe homenagens em um encontro de catequistas. Não deu pra saber se é um #tbt ou fato novo. De branco, sua velha cruz peitoral, seu jovial sorriso, seu gestual moderado, muito bem fisicamente, considerando a idade e

Leia mais »

A Fé em Desconforto

A Fé em Desconforto Entro para a celebração dominical, com leigos, o homem calvo que veste uma manta branca me cumprimenta e eu brinco: _ O senhor está parecendo o Júlio Lancelotti. Tomo um choque de 220 volts: _ Deus me livre, fique com ele pra você! _ Como assim?

Leia mais »

Ano Novo, Vida Nova

Finda mais um ano! Encerra-se um ciclo, abre-se outro, com novas oportunidades. Mas não é possível deixar tudo para trás: a luta continua, algumas dores seguem, a vida vai em seu curso, como o rio que procura o mar. Mas por que se diz “ano novo, vida nova?” É que

Leia mais »

Crises e Recomeços

  As crises não são apenas momentos de angústia, medo, perdas e danos. Transformá-las em oportunidade é o grande lance que alguém, algum grupo, comunidade, até mesmo uma nação, podem dar na sua existência. Então, da crise se passa ao mergulho na identidade, na razão de ser, na origem de

Leia mais »