O texto é uma síntese do artigo do pe. João Miguel da Silva Soares, da Congregação da Missão, em Portugal. A síntese foi feita por pe. José Antônio de Oliveira.
O artigo completo pode ser lido aqui
Quando uma diocese produz um plano pastoral que as paróquias nunca chegam a aplicar, porque ninguém tem tempo ou clareza suficiente para o metabolizar, instala-se a sensação de que o discurso substituiu a realidade. E quando a fé se torna linguagem sem carne, torna-se museu, não casa.
E quando o povo não encontra resposta onde deveria, passa a buscar em outros espaços. Onde não há densidade, procura-se densidade; onde não há fogo, procura-se chama; onde não há carne, procura-se corpo.
A Igreja institucional se habituou a confundir presença com gestão, discernimento com procedimento, escuta com processo, sinodalidade com assembleísmo.
Há paróquias onde se planeia mais do que se acompanha. Há padres que conhecem melhor o calendário burocrático da cúria do que o sofrimento concreto das suas comunidades. E, no fim, um povo que continua sedento sai das reuniões com a mesma fome com que entrou.
Não é no extremo (tridentinismo ou carismatismo) que a Igreja encontrará futuro. Esses espaços alimentam a sede, mas não a conduzem à maturidade. Se a Igreja quiser realmente reencontrar vitalidade, o caminho não passa por importar o latim nem por replicar o entusiasmo performativo, mas por recuperar o essencial: a experiência do sagrado como lugar habitado, não apenas referido. Uma fé que dá carne antes de dar explicação.
O tridentino oferece coerência estética, o carismático oferece intensidade simbólica; o centro, demasiadas vezes, oferece uma espécie de neutralidade pálida. E a fé não sobrevive na neutralidade: precisa de família e chama, corpo e lugar.
A Igreja tem de voltar a produzir vida. Tem de dar algo mais do que reuniões, instruções e calendários. Tem de recuperar a espessura do encontro, o peso do mistério, a concretude do cuidado, a coragem de dizer Deus com força, não por protocolo. A fé cristã só chegou até aqui porque foi sempre encarnada, nunca apenas regulamentada. Quando o corpo desaparece, a alma fica sem casa.