“Todos estão te procurando”
O texto de Marcos, proclamado neste domingo, mostra-nos a agenda de Jesus em missão, num dia de sábado, em Cafarnaum. Pela manhã, esteve na sinagoga. Aí ensinou e curou um homem de espírito impuro (Mc 1,22s). Da sinagoga, foi para a casa de Simão e curou sua sogra, que se levantou e passou a servir aos que estavam na casa. No final da tarde, ao pôr do sol, quando já não mais prevalecia a lei do sábado, cura doentes e pessoas com espíritos maus. De madrugada, retira-se, sozinho, num lugar deserto para rezar. Encontrado, responde aos discípulos que não deve voltar a Cafarnaum porque sua missão é universal e deve chegar a todos.
Meditemos essa palavra a partir de três olhares: o lugar da missão, o fruto da missão e a força que faz a missão. Tentemos aplicar isso à vida de cada um de nós e também de nossas comunidades.
Nessa agenda missionária de Jesus, há, pelo menos, quatro lugares onde desenvolve a missão: a sinagoga, a casa, a rua e o deserto. Em cada um desses lugares, Jesus anuncia o Reino, mas de forma diferente. Na sinagoga, lugar da oficialidade, ele enfrenta as resistências. Vimos isso no domingo passado.
O destaque da liturgia de hoje fica por conta da casa para onde Jesus se dirige ao sair da sinagoga. Ao saber que a sogra de Pedro está com febre, ele toma a iniciativa e faz três gestos libertadores: aproxima-se, segura a mão da mulher e a ajuda a se levantar. Aqui Jesus ensina não com palavras, mas com gestos.
Quantas oportunidades perdemos de evangelizar com gestos, imaginando que só se evangeliza bem falando. Pensemos a quantos, prostrados pela febre da pobreza e da miséria, da falta de amor, de cuidado, de solidariedade, de atenção, poderíamos ter repetido estes gestos libertadores de Jesus – aproximar, segurar na mão, ajudar a levantar!…
A resposta da sogra de Pedro é o serviço. Todos que se libertam do mal que os oprime não tem outra resposta senão o serviço no amor. Quando somos libertados de nossas febres, respondemos com o serviço desinteressado e generoso?
Na rua, há uma multidão de sofredores e doentes gritando por cura e vida. Esta situação, como a da sogra de Pedro, remete-nos ao texto de Jó proclamado na liturgia de hoje. Diante da tentação de jogar no ombro de Deus a causa de nossos sofrimentos e dores, é preciso, a exemplo de Jó, recordar que dele nos vem a salvação. Só vence seus males quem coloca em Deus sua confiança, sua esperança.
Quem reconhece Jesus como o libertador de todos os males, dele se aproxima e a ele se entrega sem reservas, sem medo, como aquela multidão sofredora.
Em todos esses lugares – sinagoga, casa e rua – a ação de Jesus é uma só: ensinar e curar. Esse é o fruto de sua missão: a vida nova que vem de sua palavra libertadora. Todos se enchem da esperança que nasce do ensinamento novo que traz e também da vida nova que faz vencer a doença, o sofrimento, a pobreza a exclusão.
O quarto lugar é o deserto. Este é o lugar do missionário entrar na intimidade com o Pai que envia para a missão. Aqui, a atividade dá lugar ao silêncio, ao repouso, à oração, ao reabastecimento para continuar a itinerância que a missão exige. Por isso, Jesus não volta a Cafarnaum, mas anuncia que vai percorrer toda a região. Todos e todas têm direito à sua palavra que liberta e salva.
A missão de evangelizar é de todos, como lembra São Paulo na segunda leitura proclamada neste domingo: “pregar o evangelho é uma necessidade para mim. Ai de mim se eu não pregar o evangelho” (1Cor 9,16). Para tanto, devemos nos colocar no lugar do outro, fazendo-nos tudo com todos para salvar alguns (cf 1Cor 9,19-22).
Aprendamos, então, as três lições desta liturgia. Primeiro, o lugar da missão é todo lugar e circunstância. Há o lugar da oficialidade (sinagoga) e o lugar da liberdade, da espontaneidade, da familiaridade (casa), bem como o lugar sem limites, aberto a todos (rua) e o lugar do recolhimento e da intimidade com Deus (deserto).
A segunda lição aponta para o fruto da missão que é a transformação que a Palavra e os gestos operam na vida de quem acolhe o anúncio da Boa Nova do Reino. Por fim, aprendemos que sem a força da oração, nossa missão fracassará ou não cumprirá sua meta de alcançar a todos e todas, especialmente, os mais pobres e sofredores.
Olhemos para nossas famílias, nossas comunidades, nossa sociedade. Como temos anunciado a Boa Nova de Jesus? De quem mais precisamos nos aproximar, pegar a mão e ajudar a levantar? Temos feito isso? Que frutos a missão que realizo tem produzido na comunidade eclesial da qual faço parte?