A chave de compreensão do livro de Daniel é manter viva a resistência e a esperança, especial realce à juventude, porque o mal não tem a última palavra.
Essa resistência é místico-política; Deus protege quem é fiel, mas tal fidelidade engloba as dimensões econômica, social, ambiental, política, religiosa, cultural à busca da vida em abundância por um mundo justo e fraterno. Sem essa perspectiva global no agir local, a suposta ‘fidelidade a Deus’ torna-se preconceito, fecha o coração à misericórdia, cai no ‘pode-não-pode’ canônico-legalista, e até os sacramentos, canais eficazes da graça, se tornam muros de exclusão.
A ‘fidelidade seletiva’ é desastrosa porque oprime justamente quem já é oprimido. Mulheres em segunda união, por exemplo; muitas delas, depois de terem sofrido terríveis violências daquele com quem eram formalmente casadas na igreja, não podem comungar, pois consideradas ‘mulheres pecadoras’ por lideranças da própria comunidade ou mesmo por padres e bispos.
Dom Luciano comparava a vivência do Projeto de Jesus Cristo a participantes numa festa de aniversário: alguns pegam apenas o glacê ou o docinho de dentro sem cortar a fatia de cima a baixo e sem sentir o sabor do evangelho na unidade tensional de todas as camadas do bolo.
O livro de Daniel ensina que ‘Deus é o meu juiz’, não os que se acham ‘prepostos’ de Deus.
O livro de Daniel, em gênero apocalíptico porque em tempo de opressão, é escrito por volta de 200 anos antes de Cristo, mas seu conteúdo abrange o exílio babilônico, cerca de 600 anos antes de Cristo.
Denilson Mariano, orientador do curso, surpreende os cursistas, falando de um bispo que chegará à Arquidiocese de Mariana, profunda inteligência, sensibilidade aos empobrecidos, testemunho de vida, santo-profeta, referindo-se ao Servo de Deus dom Luciano, cuja páscoa se deu em 27 de agosto de 2006, aos 75 anos. Assim Mariano ilustra o artifício usado por Daniel e pelos profetas em geral, pois falam do passado e do presente como algo ainda por acontecer.
Mariano reafirmou que todo profeta ou profetiza fala para seu tempo e seu povo. ‘Daniel não disse nada pensando em nós, que estamos há quase 3 mil anos do seu conteúdo, mas nós podemos tirar lições para os dias de hoje’.
Assim Mariano ajuda na correta compreensão do profetismo: não adivinho infantil do futuro, mas memória, discernimento crítico, interpretação e intervenção na realidade presente à luz do olhar de Deus.
Incômodo à vida ‘estabilizada’
‘A Teologia Popular, numa linguagem acessível, é resposta ao clamor do povo enraizada na Palavra de Deus que leva ao engajamento na comunidade e nos desafios da sociedade
em vista da libertação’, afirma Denilson Mariano, sintetizando trabalhos em grupo da tarde de segunda-feira (20), na Escola Nacional de Energia Popular (ENEP), Viçosa,
onde cerca de 50 pessoas de 16 municípios estão fazendo teologia.
Mariano faz referência a Moisés que, com esposa, filhos e trabalho – vida estabilizada -, é provocado por algo de fora e Deus se aproxima dele; seus olhos se abrem e se percebe numa ‘vida boa’ enquanto seus parentes sofrem, escravos no Egito.
Mariano ainda acrescenta que ‘nós somos Moisés hoje’, a libertação do oprimido é tarefa nossa.
O Curso de Teologia Popular (20 a 22/7) estuda o profeta Daniel, livro proposto pela CNBB para este ano; é uma iniciativa do Movimento Evangélico Popular Eclesial (MEPE), acontece desde 2015 e, além do conteúdo, os cursistas desenvolvem tarefas práticas para cuidado do espaço e repassam o aprendizado nas comunidades.