De Foucauld, a paz é a flor do deserto

De Foucauld, a paz é a flor do deserto

Mimmo Mastrangelo*

Uma coisa é pregar o Evangelho para gerar prosélitos, outra é testemunhá-lo por meio da amizade e do encontro com o outro. Charles de Foucauld (Estrasburgo 1858–Tamanrasset 1916). Após se recuperar das folias da juventude, sentiu em si a necessidade de testemunhar e tornar autêntica a palavra de Cristo com a amizade e a aproximação do outro, o irmão. E isso não para ser amado por ele, mas para amá-lo; não para ser consolado, mas para consolá-lo; não para ser compreendido, mas para compreendê-lo. Até ser assassinado por ladrões, que atacaram seu eremitério no deserto de Tamanrasset, na Argélia.

Beatificado em 13 de novembro de 2005, foi canonizado em 15 de maio de 2022 pelo Papa Francisco. Ontem era o dia dedicado à sua memória litúrgica, uma celebração que nos convida a lembrar o quão precioso é o testemunho de sua vida em um tempo em que construir a paz de baixo ainda é uma tarefa que desafia a todos. Para aprofundar sua figura, o padre comboniano Antonio Furioli retorna às livrarias com o livro “Charles De Foucauld: l’amicizia con Gesù” (Charles de Foucauld: a amizade com Jesus, em tradução livre, Àncora Edizioni, 236 páginas, €19). Esse texto sobre o espírito do sacerdote francês que, seguindo os passos de Santo Agostinho, João da Cruz e São Francisco, testemunhou como a amizade pode se tornar o viático para aproximar os cristãos de seu Deus e os homens uns dos outros, independentemente de sua fé. “O Irmão Charles se lançou de corpo e alma na luta sobre o amor a Deus e dos homens-irmãos”, escreve o autor. Suas reflexões sobre o Evangelho não tiveram um cunho teológico, mas sim a modulação de uma meditação acessível a todos. Em suas páginas, o Padre Furioli destaca: “Seu ser está inteiramente voltado para o amor mais que para a análise minuciosa da verdade. Assim, suas conclusões são aquelas de um coração ardente que ama e deseja amar cada vez mais apaixonadamente. Charles de Foucauld teve o carisma de viver a verdade, em vez de formulá-la sistematicamente.”

Antes de chegar a Cristo e à fé cristã, momentos determinantes na vida do humilde monge (nascido com o título de Visconde de Pontbriand) foram certamente a exploração do Deserto do Saara e seu encontro com o Islã. O deserto o distanciou do supérfluo, da escravidão e da vulgaridade do luxo que ostentara em sua juventude; libertou-o e o preparou para abraçar a essência da vida e da doação do amor. Por sua vez, escreveria ele mais tarde, “o Islã produziu em mim uma profunda perturbação. A visão dessa fé, dessas almas vivendo na presença constante de Deus, fez-me sentir algo maior e mais verdadeiro, pelo qual se interessam os homens. Comecei a estudar o Islã”, acrescentaria ele, “e depois a Bíblia e, com a graça de Deus agindo em mim, a fé da minha infância se sentiu fortalecida e renovada.”

O “Irmão Charles” percebeu, assim, que o Alcorão tinha muito a lhe dizer (e a lhe dar), e a partir dessa importante experiência pôde demonstrar como Deus está constantemente presente entre os homens. Não se pode deixar de ver essa experiência como uma antecipação do espírito que, meio século depois, guiou o Concílio Vaticano II (que hoje completa o 60º aniversário de seu encerramento) e sua visão das outras religiões.

As páginas do Padre Furioli são intensas, profundas e permitem sentir o pulsar daquela amizade que, segundo Foucauld, transforma os corações e os preenche de ternura. Um testemunho de como o “sopro” do único Pai, Deus, nos torna todos irmãos e dá voz ao “desejo ilimitado” de cada homem “de ser amado com um amor não abstrato, mas concreto”.

Artigo publicado por Avvenire, 02-12-2025. A tradução é de Luisa Rabolini.

Fonte: IHU

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