Marmita, organização e luta

Marmita, organização e luta

A jovem Nardelly, natural do distrito de Granada, Abre Campo (MG), estuda economia nos Estados Unidos e aproveita parte das férias em solidariedade no Sul do Brasil. Ela não se cansa de dizer que assimilou essa perspectiva de vida a partir de sua inserção no MAB, quando ainda adolescente. Sua terra natal é atingida por duas barragens hidrelétricas.

No dia quatro de julho, pela manhã, ela ajuda no preparo da batata doce que vai nas 850 marmitas do dia e, à tarde, participa de reunião na Ilha Grande dos Marinheiros.

Pedro, também jovem, que veio do Ceará, separa 25 quilos de feijão do dia seguinte. Todos os dias, as marmitas ficam prontas às 11 horas e saem em motos ou carros e vão até as famílias atingidas, que as esperam.

A tampa das marmitas leva uma etiqueta com a mensagem “um toque de carinho em cada refeição para aquecer o coração”. A frase não é de efeito; ela sintetiza o trabalho solidário do Brasil inteiro.

Quase 40 mil marmitas já servidas. Quase 150 pessoas de diferentes regiões do país, organizadas no Movimento dos Atingidos por Barragens, já passaram pela cozinha solidária e colocaram a mão na massa, o pé no barro, pela esperança que nasce da luta.

No dia 5, as brigadas do Vale do Taquari e de Canoas se encontram, almoçam na cozinha solidária e, depois, seguem para o sindicato dos bancários, no centro de Porto Alegre.

É reunião.

Quem está chegando recebe boas-vindas e quem se despede deixa saudades nesse rio místico, castigado pela tragédia do capital , materializado no contra ataque da natureza. Mas a indignação nesse Rio caudaloso, com mais de dois milhões de atingidos, há de desaguar na organização popular por esse mar de solidariedade.

Haja ações solidárias!

A emergência climática traz profundas mudanças nesse território. Intensas secas até 2023 e, após setembro desse mesmo ano, chuvas torrenciais. As mais fortes caem final de maio de 2024 no Taquari. Isso numa sociedade que sofre segregação nos últimos 20 anos. O “Leite” derramado na mídia, com as promessas mirabolantes, não chega aos empobrecidos.

Dizem que a enchente foi igual para todos, pobres e ricos. Num certo sentido pode até ser, mas as embarcações são diferentes. O Centro de Porto Alegre já tem vida normal, como se nada tivesse acontecido. Mas o bairro Arquipélago (por exemplo), com quatro Ilhas e 16 mil moradores, apenas 6 mil estariam em suas casas, mesmo assim em condições muito precárias. Dezenas de famílias se acham acampadas à margem da rodovia.

As marmitas servem de socorro imediato, pois fome tem pressa. Aos poucos elas vão ajudando na organização de grupos de atingidos nas ruas e bairros. A pauta é moradia segura e saudável; os “5.100” e novas parcelas; limpeza das ruas; prevenção de novas enchentes; e participação dos  Atingidos nas decisões.

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