Fraternidade sacerdotal, síndromes eclesiais e a missão

Fraternidade sacerdotal, síndromes eclesiais e a missão

A Fraternidade Jesus Caritas acha-se esperançada para o ano que vem com as diretrizes de santas missões populares relacionadas a seguir e está disposta a ser referência dinamizadora delas em sintonia com fórum permanente de animação missionária e em diálogo com as instâncias afins da Arquidiocese de Mariana: reservando tempo e energia para experiências missionárias nas paróquias ao longo do ano, com organização do ‘time’ missionário e envolvimento do Conselho Paroquial de Pastoral; realizando atividades diversas inspiradas na riqueza da Comunidade Eclesial de Base (CEBs), na Campanha da Fraternidade/2025 sobre ecologia integral, no Plano Arquidiocesano de Pastoral (PAE) e no Jubileu da Esperança; avaliando as atividades duas vezes ao ano, no primeiro e segundo semestres.

Abriu-se essa perspectiva motivadora com encontro realizado pela Fraternidade em Viçosa (5 e 6/12) para escuta e socialização da rica experiência das missões ocorridas ano de 2024. Participaram representantes de diversas comunidades das regiões Oeste, Centro e Leste que têm alguma relação com a Fraternidade sacerdotal; o método utilizado foi o Ver-Julgar-Agir, com trabalho em grupo e socialização em plenária.

O momento do ‘Ver’ mostrou duas síndromes estruturais gravíssimas na nossa igreja, que podem deteriorar, por dentro, seu caráter essencialmente missionário.

A primeira é a síndrome de Moisés, quando lideranças (ordenadas ou não) ficam absorvidas na pretensa ‘solução dos problemas do povo’ dentro de seu escritório e nos serviços de administração da econômico-sacramental, sem tempo para o pastoreio.

A segunda é a síndrome do Shopping, pela qual ‘fiéis’ arrebanhados, à busca de preenchimento do vazio existencial e de segurança social, lotam os templos, ‘comprando’ bens simbólicos à revelia de pertença efetiva a uma comunidade de fé e sem as consequências que dela decorrem.

O impacto dessas doenças é nefasto: pastorais tornam-se fã-clube e se confundem com movimento religioso; a instituição eclesial se torna uma espécie de entidade filantrópica, no assistencialismo sem profecia, na ‘caridade’ sem promoção humana, na comunhão formal sem aquela graça revolucionária das primeiras comunidades cristãs e do testemunho benfazejo de Francisco.

Até a riquíssima experiência das santas missões populares tem, por vezes, algo desse entulho doentio e reacionário, que se expressa no foco da igreja-templo, no proselitismo de levar Deus sem concebê-lo Amor onipresente e na tentação de resposta para todas os problemas.

No ‘Julgar’, traduzido por ‘luz’ e ‘discernimento’, lembrou-se que todos os documentos da Igreja reafirmam comunidade e espírito missionário enquanto essência da evangelização. A partir dessa base sólida, lembrou-se, também, que as Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) constituem a experiência histórica que, a partir da década de 1960, melhor articulou esses dois elementos.

CEBs é comunidade missionária! Elas se enraízam pelos grupos de reflexão e misturam o fermento na massa, assando, no fogo abrasador do Espírito Santo, o bolo da transformação radical das estruturas injustas do mundo. Elas fazem o milagre do diálogo simbólico entre a água, o sal e o açúcar que aceitam desaparecer para a existência do soro curador do tecido social e religioso adoecidos.

Esse ‘doce-amargo’ das CEBs tornou-se matriz de sindicatos combativos, movimentos populares, atuação política séria, pastorais sociais; banhadas de sangue do martírio e perseguidas por dentro e por fora da igreja, odiadas por mandatários do mundo, chutadas por capitalistas abertos e camuflados – que preferem a economia verde do dólar ao uso consciente dos bens naturas -, as CEBs permanecem vivas e basta-lhes um sopro de oportunidade para renascerem em brotos de esperança nesses tempos de secura mística, que atenta contra a encarnação de Deus.

Nesse contexto, na hora do ‘AGIR’, viu-se que as santas missões populares são experiências riquíssimas. Através delas, agentes missionários conhecem a realidade, entram em processo continuado de formação, aprendem a ser sujeitos da evangelização. Padres, bispos, diáconos, irmãs, seminaristas e outros – que estejam em vida apartada – misturam-se pela consciência da pertença ao mesmíssimo Povo de Deus, sem nenhum tipo de privilégio (lei privada) nem assessórios em demasia porque o distintivo de qualquer hierarquia sadia é o serviço desinteressado aos oprimidos. No dizer do saudoso dom Luciano, ‘somos do sindicato dos lavadores de pés’.

Ainda se fez memória da alegria experimentada tanto por parte de quem vai às visitas quanto de quem as recebe, pelo fortalecimento do grupo de reflexão e das comunidades ‘pequenas’ e pelo sentimento da beleza evangélica do ecumenismo no coração acolhedor das diferentes igrejas.

Inserir-se de cheio na missão é lavar a alma!

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