A expressão ‘celebração sóbria’ parece definir bem a ‘posse canônica’ dos padres Mauro Lúcio (1/10) e José Mário (4/10), em Congonhas. Ela tem ar modesto de apresentação do padre ao povo. Sem bandeirolas nem latim. Sem sobreposição da formalidade rendada à eucaristia. Faz-se aquilo de praxe com centralidade na missão inspirada em Jesus de Nazaré. O Mestre! A citação de algum nome vem por delicadeza, sem nada que beire, nem de longe, à bajulação. As pessoas do cerimonial se comportam com saudável discrição. Tudo transcorre com razoável naturalidade. No ofertório, bom cantar ‘quem disse que não somos nada’, ‘retalhos de nossas histórias, bonitas vitórias que o povo tem’.
Não é só a celebração que dá o ar da graça. Entre as diversas equipes de serviço, as que trabalham na cozinha labutam o dia inteiro para alimentar tanta gente e permanecem de pé até tarde da noite para deixar tudo organizado. Mas não ficam sós! Algumas pessoas da ‘casa’, ordenadas ou não, unem-se em mutirão de limpeza, juntando toalhas, recolhendo mesas e cadeiras, lavando panelas, enxugando talheres, limpando o chão. A oração, quando acompanhada de algum testemunho, é perfume agradável que sobe ao céu com chance real de ganhar corações e mentes para a transformação do mundo; alimentar a coerência tem força revolucionária.
O jantar servido às visitas evita separação rígida de espaço reservado a figuras ‘importantes’. A experiência de vida indica que a diferença marcante dos ‘ordenados’ – membros do mesmo Povo de Deus – é a sadia ‘obsessão’ pela gratuidade colegiada antes que por adereços externos. Dom Luciano sintetiza essa ideia na frase ‘somos do sindicato dos lavadores de pés’. Essa teimosia evangélica poupa energia em inflação de missas especiais rebuscadas disso e daquilo e nos convida à inserção nos imensos desafios da realidade cujo pecado capital é a exploração.
A nosso ver, a missão inserida na cidade dos profetas pode levar em conta três elementos centrais. O primeiro é a degradação geral imposta pelos impérios econômicos. Uma brutalidade violenta e traumática da ‘casa comum’ e da classe trabalhadora. Mais de 50% dos acidentes fatais no trecho da rodovia 040, nas proximidades de Congonhas, têm participação direta de carretas da mineração. Doze mil pessoas são obrigadas a morar em áreas de auto salvamento, debaixo das barragens de rejeito, por falta de opção em local seguro. A água – que era abundante – vem se escasseando devido ao rebaixamento do lençol freático através de poços artesianos com 300 metros de profundidade. O ar é poluído muito acima do permitido em lei. A sujeira do pó de minério toma conta das varandas e do interior das casas, o que aumenta o trabalho especialmente das mulheres e o consumo de água. Pior do que esse pó é o particulado que, de tão leve, fica no ar e petrifica nossos pulmões. A consequência mais grave é o crescimento vertiginoso do câncer e de doenças associadas às vias respiratórias.
Esse processo acelerado de exploração degradante aumenta a arrecadação municipal e traz empregos – ainda que precários – e, por isso, os gestores públicos, em geral, tendem à subserviência covarde e, o povo, à ingênua acomodação. Os cifrões arrecadados, boa parte dos royalties da exploração de minério, são astronômicos, totalizando a média de um milhão e meio por dia. Isso eleva o apetite voraz de ‘pequenos’ empresários locais e políticos ‘profissionais’ oportunistas, satélites periféricos do capital global à cata do farelo de pão. Questão humanitária porque royalties é sangue sugado da classe trabalhadora, jogado na podridão do cofre público e aplicado em coisinhas que levam do nada a lugar nenhum.
O mais grave de tudo é que não há nenhuma perspectiva de mudança de rumo. A emergência climática global sequer trisca nessa desgraça. Recentemente, o Governo de Minas aprovou decreto em favor da CSN autorizando desapropriação de 261 hectares em área ainda bem preservada num município saturado da exploração. O senso comum e lideranças míopes se iludem com discursos da economia verde, com tapumes a esconder crateras e algum dinheirinho na associação de bairro.
O segundo elemento é a pastoral de conjunto enquanto ação do Pastor, capaz de dar resposta eficaz a esses desafios. Sem simplismo, a pergunta é ‘o que Jesus faria nessa situação’?
A boa notícia do evangelho vivido tem força revolucionária quando enraizada em grupos de reflexão avivada na multiplicação de ‘pequenas’ comunidades, matrizes permanentemente geradoras da Igreja de Jesus Cristo. Esse é o ponto central da ‘ação conjunta’, feito tronco da árvore à qual estão associados os galhos e os frutos. Esse é o lugar teológico de quem faz opção pelos empobrecidos.
A afinidade dos padres que exercem sua missão num mesmo município é fundamental nesse processo. Só por si já é salutar. Mas a proximidade deles ainda traz, por consequência, a possibilidade real de planejamento conjunto em plena comunhão com os apontamentos do Papa Francisco, das diretrizes da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e da diocese.
O terceiro elemento é colocar a mão na massa prioritária. Agir!
Duas necessidades saltam aos olhos e merecem nossa atenção. A primeira é a característica operária de Congonhas e de todos os municípios explorados por impérios econômicos do setor minerário. Isso traz a urgência da pastoral operária. O sangue sugado ao trabalhador esgota suas forças num processo de adoecimento, uso de remédios, bebidas alcoólicas e outras drogas.
Muitos deles procuram válvula de escape nas igrejas e entram num espiritualismo que, por vezes, concebe os dissabores do mundo como eterna pendenga entre Deus e o diabo. Tudo vira coisa do ‘inimigo’. Ora bolas! Roem-se as serras e a violência cresce não por algum anjo decaído, mas pela força das máquinas cujo combustível é a ganância.
A segunda necessidade é acolhida aos moradores em situação de rua; migrantes, à procura do ganha-pão; e andarilhos que passam pela cidade.
Um bom exemplo pode ser o aproveitamento da estrutura de cozinha das três matrizes e da basílica para oferecer-lhes uma alimentação diária dentro de escala semanal. Certamente as mãos de fada das festas de padroeiros e jubileus não se furtarão a esse serviço humanitário, que poderá evoluir para política pública de proteção aos deserdados.