O buraco da fechadura

O buraco da fechadura

Alfredo J. Gonçalves

Na sociedade dos dias atuais, contemporânea ou pós-moderna, o “buraco da fechadura” serve de metáfora para a nudez escancarada das relações humanas. Com o passar do tempo, o pouco de pudor que sobrara da geração dos Beatles e com seus seguidores, derreteu diante dos apelos eloquentes e estridentes da atualidade. Primeiramente, veio a televisão e invadiu lares, famílias e a intimidade das pessoas. Programações como as novelas e as séries do BBB (Big Brother Brasil ou da “Fazenda”, por exemplo, visitam os quartos privados, a cama e até o banheiro. O sucesso, neste caso, se deve ao vício do voyeurismo, o qual, de forma implícita ou explícita, morde e fascina a curiosidade de inúmeras pessoas. Por toda parte, multiplicam-se os microfones, câmaras e holofotes dos “paparazzi”, como abutres sobre a carniça. Lady Dianna foi uma das vítimas desse olhar atrevido, impudico, inescrupuloso dos telespectadores. Amizades, namoros, noivados e casamentos se fazem, desfazem e refazem diante das multidões, com seu olhar grudado na tela. Alegria e tristeza, euforia e depressão, sucesso e fracasso atraem públicos cada vez mais numerosos).

Depois, chegou o computador e os “googles da vida”. O Google sabe tudo sobre todos. A vida e a intimidade das pessoas foram levadas à praça pública da Internet. As celebridades de maneira particular – tais como artistas, esportistas, políticos, autoridades, enfim, os chamados “famosos” – se tornam expostas a esse novo buraco da fechadura. A curiosidade alheia, indevida ou devidamente, penetrou na existência privada de certas personalidades em níveis sem precedentes. A confusão entre o campo da vida familiar e o campo da função profissional se estabelece a tal ponto que o/a próprio/o protagonista não consegue mais administrar convenientemente seus passos, e até mesmo seus desejos mais íntimos. Nada e ninguém foge ao olho ávido, guloso, quer da opinião pública, quer dos internautas. O mínimo escorregão pode trazer danos irreparáveis para a fama, a imagem ou a moral de uma pessoa. Após enviadas ou encaminhadas em vários e distintos endereços eletrônicos, as imagens se comportam como as palavras: depois de proferidas da boca para fora, não podem voltar atrás. Correm até os confins do mundo. Não há como deter o número de visualizações. De resto, o mais provável consiste no desejo que esse número alcance a cifra dos milhares e milhões. Cresce a ansiedade dos “influenciadores” pela quantidade de pessoas influenciadas.

Em seguida, a revolução informática avançou para o telefone celular, o Iphone individual. Aqui a própria pessoa costuma se expor, postando fotos, imagens e cenas de intimidade não apenas de si mesma, mas também dos familiares, amigos e parentes. As redes sociais (melhor seria falar de redes virtuais) passam a constituir uma gigante teia de aranha, por onde circulam toda espécie de mensagens pessoais e coletivas, chegando às vezes aos famigerados “nudes”, sejam eles reais ou falsos, próprios ou alheios. Não poucas dessas mensagens terminam na delegacia de polícia ou nos tribunais do judiciário. A essas alturas, o buraco da fechadura, com relativa frequência, se abre não de fora para dentro do quarto privado, mas de dentro para fora. A sedução que exerce os cinco minutos de celebridade comporta o perigo de auto desnudar a intimidade privada e exibir-se às vezes o que há de mais sagrado. Viver confunde-se facilmente com expor-se, colocar em praça pública a própria existência íntima. E semelhante existência despida torna-se entretenimento para milhões de olhares fixos por horas nas telinhas.

Enfim, desembocamos no código de barras e QR code. Chegamos aqui ao formato visual que, visualmente, mais se parece com a própria metáfora, isto é, o buraco da fechadura. Uma janela que se abre para realidades múltiplas, plurais e extremamente variadas. Quantas coisas, palavras, imagens e pessoas podem se esconder atrás desse misterioso quadrado em preto e branco ou do código de barras! Combinado ao celular, mundos inteiros surgem e desfilam com a magia de um clique sobre essa espécie de hieróglifo contemporâneo. O olhar público e midiático, a curiosidade da opinião pública se infiltra com avidez em todas as reentrâncias, e nos ambientes mais recônditos da vida humana, seja esta pessoal ou familiar, social ou comunitária, política ou cultural. Hoje em dia, véu algum é capaz de revestir o rosto, o corpo e a alma das relações que, ponto a ponto, vamos tecendo uns com os outros. A existência pós-moderna se desnuda quase sem escrúpulos e sem responsabilidade diante desses buracos da fechadura. E se, por um acaso, alguém tenta reverter uma imagem, foto ou mensagem transviada, o remédio pode converter-se em veneno, quando os danos se multiplicam com o próprio esforço de diminuir o estrago.

Fonte: IHU – 10.11.23

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