Dom Silvério e as outras pontes

Dom Silvério e as outras pontes

‘Nunca vimos coisa semelhante!’. A expressão tem vindo à tona cada vez que ocorre uma ‘justa’ revolta da natureza nesse último período em qualquer parte do mundo. O termo ‘justa’ é proposital pela leve desconfiança de que nossa linguagem nos trai, revelando uma visão equivocada da realidade e, em consequência, na definição das prioridades.

Nós mesmos sentimos, com os próprios olhos, essa força descomunal da ‘natureza’ no bairro Passos de Estrela, às margens do rio Taquari, em Cruzeiro do Sul, por ocasião de missão humanitária às áreas atingidas entre 2 e 22 de julho de 2024. Não restara pedra sobre pedra num espaço de 1.400 famílias, com enormes pilastras de antigo templo deitadas ao chão, feito gravetos.

Dom Silvério, na zona da mata mineira, entra para a lista das cidades que sofrem essas sacudidelas de ‘coisas nunca vistas’. Chuva torrencial de 8 de janeiro chega a 150 milímetros e a água despejada em enchente destrói 9 pontes, alaga ruas, entra nas casas e deixa quase duas centenas de pessoas desabrigadas.

Campanha nas redes sociais motiva doação de produtos de limpeza, higiene pessoal, roupas de cama, travesseiros, cobertores, colchões e calçados em condições de uso. A solidariedade é um dos valores mais belos do ser humano e, nesses casos, faz-se particularmente necessária.

Em cidades dos Estados Unidos, cujo presidente eleito toma posse no próximo dia 20 com bravatas imperialistas, é o fogo que lambe tudo. O vento, que beira 150 quilômetros por hora, numa direção e noutra, faz o fogaréu espalhar-se rapidamente e dificulta o trabalho dos bombeiros. Parece vulcão engolindo as casas – luxuosas ou não -, com línguas possantes, deixando o céu coberto de fumaça e os moradores numa penumbra desesperada. O incêndio provoca algumas vítimas fatais, causa evacuação de pelo menos 200 mil pessoas e as chamas descontroladas entram em centros turísticos de Los Angeles.
As imagens da água e do fogo, quanto revoltos, chegam a ser apocalípticas, sem arcas de Noé nem outro equipamento qualquer de tábua de salvação.

A revolta especialmente assustadora da natureza nesses últimos anos vai para a conta da emergência climática provocada pelos impérios econômicos globais cuja violência, degradadora e letal, supera enchentes e incêndios.

Apesar do evidente nexo entre tais tragédias e o modelo de desenvolvimento, capitalistas de plantão e seus gerentes, empoleirados em estruturas de estados nacionais, não só escondem essa ligação, mas passam a ilusão de que tudo se resolve nesse reino da tecnocracia. Com essa miopia proposital, cuidam quando muito dos sintomas à revelia da causa e as tragédias, por maiores que sejam, nem triscam nos rumos do sistema global de acumulação pela exploração dos bens naturais e da classe trabalhadora. Por causa desse cinismo deslavado, especialistas afirmam que a situação tende a piorar, indo ‘do assovio à cantiga’ até o beco sem saída.

Que Deus tal coisa não permita!

Nem os movimentos populares – que buscam caprichar na emancipação permanente da consciência – escapam, por vezes, desse canto de sereia e das armadilhas da linguagem, niveladas a contos de fada. Nascido na resistência conflitiva a grandes barragens da ditadura militar no Sul e Norte do país, o MAB acreditava que as chamadas Pequenas Centrais Hidrelétricas seriam defensáveis. Foi preciso o teste de fogo da experiência concreta na zona da mata mineira, na década de 1990, quando o povo se organiza e luta num contexto de ‘pequenas’ barragens pipocando em cada trecho de rio e quebrando, ao meio, laços comunitários carregados de história.

Ali, no entorno de ponte Nova, se dá o estopim da descoberta de que não importa o tamanho da barragem nem se a energia é gerada pela força da água ou do vento ou da montanha de lixo ou das ondas do mar, o que importa é saber a serviço de quem o bem natural está. Essa é a questão central!

Nossa unidade cósmica está quebrada e nos dispersamos em poeira sideral. Cantamos ‘tudo está interligado como se fôssemos um, tudo está interligado nesta casa comum’. A musicalidade eleva os sentimentos, mas nossa ‘reconstrução’ são camadas justapostas e ajuntamento de cacarecos antes que unidade de fato.

Nossa linguagem nos trai nesse Arco-Íris de esperança do ‘caminhar juntos’, da ‘visão global para agir local’, e revela nossa concepção despedaçada. Dizemos que ‘as enchentes em Dom Silvério derrubaram nove pontes’, que ‘sobe para 12 o número de mortes em decorrência das chuvas em Minas Gerais’, que ‘o fogo matou seis pessoas no estado da Califórnia’; ou seja, colocamos os sintomas no lugar das causas e crimes em processo, ao longo de séculos, se nos revelam desastres naturais.

Não nos ocorre a imbricação entre uma coisa e outra. Por isso não notamos que a terraplanagem do lote, a monocultura da cana, a pastagem intensiva, a drenagem do brejo, a derrubada da mata na ‘zona da mata mineira’, a destruição da Amazônia, os gases de efeito estufa, o aquecimento do planeta, a rejeição ‘gratuita’ às Comunidades Eclesiais de Base pelo seu engajamento social a partir da fé comprometida, a escorregada do espiritualismo à extrema direita, a idiotice da rejeição à política enquanto espaço garantidor do bem comum, que essas coisas entulham nosso coração e atingem nossas cidades.

Que se reconstruam as passagens em Dom Silvério e tudo que é devido. Mas o mundo carece de outras pontes.
Mãos à obra!

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