Domingo da Epifania do Senhor
7 de janeiro de 2024
Leituras:
Is 60,1-6
Sl 71(72),1-2.7-8.10-11.12-13
Ef 3,2-3a.5-6
Mt 2,1-12
(Acesse aqui)
Por Pe. Geraldo Martins
A festa da Epifania, palavra grega que significa manifestação, é a comunicação do amor de Deus que, em seu filho Jesus Cristo, oferece a salvação a toda humanidade. A universalidade da salvação divina é, portanto, a mensagem central desta festa que, na cultura popular, é conhecida como Festa dos Santos Reis através das Folias de Reis.
No contexto do pós-exílio, o profeta Isaías conclama Jerusalém a viver novo tempo, motivada pela luz do Senhor que a deixa resplandecente. Ela é convocada a se colocar de pé e a contemplar, feliz, os que a ela recorrem, não por causa dela mesma, mas por causa da luz e da glória do Senhor que a habitam. É ao Senhor que todos procuram. Isso é causa de imensa alegria – “ficarás radiante,
com o coração vibrando e batendo forte” (Is 60,5). Os que a ela se achegam, atraídos por sua luz, levam “ouro e incenso” para o Senhor (cf. Is 60,6).
Esta palavra do profeta se cumpre plenamente em Jesus Cristo, o verbo encarnado, que se manifesta ao mundo como luz que vence as trevas. Esta luz, no entanto, só é vista e reconhecida por aqueles e aquelas que, atentos aos sinais da vida, se dispõem a caminhar para ir ao encontro do Salvador, como fizeram os magos, conforme narra São Mateus no evangelho desta solenidade.
São muitas as lições que os magos nos deixam. Falemos de quatro delas. A primeira é que eles viram o sinal – a estrela do oriente – que indicava o novo que estava acontecendo. Ver e saber ler os sinais é o primeiro passo para quem, realmente, quer encontrar a luz de sua vida, isto é, o Cristo Salvador.
A segunda lição é o seguimento do sinal. Não basta discernir os sinais. É preciso colocar-se a caminho, correr os riscos da viagem, vencer os medos. Do contrário, nada mudará. Um dos riscos é deixar-se enganar pelos poderosos que se sentem ameaçados em seu poder com o nascimento do libertador. Herodes, personificação do mal e da morte, continua presente no mundo através de todos aqueles e aquelas que não se conformam com a luta pela justiça social e pela construção do bem comum. É identificado, hoje, com as estruturas de morte que ameaçam os que vivem na invisibilidade e na vulnerabilidade provocadas pela desigualdade social e pela indiferença dos que se deixam levar pela lógica do mercado e da meritocracia.
A terceira lição que os magos nos deixam é o encontro com o Salvador, fruto de sua persistência e de sua fidelidade no seguimento da estrela. Não se perdem no caminho, mesmo quando se enganam, pensando que o Messias nasceria em Jerusalém, centro do poder político, econômico e religioso. Entendem, no seguimento da estrela, que o libertador, contrariando toda a lógica humana, nasce na periferia, pobre, no meio dos pobres.
Agora, os magos já não veem mais a estrela, não precisam mais dela, porque veem a própria luz. Diante do menino, cuidado com carinho pela mãe, cabem três atitudes: ajoelhar, adorar e oferecer presentes que traduzem sua fé: o ouro para o rei; o incenso para o Deus humanado; a mirra para o humano que nos diviniza. Não é necessário dizer mais nada. Seus gestos falam mais que palavras.
Uma quarta lição deixada pelos magos é seu retorno por outro caminho. Nada de voltar a Herodes. Quem encontra Cristo, necessariamente, faz outro caminho. Muda de rota. Muda de vida radicalmente. Não compactua com o poder que destrói e mata. Seu compromisso é com a vida, com a justiça, com a paz, com a solidariedade.
Os magos, representando os povos pagãos, nos fazem compreender o que São Paulo diz em sua carta aos Efésios: “os pagãos são admitidos à mesma herança, são membros do mesmo corpo, são associados à mesma promessa em Jesus Cristo” (Ef 3,6). Por que tantos têm dificuldade de compreender isso?
O Papa Francisco, com seu testemunho profético, tem nos mostrado esse caminho quando abre as portas a tantas pessoas que a sociedade desclassifica e condena. Por isso, é criticado, sofrendo oposição e resistência até mesmo entre a alta hierarquia da Igreja. O padre Júlio Lancelloti, com seu abnegado e combatido trabalho em favor dos descartados pelo sistema, também sofre perseguições e difamação, como vimos nesta última semana. E assim acontece com todos os que se colocam na defesa dos direitos humanos.
A Epifania do Senhor é, portanto, um apelo a que nossa fé vá além dos muros e alcance a todos e todas, especialmente, os que já foram marcados como indignos do Reino por causa da exclusão e da exploração de que são vítimas. Creio que a estrela do Oriente, que conduziu os magos à manjedoura de Belém, nos conduza hoje às manjedouras que estão nas periferias do mundo onde se encontram os encarcerados, a população em situação de rua, os explorados pelo trabalho escravo, os desempregados, os que são vítimas do preconceito, do feminicídio, da homofobia, da intolerância religiosa…
Perguntemo-nos com sinceridade: que estrela estamos seguindo no desejo de encontrar o Cristo? E ainda: com que objetivos buscamos encontrar o Senhor? A quem imitamos nesse desejo: a Herodes ou aos magos?
A depender de nossa resposta, com o poeta poderemos cantar:
Assim como os três reis magos
que seguiram a estrela guia
A bandeira segue em frente
atrás de melhores dias, ai,ai
No estandarte vai escrito
que ele voltará de novo
Que o rei será bendito
ele nascerá do povo, ai,ai
(Ivan Lins)