Autoridade Pastoral e enfraquecimento da profecia – Eliseu Wisniewski

Autoridade Pastoral e enfraquecimento da profecia – Eliseu Wisniewski

Por: Eliseu Wisniewski*

Desde sempre, o poder constituiu um dos mais exigentes testes espirituais para a Igreja. A tensão entre autoridade e serviço atravessa o Evangelho e a história institucional do cristianismo. No entanto, em determinados contextos eclesiais atuais, como se observa em setores do episcopado (da Patagônia), com exceções dignas de reconhecimento, essa tensão parece ter sido resolvida de modo preocupante: não pela conversão do poder em serviço, mas pela sacralização discreta do poder como se fosse uma vocação em si mesma. Tal deslocamento não ocorre de forma abrupta ou explícita; ao contrário, manifesta-se de modo sutil, revestido de linguagem pastoral, prudência institucional e discursos reiterados sobre serviço que raramente se traduzem em práticas concretas.

Não são raras as declarações episcopais que afirmam, com convicção retórica, que a Igreja existe para servir. Isso é verdade do ponto de vista do Evangelho. Contudo, observa-se uma dissonância persistente entre discurso e prática. Servir, quando implica perda de privilégios, enfrentamento de estruturas injustas ou conflito com instâncias de poder político e econômico, passa a ser considerado excessivamente difícil demais. O poder, por sua vez, oferece recompensas imediatas: conforto, visibilidade, reconhecimento social e a sensação de relevância pública. Diferentemente do serviço evangélico, ele não exige conversão interior, mas habilidades diplomáticas, silêncio oportuno e gestos de afabilidade estrategicamente calculados. Nesse sentido, a proximidade com o poder torna-se não apenas fácil, mas funcional à manutenção de uma certa estabilidade institucional.

O contraste com o Evangelho é evidente. A cena joanina do lava-pés (cf. Jo 13,1-15) não é apenas um gesto simbólico, mas um critério hermenêutico da autoridade cristã. Jesus não redefine o poder; ele o subverte. A autoridade, no horizonte evangélico, manifesta-se na disposição de ajoelhar-se diante do outro, especialmente do mais frágil. No entanto, na rotina episcopal, a imagem que prevalece é outra: mãos bem apertadas, sobretudo aquelas que concentram influência política ou econômica. A bacia e a toalha permanecem no âmbito do símbolo litúrgico, cuidadosamente preservadas no ritual, enquanto seu conteúdo ético e pastoral é neutralizado no cotidiano das decisões e alianças.

Essa dissociação entre símbolo e prática permite que o discurso sobre humildade permaneça intacto, desde que não exija encarnação histórica. Falar de serviço não compromete; praticá-lo, sim. A retórica da humildade torna-se, assim, uma linguagem segura, porque não ameaça estruturas nem desestabiliza relações consolidadas. Nesse cenário, o poder deixa de ser questionado e passa a ser tratado como aliado necessário, quase como fonte de salvação institucional. A lógica que se impõe é clara: não se enfrenta o poder, não se o interpela, não se o incomoda. Pelo contrário, cultiva-se com ele uma relação cuidadosa, frequentemente justificada em nome da prudência, do diálogo e da unidade, conceitos teologicamente relevantes, mas que se tornam perigosamente elásticos quando utilizados para legitimar a ausência de profecia.

A tradição bíblica e profética, contudo, nunca confundiu unidade com silêncio cúmplice, nem prudência com acomodação. Os profetas de Israel, assim como Jesus de Nazaré, não foram perseguidos por falta de educação ou por ausência de diálogo, mas porque ousaram desestabilizar consensos injustos e denunciar alianças entre religião e poder. Quando a profecia é sistematicamente adiada “para depois” ou “para outros” ela deixa de ser uma dimensão constitutiva do ministério episcopal e transforma-se em um ideal abstrato, desconectado da realidade histórica.

A relação com o poder revela-se também na forma como os pobres são integrados, ou marginalizados, nos processos decisórios da Igreja. Eles continuam presentes nas homilias, nos documentos pastorais e nos discursos oficiais, mas raramente ocupam o lugar de critério efetivo. Tornam-se tema, não sujeito; objeto de reflexão, não referência concreta para a tomada de decisões. O poder, ao contrário, permanece sempre próximo, orientando prioridades, definindo agendas e organizando silêncios. Essa dinâmica produz uma Igreja que não enfrenta perseguição nem conflito, mas que, justamente por isso, corre o risco de se acomodar não ao Reino de Deus, mas às conveniências do momento histórico.

A ironia final dessa configuração é profundamente evangélica em seu paradoxo: fala-se abundantemente da cruz, mas prefere-se a segurança do palanque; prega-se o serviço, mas pratica-se a proximidade estratégica; invoca-se Jesus, mas com o cuidado permanente de que Ele não incomode demais. A cruz, reduzida a símbolo devocional, perde sua força crítica; o serviço, esvaziado de consequências, torna-se discurso inofensivo. Ajoelhar-se para servir exige conversão, desinstalação e risco. Curvar-se diante do poder, ao contrário, é muitas vezes apenas questão de hábito, protocolo e conveniência.

Diante disso, a questão que se impõe não é meramente pastoral, mas profundamente teológica e espiritual: que imagem de Igreja está sendo construída quando o poder é tratado como parceiro privilegiado e o serviço como ideal retórico? Recuperar a dimensão profética do ministério episcopal não significa negar a complexidade do diálogo institucional, mas reencontrar a coragem evangélica de colocar o Reino, e não a estabilidade, no centro. Sem essa conversão, o discurso sobre serviço continuará elegante, coerente e amplamente aceito; exatamente por isso, “perigosamente inofensivo”.

* Presbítero da Congregação da Missão – Província do Sul, mestre em Teologia pela Pontíficia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR).
Fonte: IHU – 11.2.26
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