Não faltam propostas para inibir-se planta invasora em área de preservação dom Luciano, na Escola Nacional de Energia Popular: ‘a solução é trator’, ‘tem que jogar veneno’, ‘um fogo rápido resolve’, ‘melhor é colocar bezerro’.
Cada ponto de vista ascende reflexão que, somada à experiência de João Bosco na roçadeira – boa invenção -, a saída vem surgindo e parece definitiva.
João Bosco é mestre-educando da Enep e experiente em agrofloresta, conceituada assim: ‘sistema que reúne culturas de importância agronômica em consórcio com plantas que integram a floresta. Um sistema agroflorestal é um sistema de plantio de alimentos que é sustentável; faz a recuperação florestal e do solo’.
Esse sistema é muito adequado para quem, na vida, aprende a medir a ‘água com o fubá’, evitando-se que a demanda de serviços ultrapasse a energia humana disponível, pois a terra, mãe tão boa, atende às necessidades da perpetuação da vida humana pelo trabalho, cuja intensidade é inversamente proporcional ao avanço do sistema.
Existem evidências do uso de sistemas agroflorestais há 4.500 anos, na Amazônia Oriental. Mas sua sabedoria se inspira na própria natureza, que resolve seus problemas e faz resiliência há alguns bilhões de anos.
Quem adora metas e resultados, visite a Enep e olhe atrás da mandala. O processo já vai bem adiantado! Pomar feito quintal, com galinhas caipiras que oferecem ovos sadios e, ainda, contribuem no manejo com suas unhas-arado.
O pomar cresce a cada ano na exata medida das mãos disponíveis à grande obra. Saltou a tela de proteção da Enep e avança por trás da escola municipal.
Quem só olha vê apenas um canteiro de feijão; uma quadra de milho crioulo que há de se transformar em alimento saudável pelo moinho e fubá; uns pezinhos de quiabo, cana, guandu, bananeira, cará, batata doce da roxa, meio sufocadas por planta invasora persistente; e de tudo que a terra dá, se trocamos energia com ela; o olhar mais atento, porém, vai notar mudas esparsas de plantas variadas de médio e grande porte e, nesse consórcio, o germe do novo sistema, com as plantas invasoras perdendo espaço.
Essa é uma ponta da área dom Luciano. Na outra ponta, junto à lagoa da chegada, nascem, a partir de outubro de 2023, perto de cem coroas feitas com roçadeira e distantes 15 metros (média) umas das outras. Em cada coroa se faz uma cova e se finca muda que acha graça em crescer e crescer.
Fácil perceber que o trabalho diminui, pois o cuidado – incluído roçado, carpina, irrigação, adubação orgânica -, tudo se concentra apenas no entorno de cada planta.
Uma que outra muda morre, pois faz parte do viver. Mas a maioria escapa e crescer nessa onda de quem se vê parte da natureza imensa, quase infinita.
O processo continua. Entre as que são de maior porte vão se inserindo as plantas menores, sempre em diversidade e, sempre, se levando em conta o ‘instinto humano’ das plantas: as que brigam entre si e disputam e as que se solidarizam e cooperam umas com as outras.
Tudo consorciado.
Veio o sol com o tempo de seca, faz-se irrigação por gravidade; monitoramento permanente; vem a chuva e um bocado de sorte. Correm 5 anos até outubro de 2028.
Guarde essa data! Você verá um sistema agroflorestal em faze bem adiantada nessa sinergia de natureza criando gente e, gente, recriando natureza.
Terá havido muita colheita com menos trabalho. Plantas de médio e grande porte terão ganhado tamanho. Terá havido cura de doenças graves com plantas medicinas nativas mapeadas e estudadas e bem aproveitadas. Dezenas de centenas de aves terão morado ou feito ninho ou pousado nesses galhos, no descanso das sombras e no alimento dos frutos. Animais diversos terão pisado e morado nesses bosques ou, ali, buscado alimento.
A planta invasora não terá sido extinta por completo. Mas há de ter tomado jeito pelo espaço sombreado.
Também os vegetais tidos por mais intrusos e agressivos são sensíveis à educação libertadora-emancipatória de consciência e, em manejo adequado, oferecem até sementes-alimento aos Chapinhas de cantar estralado e cabeça de fogo; e tantos mais do bando em revoada, ali, nas tardes e manhãs.
Mas acertar o caminho na encruzilhada sem placa entre duas mudas, uma de angico e outra de bananeira, não foi fácil. Por um triz não se dá a mudança de olhar, essencial para que se evitem incidentes, atropelos e, mesmo, destinos equivocados, sem chance de volta.
Eis a história: covas prontas há quinze dias, balde cheio de mudas diversas, distribuição; uma das covas cheia de vagens de angico e, enquanto o trabalhador segura a muda da vez numa das mãos, ajoelha-se no chão e, com a outra mão, inicia a ‘limpeza’ da cova; seu olhar está viciado em plantar que quase não nota, ali, a semente germinada por sua conta e risco e, embora tenra, em franco crescimento; com a mudança repentina do olhar, a mão a acaricia, cuida, lhe fofa a terra, lhe chega orgânico e a muda da vez (bananeira) vai sorrir noutra cova.
Questão de olhar é questão de concepção. Pois não se enxerga com o olho, janela do corpo; enxerga-se com a cabeça.