Em um vídeo que passou a circular nas redes sociais nos 60 anos do golpe militar de 1964, o arcebispo emérito de São Paulo e símbolo de resistência, cardeal Dom Paulo Evaristo Arns, revela os bastidores do culto ecumênico em memória do jornalista Vladimir Herzog. A celebração, que se tornara a primeira manifestação pública de repúdio à ditadura militar, reuniu oito mil pessoas na Praça da Sé, região central de São Paulo, em 31 de outubro de 1975. [Assista a declaração em vídeo abaixo].

A reportagem é de Ana Gabriela Sales, publicada por Jornal GGN, 01-04-2024.

Vladimir Herzog é uma das centenas de vítimas dos anos de chumbo. Natural da Croácia, o jornalista naturalizou-se brasileiro. No dia 25 de outubro daquele ano, ele foi preso nas instalações do DOI-CODI, departamento de repressão aos opositores do regime militar, onde foi torturado e morto. A versão dos militares apresentada à época foi a de que Herzog teria se enforcado com um cinto, mas o cardeal não acreditou na teoria do suicídio.

Segundo Dom Paulo, ao saberem do ato, cinco rabinos foram à sua casa. “Eles disseram: nós viemos aqui para que o senhor não fizesse culto ao jornalista, porque ele não foi assassinado, ele se suicidou. Aí eu disse: os senhores são rabinos e nós devemos dizer a verdade. Aquele que lavou o corpo dele, no momento em que ele descobriu os ferimentos e a tortura, avisou aos senhores e até foi ameaçado de morte pelos soldados“, contou. “Aí então eles disseram: o senhor sabe tudo. [E eu disse]: sei”, acrescentou o cardeal.

A partir disso, os rabinos teriam percebido que Dom Paulo não desistiria do ato e o mais jovem deles, o rabino Sobel, se levantou e afirmou que estaria presente na celebração e faria uma alocução ao povo se o cardeal confirmasse que iria presidir a sessão, como ocorreu.

Ainda, segundo o cardeal, cerca de 500 policiais estariam em torno da praça, sob a promessa de que se houvesse protesto “metralhariam a população”. Os rabinos manifestaram preocupação sobre isso, mas foram tranquilizados.

“Nós temos em cada janela um jornalista, dois ou três fotógrafos, que estão ali para fotografar de onde sai o tiro. Então, os rabinos não sabiam mais o que responder (…) Eu nunca ia pedir [que a população] gritasse qualquer coisa [contra os militares], mas sim que rezassem comigo”, disse.

“Quando eu entrei na Catedral e vi que não havia lugar nem para um fósforo, tanta gente e gente comovida, chorando, a frente de uma pessoa tão querida na cidade, estimada na cidade, quando eu vi isso eu me enchi de esperança em favor do povo brasileiro”, completou Dom Paulo.

Assista ao vídeo aqui

Fonte: IHU