Crises e Recomeços

Crises e Recomeços

 

As crises não são apenas momentos de angústia, medo, perdas e danos. Transformá-las em oportunidade é o grande lance que alguém, algum grupo, comunidade, até mesmo uma nação, podem dar na sua existência. Então, da crise se passa ao mergulho na identidade, na razão de ser, na origem de tudo, nas causas mais fundas do que não deu certo. O resultado desse exercício traz sempre algo novo, esperança renovada, retomada do fio condutor da vida pessoal ou coletiva. Todo esse processo tem a mística do crisol, da purificação, da dor da mudança, da perda de algo que se possa perder, para ganhar um novo estágio que signifique crescimento e evolução logo adiante. 

Alguns exemplos perpassam a Bíblia Sagrada. O livro do Gênesis nasce de uma crise: durante o cativeiro da Babilônia (586-531), as feridas estavam de tal modo expostas que as pessoas se sentiam sem rumo, sem sentido, não compreendendo quem eram, o que significavam, sua origem, seu destino. Oprimida, dispersa, aquela gente que se entendia como povo de Deus, de repente se viu tão desfigurada, que perdeu até Deus coo sua referência maior.  Então o Genesis é o processo de revisão de vida, da história, dos caminhos percorridos. 

Desta busca de identidade e de sentido, nasce um dos mais belos livros sobre a vida, ressaltando a existência de Deus como criador, a importância da natureza como casa propícia à salvaguarda da vida, a dignidade do homem e da mulher, a importância de nos fazermos fraternos, ao invés de nos matarmos em guerras fratricidas, o amor irrevogável de Deus por suas criaturas. 

A Bíblia é feita de várias etapas da memória que recompõe a verdade do homem, do mundo, de Deus, do povo organizado. Tudo salpicado de poesia, oração, canto, profecia. São muitas as crises das quais a comunidade salta para um estágio avançado, uma melhor compreensão de si mesma, de sua missão, de seus cuidados necessários, sua relação com o tempo, o espaço, o futuro. 

Os evangelhos resultam de uma crise mais aguda: a morte de Jesus e a responsabilidade pelo seu legado. Ele deixou uma ideia de fraternidade, de paixão pela vida, zelo pelo projeto do Pai. Discípulas e discípulos que o seguiram de perto se viram diante de um grande dilema: deixar deteriorar na poeira do tempo toda a riqueza das palavras e da ação de Jesus, ou reconstruir na prática de uma comunidade o seu programa de bem-aventuranças. A escolha certa era evidente, mas tinha um preço, e os cristãos tomaram o caminho certo: fazer a memória de Jesus, não só numa liturgia que recorda a sua pessoa, também, e principalmente, no testemunho vivo de comunhão. Já não era só recordar: memória aqui é vida, é lidar com uma presença, uma luz irradiante no compromisso de cada um e cada uma. 

Da crise se passou a algo maior, não só a elaboração de textos ricos e verdadeiros, mas a compreensão do que significou a Cruz, a Ressurreição, a nova forma de presença, as exigências éticas de defesa da vida. As comunidades se tornam lugar de resistência, de denúncia profética do mal, do anúncio vigoroso do amor que eleva o humano.

É bom recordar que nos anos anteriores ao Concílio Vaticano II, um sentimento estranho tomou conta da Igreja Católica, diante dos modernismos, do cientificismo, das novas potências, das guerras, etc. Ao se dobrar para refletir sobre si mesma, a Igreja vislumbrou as fontes: como foi no princípio? De onde viemos? Para onde vamos? E encontrou um sopro novo, razões novas, claridade, caminhos. Reencontrou o sentido de ser comunidade de resistência e fraternidade. 

Quando a decadência é tão evidente na humanidade, a ausência de horizonte se assemelha à cegueira, os humanos se estranham a ponto de se exterminarem, cabe propor sempre o retorno às raízes, ao começo, recontar a história, pontuar aquilo que nos distingue e o que nos irmana, do que resultará sempre algo novo e bom.  O momento atual requer, aqui e alhures, um mergulho mais fundo nas crises, em busca de sentido e destino novos. 

Uma crise pode ser um turbilhão de águas para  a morte, mas pode ser também um poço de água viva que nos faz viver e permitir a vida futura. 

 

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