Olha o trem!

Olha o trem!

Tudo preparado para seminário do programa municipal de segurança de barragem na antiga estação de Congonhas: gerador à entrada para prevenir-se da costumeira queda de energia, cadeiras espalhadas sob tenda, som, dois telões enormes e equipe de recepção com riso fácil. Funcionários da empresa andam de um lado para outro à espera dos participantes, que não chegam. Apenas gatos pingados. Iniciam assim mesmo, pouco depois da hora marcada, pois, no fundo, o que conta é a foto e a formalidade.

A devesa civil faz breve abertura, lembrando que o evento tem o patrocínio das mineradoras Vale, CSN e Gerdau, e passa o microfone à ‘palestrante’ a qual, depois de apresentação de praxe, revela seus números. Os primeiros soam alívio, ainda que possam não coincidir com a realidade dos fatos vistos de outra perspectiva, e se referem à quantidade de barragens com interferência em Congonhas; segundo ela, caiu de 24 no ano de 2022 para 15 em 2024. Nem deus sabe quais procedimentos foram feitos nessas que não contam mais e se isso realmente aumentou a segurança do povo, pois informação é algo caro à empresa, guardada sob sua batuta, usada a favor de seu interesse.

Os outros números se constituem, todos, numa fonte inesgotável de insegurança e adoecimento sem perspectiva de solução eficaz. São 12 mil pessoas, 9 mil imóveis, 36 bairros na área de autosalvamento, em Congonhas. O eufemismo indica que, em caso de rompimento, a pessoa precisa ter a condição objetivo de fugir, sozinha, da morte. Mas como conseguirá se, embora o dito tempo médio sejam 30 minutos, ele chega a 8 segundos devido à proximidade entre moradias e barragem Casa de Pedra? Que equipamentos seriam necessários para empreitada tão sinistra? Como tanta gente salvar-se em tão pouco tempo? Perguntas sem resposta no império do cifrão, o que torna inócuo qualquer simulado.

No meio da apresentação, o trem berra e, em poucos instantes, passa rente à estação, com trepidação e barulho intensos, o que leva à interromper-se a fala até aquela coisa doida sumir na noite. ‘Vamos esperar o trem!’. Ele sequer abana o rabo e sua longa cauda passa chicoteando à moda do ‘café com pão manteiga não’, totalmente naturalizado, naquela monotonia misturada à escuridão dos pensamentos nessa fumaça densa da conjuntura atual.

‘Vamos esperar o trem!’. O capital tem precedência, embora seja o trabalho que gere toda a riqueza do mundo. Os bens naturais pertencem ao povo, mas são diuturnamente surrupiados, dentro e fora da lei. Difícil compreender um planeta onde tudo tem limite – inclusive a própria vida -, apenas esse troço medonho de carga da ganância corta as cidades ao meio e segue triunfante eternidade afora só porque é de ferro.

Facebook
Twitter
WhatsApp
LinkedIn
Telegram
Email

Mais artigos de Pe. Claret

Terço de madrugada, Cristo é Show e leopardos

Cada terço com frei Gilson lhe rende por dia 18 mil reais porque o You Tube paga 4,50 por unidade de vídeo longo com 1000 visualizações, então cada pessoa conta 0,0045 reais ( resultante de 4,50 dividido por 1000). Essa quantia ‘insignificante’ multiplicada por 4.000.000 de pessoas (número de visualizações)

Leia mais »

Os dois trens

Mulheres maquinistas em Casa Grande (28/3) movimentam-se em caracol, e as demais pessoas presentes, com as mãos nos ombros umas das outras, sob cantoria e dança, somem por uma porta e reaparecem por outra, e riem no Trem das CEBs, o qual, por ser brincadeira séria, não vive de cara

Leia mais »

Alimentar a coerência

Três personagens perambulam pelas ruas de Congonhas principalmente a partir de 25 de janeiro. Respondem por Hipocrisia, Medo e Coerência, e cada qual se revela especialmente em contexto de crimes, tanto nos ‘sumps’ aqui quanto no rompimento de barragem da Vale em Brumadinho, há sete anos, assassinando 272 pessoas, ou

Leia mais »

Bem-vinda, Aylla!

Aylla é uma felizarda porque pode escolher o melhor significado de seu nome com tríplice origem – ‘auréola de luz ao redor da lua’ no idioma turco, ‘carvalho por força e longevidade’ no hebraico – a língua de Jesus – e ‘brisa-inspiração’ no grego. Mas o bom de tudo é

Leia mais »

Órgão da Sé, 280 anos da Arquidiocese de Mariana e os dedos

O famoso Órgão da Sé de Mariana é jóia histórica e artística única fora da Europa, construído na Alemanha (família Arp Schnitger) no início do século XVIII e presenteado pelo rei Dom João V ao primeiro bispo de Mariana, dom Frei Manoel da Cruz. O Órgão possui 1039 tubos, 2

Leia mais »

O Bom Jesus põe fé nas missões do Grito

As Santas Missões Populares preparatórias do Grito dos Excluídos, iniciadas em 2 de setembro, já contam com a participação de 51 pessoas dos municípios de Santa Margarida  (Distrito de São Domingos), Viçosa, Paula Cândido, Entre Rios de Minas, Lamim, Ouro Branco, Conselheiro Lafaiete, Ipatinga e de outros municípios daquela região,

Leia mais »

Sujeito indeterminado apassivador

Restam 10% da João Batista Secaram a fonte de água e bombeiam 90 metros cúbicos por hora para abastecer os quatro mil moradores de Pires Mineram metade do Município de Congonhas e cobiçam a outra parte Contraem montanha de dívida socioambiental e não querem acerto de contas. Adeus arte Adeus

Leia mais »

Quem planta, colhe: frutos de missão permanente na Mãe da Igreja

Estamos em pós missão na Mãe da Igreja, Congonhas, desde 26 (domingo) até o dia primeiro de fevereiro (sábado), quando se realizam atividades mais focadas do que na Semana de Santas Missões Populares, na perspectiva de uma Igreja em estado permanente de missão. Apelidamos esse momento de tempo de colheita!

Leia mais »