Charles de Foucauld e as fraternidades nele inspiradas

Charles de Foucauld e as fraternidades nele inspiradas

Pe. Geraldo Martins[i]

O que mais atrai em Charles de Foucauld é a confiança em Deus e a totalidade de sua entrega a Jesus Cristo, aprendendo com Ele o “esvaziamento de si mesmo” por amor de que nos fala o apóstolo São Paulo (Fl 2,6). Irmão Carlos não procurava aparecer, mas, na oração, sempre mais intensa, conseguiu compreender o total abandono de Jesus a Deus Pai e o sentido salvífico dessa entrega como prova de amor aos irmãos. Mais do que pregar com a palavra, escolheu dar a vida por todos, no anonimato, na humildade e no sacrifício de Cristo que se fez pobre entre os pobres. É a missão pelo testemunho. Irmão Carlos descobriu a misteriosa beleza evangélica de quem oferece a si mesmo com Cristo pelos outros. Sua grande devoção era Jesus Cristo presente na Eucaristia, diante da qual permanecia longas horas em adoração, intercedendo pelo mundo inteiro (Dom Luciano Mendes – 12.11.2005/FSP)

 

Desnecessário recordar aqui a biografia de Foucauld, bem como sua conversão e toda a trajetória da vivência do ideal a que se propôs. Proponho, no entanto, que voltemos nosso olhar para o Irmão Universal a partir de três pontos que, a meu juízo, marcam de forma incrível sua vida: a busca permanente, a imitação de Cristo e a missão pelo testemunho.

  1. A permanente busca

Um passeio pela biografia do Irmão Carlos evidencia, de forma imediata, uma constante e permanente mudança em seus propósitos. Na adolescência perde a fé e, então, começa o seu caminho de busca.

“Desde os quinze ou dezesseis anos, toda a fé desapareceu de mim, graças às leituras das quais era ávido. Não abracei nenhuma doutrina filosófica. Não encontrando nenhuma que tivesse fundamentos sólidos, ficava mergulhado numa dúvida eterna, longe sobretudo da fé católica, cujos dogmas, na minha opinião, iam de encontro com a razão (carta a H. Duvenyrier – 21.2.1892)”[ii].

Nessa condição, aos 18 anos entra para a Escola Militar de Saint-Cyr, embrenha-se por uma vida desregrada e de prazeres, provoca sua expulsão do Exército “por causa de sua indisciplina e de seu notório mau comportamento”[iii]. Posteriormente, pede sua reintegração ao Exército para participar de uma expedição na Tunísia, mas é aceito num regimento que ia para o sul da Argélia por cujas planícies se apaixona. Deixa o exército pela segunda vez, para continuar na África e explorar o Marrocos. Tinha, nessa época, 25 anos. Durante três anos, vive a marcante experiência junto aos mulçumanos, tendo, inclusive, que se disfarçar de um deles durante a arriscada exploração geográfica que faz do Marrocos.

Seu retorno à fé aos 28 anos é fruto da inquietação que nunca o abandonou, característica da busca de algo que o satisfizesse plenamente. Seu diretor espiritual passa a ser fundamental nessa busca permanente que o caracterizará na vivência de seu ideal. Uma leitura apressada de suas constantes idas e vindas dá a falsa ideia de um Irmão Carlos indeciso, inseguro, inconstante. É o todo de sua vida que nos permite afirmar o contrário. Ele sabia muito bem o que queria e procurava o melhor meio para alcançá-lo, não hesitando abandonar o que começara se tal empreendimento ou opção não o conduzisse ao que se propunha.

Nesse contexto, nós o vemos entrar para a Trapa de Notre-Dame des Neiges, em 1890, e toma o nome de Irmão Marie-Albéric. Fica aí apenas seis meses, trocando-a pela Trapa de Akbés, na Síria. Sua experiência nas trapas dura cerca de sete anos. Nesse tempo, há dois aspectos em sua vida que me chamam atenção.

Em primeiro lugar, o propósito de viver na pobreza mais radical possível para se assemelhar ao máximo a Jesus Cristo. E, por mais que as trapas lhe oferecessem essa condição, ele sempre achava que não era suficiente. Ele mesmo o confessa em carta endereçada ao seu diretor espiritual: “Para os ricos, somos pobres, mas não tão pobres como o era o Nosso Senhor, não tão pobres como eu o era em Marrocos, não tão pobres como São Francisco”[iv]. Anos mais tarde, vai escrever seu desapontamento, especialmente com a primeira trapa: “Nunca, nem mesmo nos primeiros dias, encontrei meu ideal em Notre-Dame des Neiges”[v].

O segundo aspecto que destaco nesse período é o desejo que começa a manifestar de constituir uma congregação. Ele manifesta essa ideia em 1893 em uma de suas muitas correspondências. Pensa numa congregação de monges vivendo do próprio trabalho e imitando a vida de Cristo. Três anos mais tarde vai esboçar o primeiro plano para a congregação religiosa. Seu diretor espiritual, no entanto, desaprova sua “Regra”. “O senhor não deve estabelecer nenhuma regra, eu vos suplico. Vossa regra é absolutamente impraticável”, escrevera-lhe o padre Huvelin[vi].

Fora da trapa, em 1897, parte para sua próxima experiência em Nazaré onde passa a residir, trabalhando para as Clarissas de Nazaré. Antes disso, fica breve tempo em Roma para estudos a que não dá seguimento. Em Nazaré, tem a ideia, imaginem, de comprar o monte das Bem-aventuranças para aí viver como padre eremita. É lesado nos negócios. Mais um plano frustrado. Em Nazaré, mesmo fascinado pelo ideal da vida de Cristo, é tomado de interrogações e incertezas: “Deveria ele ficar ou não em Nazaré? Era ali que estava sua vocação? (…) Este homem, agora com quarenta anos, já não sabe mais o que fazer de sua vida”[vii].

Fica três anos em Nazaré e retorna à França e é ordenado padre aos 41 anos no dia 9 de junho de 1901. Já não pensa na Terra Santa, convencido de que Nazaré pode ser onde se está. Permanece, portanto, o ideal da vida de Nazaré. Seu pensamento, agora, se volta para a África. “Na minha juventude, viajei pela Argélia, por Marrocos. No interior de Marrocos, com seus dez milhões de habitantes, é tão grande como a França, não há um único sacerdote”, escreve a seu amigo Hnery de Castries[viii].

Com seus sonhos e projetos, vive seu ministério presbiteral no deserto. Primeiro, na região Sul do Oran, em Bêni Abbês, fronteira com Marrocos para onde sonha ir. Em 1905, instala-se em Tamanrasset onde permanecerá, entre uma viagem e outra, até 1916, quando é assassinado. São inúmeros os trabalhos que desenvolve nos seus quinze anos e meio de presbítero, incluindo o dicionário dos tuaregues.

  1. A imitação de Cristo

O segundo aspecto para o qual gostaria de chamar a atenção na vida e no testemunho do Irmão Carlos é sua meta ou ideal de imitar a Jesus Cristo. Este desejo, ou melhor, esta convicção nasce da consciência que adquire do mistério da Encarnação. Sua experiência em Nazaré foi fundamental para isso.

Na Palestina, naqueles locais impregnados pelas marcas da Encarnação, é que se dará a experiência decisiva, o ápice do encontro com o Deus que se revela extra-ordinariamente na ordinariedade em Jesus de Nazaré. A original e escandalizante Boa-Nova do cristianismo deixa de ser para ele uma ideia a ser meramente acolhida pela racionalidade, passando pelo ângulo insubstituível da experiência e pelo nível de conhecimento que esta palavra propõe na sua etimologia. (…) Belém, Jerusalém, paisagens e cenários evangélicos da Galileia e, sobretudo, Nazaré, farão Charles encontrar-se com a concreteza e verdade da fé cristã no mistério do Verbo que se fez Carne[ix].

No mistério da Encarnação, o que mais impressiona Irmão Carlos é o rebaixamento de Cristo, a Kenosis. Fará disso seu ideal e não se contentará enquanto não encontrar as condições para vivê-lo o mais perfeito possível. “A humildade e a ternura insondáveis de Deus manifestadas na Kenosis (esvaziamento) do Filho, com a qual Charles deparou-se concretamente na Palestina, tornar-se-ão seu projeto de vida, um ideal a ser perseguido e abraçado sem retorno e titubeações”[x].

Irmão Carlos pauta sua vida a partir desse mistério no qual mergulha de forma profunda. Sua obstinação por imitar Jesus na pobreza, na abjeção, na ocupação do último lugar, no escondimento, torna-se uma obsessão, vivida numa radicalidade que ninguém consegue acompanhar.

Escrevendo a seu amigo Gabriel Tourdes vai descrever seu amor a Jesus vivido no esforço de imitá-lo:

Eu passei quatro anos como eremita na Terra Santa, vivendo do trabalho de minhas mãos como Jesus sob o nome “Irmão Charles”, desconhecido de todos e pobre, e gozando profundamente da obscuridade, do silêncio, da pobreza, da imitação de JESUS. A imitação é inseparável do amor, tu bem o sabes. Todo aquele que ama quer imitar: este é o segredo da minha vida: eu perdi meu coração por esse JESUS de Nazaré crucificado há 1900 anos e eu passo minha vida a procurar imitá-lo tanto quanto pode a minha fraqueza[xi].

Nessa mesma direção, vai anotar em um de seus retiros: “Em todo caso, eu não posso conceber o amor sem um desejo, um desejo imperioso de conformidade, de semelhança…”[xii]. E, em correspondência a Louis Massignon, escreve:

Pouco a pouco você sentirá o desejo de imitar o Bem-Amado, de não fazer nada mais que ser um com Ele e de imitá-Lo. Você desejará amar como Ele, nada fazer que ter um só coração com Ele: já não sou eu que vivo, é JESUS – o CORAÇÃO DE JESUS – que vive em mim…[xiii]

Sobre o aniquilamento de Jesus que tanto o fascina e procura imitar, ele diz de forma esplêndida, primeiro, em verso: “Vi debaixo de um humilde teto de cabana/ Um Deus feito carpinteiro./  Ao repouso do céu, seu Reino, / ele prefere uma pobre carpintaria”[xiv]. Em outra ocasião, escreve comentando Lc 2,51

Ele desceu: em toda a sua vida, não fez mais que descer: descer encarnando-se, descer ao se fazer pequena criança, descer obedecendo, descer ao se fazer… pobre, exilado, perseguido… colocando-se todos os dias no último lugar… Veio a Nazaré, lugar de sua vida oculta, da vida ordinária, da vida em família, de oração, de trabalho, de desprezo, de virtudes silenciosas… da qual nos deu o exemplo durante trinta anos…[xv]

O fascínio de Irmão Carlos pela Encarnação é uma de suas intuições que mais me impressiona e chama atenção. Identificar-se com o Cristo encarnado, histórico, na sua vida de escondimento, de pobreza, de amor e doação as pobres, silenciosamente, é algo extraordinário, exigente, desafiador, especialmente, nesse contexto de um capitalismo neoliberal que seduz pelo consumismo e desejo de privilégio, prestígio, conforto e comodidade.

 

  1. A missão pelo testemunho

A busca permanente do ideal de imitar Jesus Cristo, em Irmão Carlos, desemboca numa maneira singular e, para a época, revolucionária de fazer missão. Aqui, parece inspirar-se em São Francisco que também tinha no testemunho a melhor forma de evangelizar.

Francisco, em seus escritos, bem como unanimemente testemunham as fontes hagiográficas franciscanas primitivas, coloca em relevo a força do exemplo, da pregação por obras, que deve anteceder a pregação explícita. Charles de Foucauld, igualmente, priorizou o testemunho de quem se con-forma ao Evangelho e eloquentemente o manifesta aos outros, insistindo nesse seu jeito originário de estar presente sem enquadrar-se nos esquemas tradicionais da missão ad gentes[1].

Fico impressionado com esse caminho trilhado pelo Irmão Carlos. Imaginá-lo em uma cabana, sozinho, mergulhado no silêncio, na oração e no trabalho, junto a um povo desconhecido, com as portas abertas para acolher os passantes, é algo intrigante. Especialmente para nós que acostumamos abarrotar nossas agendas e vivemos a missão como o excesso de tarefas em busca de resultados.

Olhando a vida de Foucauld e a obstinação por viver seu ideal, não é difícil compreender seu fracasso no projeto de construir uma congregação. Quem se disporia a viver o Evangelho como ele decidira viver? O mais interessante, contudo, é que esse fracasso nunca o fez desistir de seu ideal. A maioria de nós, diante de resistências e objeções, tende a ceder, rever posições, reconsiderar os propósitos com o fim de ter ao nosso lado os que queremos que caminhem conosco. Não foi assim com Irmão Carlos. Nisso também imita a Jesus Cristo que não muda seu projeto para agradar os que têm dificuldade de assumi-lo na sua radicalidade. Basta lembrar sua palavra ao jovem rico que o deixa por causa da riqueza (cf. Mc 10,17-22) e mesmo o que diz aos apóstolos, no discurso do Pão da vida, quando o povo vai embora: “Vocês também não querem ir embora” (Jo 6,67).

Seu perseverante testemunho, no entanto, não é estéril. Como semente fértil lançada à terra, tempos depois de sua morte, germina e produz frutos abundantes que se revelam nas Fraternidades que se multiplicam pelo mundo. Vê-se, agora, com clareza, que sua vida e testemunho não foram em vão. E tudo começou com a publicação, em 1921, do livro “Charles de Foucauld, explorador no Marrocos, eremita no deserdo do Saara”, do escritor francês, René Bazin, a pedido do grande amigo de Irmão Carlos, Louis Massigon.

Lendo esse livro, o padre René Voillaume vai se inspirar e fundar, por volta de 1933, a Congregação Irmãozinhos de Jesus e, posteriormente, a dos Irmãozinhos do Evangelho. Escreve o livro “Fermento na Massa” que será uma referência para as futuras Fraternidades que se constituirão tendo como fundamento uma espiritualidade baseada nas grandes intuições de Foucauld.

Atraídos pelo ideal de Irmão Carlos, padres diocesanos na França, orientados por Voillaume, vão se organizar sob o nome de União dos Irmãos do Sagrado Coração de Jesus. Em 1952, esse grupo de padres passa a se chamar União dos Irmãos de Jesus e, após o Vaticano II, União Sacerdotal. Três anos mais tarde, após a fundação do grupo, em 1955, acontece o primeiro Mês de Nazaré com a participação de 50 padres de 18 países. “A Fraternidade Sacerdotal nasceu pouco a pouco e colegialmente com momentos fortes nas etapas de formação e com pessoas marcadas pelo carisma do Irmão Carlos”[xvi].

Os frutos cresceram e a Família do Irmão Carlos se espalhou mundo afora em, pelo menos, vinte e um ramos diferentes. A Fraternidade Sacerdotal Jesus Caritas, um desses ramos, reúne 950 fraternidades, somando mais de quatro mil e quinhentos padres[xvii]. A semente da Fraternidade Sacerdotal chega ao Brasil no final da década de 1950, trazida pelo padre Guy Riobé, que aportou no Brasil em 1958. Informações de dom Paulo Pontes dão conta de que o início da Fraternidade Sacerdotal, no Brasil, ocorreu em Fortaleza, no bairro Pirambu, onde um grupo de padres se reunia inspirados na espiritualidade de Foucaul, coordenados pelo padre Francisco Campos. O mesmo dom Paulo recorda que o primeiro retiro da Fraternidade reuniu 60 participantes, em Pacatuba (CE), pregado pelo padre René Voillaume. Já o primeiro Mês de Nazaré se deu em Vinhedo (SP).

Coluna das Fraternidades, os “Meios da Fraternidade” – Dia da Fraternidade, Dia de deserto, Retiro nacional, Mês de Nazaré, Revisão de vida, adoração eucarística, pobreza, meditação do Evangelho – são o segredo de seu sucesso. Esses meios são como fonte que sacia a sede dos que buscam viver sua fé e seu ministério de forma encarnada, comprometidos com os pobres e com uma Igreja identificada com os últimos a exemplo de seu único Mestre, Jesus Cristo.

Encerro esse ajuntamento de palavras e pensamentos com René Voillaume:

Nenhum discípulo do padre de Foucauld deverá jamais esquecer esta austera e rude lição: a renúncia a qualquer resultado constatável, a aparente inutilidade de uma vida, o fracasso amado na imitação do Salvador dos homens, traído e crucificado: esse é o próprio germe de onde saíram suas Fraternidades. Essas nunca deverão esquecer o seu título de fundação e a substância com que foram, por assim dizer, trabalhadas desde a origem[xviii].

 

Notas:

 

[1] Idem, pag. 101

[i] Presbítero da Arquidiocese de Mariana, pároco da paróquia São João Batista, em Viçosa-MG. Texto elaborado para o Retiro das Fraternidades da Região Leste – ES, MG e RJ, em Betânia-Casa de Encontros e Oração, da Congregação dos Santos Anjos, na cidade de Vassouras-RJ, nos dias 25 a 27 de outubro de 2021.

[ii] JESUS, Irmãzinha Annie de. Charles de Foucauld – Nos passos de Jesus de Nazaré. Cidade Nova, São Paulo, 2004, p. 18.

[iii] Idem, pag. 26

[iv] SIX, Jean-François. Charles de Foucauld – O irmãozinho de Jesus. Editora Paulinas, São Paulo, 2008, pag. 47

[v] Idem, pag. 47

[vi] Idem, pag. 51

[vii] Idem, pag. 59

[viii] Idem, pag. 60

[ix] BREIS, Dom Beto. Francisco de Assis e Charles de Foucauld – enamorados de um Deus humanado. Paulus Editora. Edição do Kindle, pag. 37

[x] Idem, pag. 38

[xi] Idem, pag. 39

[xii] Idem, pag. 39

[xiii] Idem, pag. 40

[xiv] Idem, pag. 42

[xv] Idem, pag. 42

[xvi] Boletim das Fraternidades – Edição Especial 2016, pag. 13.

[xvii] Cf. Boletim das Fraternidades – Edição Especial 2016.

[xviii] VOILLAUME, René. Fermento na Massa. Livraria Agir Editora. Rio de Janeiro, 1958, pag. 18

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