Quatro ideias marcam a escuta da avaliação das Santas Missões Populares (SMP) ocorrida na manhã de sábado de 24 de fevereiro na Comunidade Nossa Senhora da Ajuda, em Congonhas: aprendizado, sujeito, fraternidade e missão.
A SMP é aprendizado porque desinstala a pessoa e a coloca em contato direto com a realidade, em suas possibilidades e limites, nas dimensões religiosa, econômica, social e política. Essa proximidade física, enquanto fonte de aprendizado, vai do conhecimento à compreensão e reflexão traduzida em ação, caminho mais ‘longo’ que vence a tentação do imediatismo e coloca energia no fortalecimento da comunidade médio e longo prazos. Cada comunidade viva se torna Comunidade Eclesial de Base (CEBs) capaz de oferecer os serviços essenciais da evangelização, quais sejam: dois grupos de reflexão (ao menos), catequese, celebração, partilha do dízimo e promoção humana.
A SMP é organizada pelo próprio povo, o que ajuda a pessoa participante a ser sujeito da evangelização. Ela é uma escola de emancipação de consciência e se acha escorada na sadia compreensão teológica de que todos os batizados (Papa, bispos, padres, diáconos …) fazem parte do mesmo Povo de Deus. Incluem-se, aí, as pessoas de ‘boa vontade’. Há diferenças de funções, mas todas e todos são membros do mesmo tronco, Jesus Cristo, inseridos numa comunidade, condição necessária para frutificar.
Ser sujeito na vida é marca registrada da SMP, pois ela faz a experiência de que missionárias e missionários são autorizados por Jesus Cristo a assumir o comando, sempre em perspectiva de comunhão. Ninguém tem necessidade de pedir licença ou beijar a mão de ninguém para fazer o bem. A Igreja não se faz de fã clube de padre e de bispo com show missa nos tempos litúrgicos ‘fortes’, mas de pessoas cristãs em processo formativo permanente para maturação da fé em grupos de reflexão e em comunidade. Essa compreensão é fundamental no anúncio do reino sonhado por Cristo – inclusive na sua dimensão profético para dentro e para fora -, vivido por dom Luciano e testemunhado por nosso querido Papa Francisco. Assim a Igreja recupera seu fôlego infinito para ir aos ‘confins da terra’ e dos corações frios e petrificados, num ritualismo mágico ordenado pelo vazio de sentido.
Uma conta matemática simples pode elucidar o sentido mais profundo dessas afirmações, tomando-se, por exemplo, o Município de Congonhas. Nosso querido Papa Francisco mora em Roma, o bispo em Mariana, nenhum diácono; ‘apenas’ sete padres, tidos por ‘guias’ espirituais, teriam a responsabilidade pela evangelização de 60 mil pessoas. Essa visão é míope porque desconsidera a corresponsabilidade pelo reino compartilhada, igualmente, pelas comunidades católicas, pelas comunidades cristãs e por todas as pessoas de boa vontade. Esse raquitismo teológico não dá conta da necessária travessia, a qual vai desde a (des) graça da escravidão do Egito atual imposta pelos impérios econômicos até a graça da terra prometida.
A SMP ajuda na fraternidade universal. A sociedade atual é diversa. Os satélites e prédios são mais altos que as torres dos templos e alcançam muito mais longe. A sensibilidade universal pelo transcendente expressa-se em religiões e se organiza em igrejas com doutrinas e intenções diferenciadas, ainda que se resguarde o sentimento do ‘mesmo Deus’. Nesse contexto, há que se superar a disputa por fiéis, pois o caminho do proselitismo via ‘intercessores’ é doença grave e leva ao campo escorregadio e apelativo do espiritualismo sentimentalista e fanático sem racionalidade e sem compromisso com a libertação integral dos povos oprimidos, componente essencial do evangelho. Nosso único mediador é Jesus Cristo! A cristandade é algo superado e quem se envereda por esse caminho faz dos movimentos juvenis – independente dos nomes – e das ‘novas’ comunidades escolinha de fé na extrema direita. Nesse ponto, há muitos padres e bispos bons, mas equivocados. O ‘mandato’ de Jesus é que discípulas e discípulos seus sejam sal da terra; ser pitada discreta de sal par dar sabor ao mundo e, não, para fazer o salgueiro.
Por fim, a SMP ajuda na vivência do caráter missionário permanente através de gestos concretos. A Comunidade Nossa Senhora da Ajuda e a Equipe de Animação Missionária em Congonhas estão motivadas a cuidar das fontes de água; a motivar debates sobre o testemunho do Papa Francisco; e a implantar grupos de reflexão nas ruas e sítios onde ainda não existem. Essas células do fermento da Palavra, na realidade, enraízam a comunidade e lhe possibilitam dar muitos frutos.